Chapter 1 Introduction
1.1 Background
O conhecimento teórico e evolutivo dos campos da conservação e do restauro são bastante extensos e complexos para serem expostos aqui, considerando que este não é o objetivo desta dissertação. Diversos autores dedicaram trabalhos completos a esse objetivo e merecem a leitura por quem desejar uma reflexão mais aprofundada e uma visão mais ampla das temáticas. Entre as inúmeras contribuições ao desenvolvimento da teoria da restauração, podemos destacar autores como Boito (2002), Brandi (2005), Riegl (2006), Ruskin (2008) e Viollet-le-Duc (2007). Além de autores que produziram importantes reflexões sobre a trajetória desses: Choay (2006), Kühl (1998, 2005, 2006, 2010), Pinheiro (2011) e Cunha (2004, 2006). Aqui serão expostos os principais conceitos
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que fomentam o debate contemporâneo do campo da preservação e que deram forma aos conceitos de preservação e restauro propostos atualmente.
Neste recorte, o primeiro teórico a ser destacado é Camilo Boito (1836- 1914)4, com sua teoria de restauro filológico ou científico. Foi por volta de 1880, que
Boito começou a assumir a postura que o notabilizou, com os critérios de intervenção apontados no Congresso dos Engenheiros e Arquitetos Italianos em Roma em 1883, que se tornaram os sete princípios adotados pelo Ministério de Educação, conforme elencado por Kühl (In: BOITO, 2003, p. 21 e 22):
[...] ênfase no valor documental dos monumentos, que deveriam ser preferencialmente consolidados a reparados e reparados a restaurados; evitar acréscimos e renovações, que, se fossem necessários, deveriam ter caráter diverso do original, mas não poderiam destoar do conjunto; os completamentos de partes deterioradas ou faltantes deveriam, mesmo se seguissem a forma primitiva, ser de material diverso ou ter incisa a data de sua restauração ou, ainda, no caso das restaurações arqueológicas, ter formas simplificadas; as obras de consolidação deveriam limitar-se ao estritamente necessário, evitando-se a perda dos elementos característicos ou, mesmo, pitorescos; respeitar as várias fases do monumento, sendo a remoção de elementos somente admitidas se tivessem qualidade artística manifestamente inferior à do edifício; registrar as obras, apontando-se a utilidade da fotografia para documentar a fase antes, durante e depois da intervenção, devendo o material ser acompanhado de descrições e justificativas e encaminhado ao Ministério da Educação; colocar uma lápide com inscrições para apontar a data e as obras de restauro realizadas.
Os princípios de restauro desenvolvidos por Boito ficaram conhecidos especialmente através de Os Restauradores, transcrição de uma conferência realizada durante a exposição de Turim em 1884, onde ele apresentou convicções advindas de sua experiência. Este documento é base para conceitos contemporâneos de restauração.
4 Camillo Boito nasceu em Roma no ano de 1836. Estudou música e literatura, com o seu irmão
Arrigo Boito, e frequentou o curso de Belas Artes em Veneza. Foi arquiteto, engenheiro, professor, teórico, literato, historiador da arte e se dedicou a estudar especialmente o campo da preservação e do restauro. Situava-se justamente entre a modernidade técnica e a apreciação da arte, o que o tornou chave para discutir o campo da preservação.
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Boito utilizou como referência obras de Carlos Cattaneo (1801-1869), Giuseppe Mongeri, Giuseppe Fiorelli (1823-1896) e Tito Vespasiano Paravicini (1832-1899). Foi Paravicini quem atentou para o perigo da falsificação e a necessidade de distinguir qualquer intervenção da matéria original. Boito acredita que a conservação constante é sempre o melhor caminho. Essa vertente de restauro instituída por Boito ficou conhecida como filológico, onde o monumento histórico tem valor documental, e a edificação é considerada um documento histórico.
Importante citar a contribuição de Alois Riegl (1858-1905)5 que foi responsável por um profundo trabalho de reflexão no início do século XX, em relação à preservação. Riegl em O Culto Moderno dos Monumentos6 adota a postura de observador das várias formas de relacionamento da sociedade com os monumentos históricos, identificando, em categorias de valores, que podem coexistir no mesmo monumento, mesmo sendo contraditórios. Choay (2006, p. 170) aponta
que, segundo Riegl, as decisões “[...] dependem de compromissos negociáveis em
cada caso particular, em função do estado do monumento e do contexto social e cultural em que se insere”. O historiador sinaliza a individualidade dos monumentos históricos e a ausência de fórmulas genéricas. Ele vê maior importância no valor que é concedido ao monumento do que o monumento em si. E esse é o grande diferencial de Riegl, que analisa as relações e as exalta como definidoras dos valores dos monumentos históricos.
Conectado a este pensamento, de que os valores são definidos pela
5 Nascido em Linz, na Áustria, Riegl estudou história e filosofia na Universidade de Viena. Dirigiu por
mais de 10 anos o departamento de tecidos do Museu Austríaco de Artes Decorativas, onde adquiriu experiência como conservador. Em 1902 assumiu a presidência da Comissão Austríaca de Monumentos Históricos. O seu livro Culto Moderno dos Monumentos, de 1903, faz parte de um projeto de organização legislativa para a conservação na Áustria.
6 A. Riegl, Der Moderne Denkmalkultus, Viena, 1903, tradução brasileira de E. Peixoto e A. Vicentine.
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sociedade7, Cesare Brandi (1906-1988)8 foi além, e viu na restauração um ato
crítico-cultural do presente, relativizando toda ação nesse sentido, de forma a se apoiar na individualidade que deveria ser dada a cada intervenção. Tratando as dimensões formais e documentais ao mesmo tempo, de forma dialética, Brandi procurava com o restauro crítico tirar a subjetividade do ato de preservar e de restaurar.
Como diretor do Instituto Central de Restauração (ICR) de Roma, Cesare Brandi coordenou a restauração de obras de arte destruídas nos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, entre outras, e dessa experiência surge sua Teoria da Restauração9 em 1963. Segundo Brandi, “a restauração constitui o momento
metodológico do reconhecimento da obra de arte, na sua consistência física e na sua dúplice polaridade estética e histórica, com vistas à sua transmissão para o futuro” (2005, p. 30, grifo do autor). Ponto importante da sua definição está na chave metodológica que envolve o restauro; processo crítico e científico que legitima qualquer intervenção e retira o empirismo da ação (BRANDI, 2005, p. 100).
Brandi criou importante base para o desenvolvimento dos preceitos de restauro que vigoram no século XXI, utilizando-se de um ato crítico para embasar a intervenção. Ele apresenta claramente conceitos como distinguibilidade, reversibilidade e ambiência, que devem ser levados em consideração no momento da intervenção.
7 Os valores estão na sociedade, e não nos monumentos históricos, porque depende da sociedade
querer ou poder identificar tais valores, para que edificações sejam nomeadas e consequentemente preservadas para as gerações futuras.
8 Cesare Brandi nasceu em Siena, tendo falecido na mesma cidade. Licenciado em Direito (Siena,
1927) e em História da Arte (Firenze 1928), foi funcionário da Administração de tutela do Ministério da Cultura, entre 1930 e 1960. A partir de 1939 tornou-se diretor do Instituto Central de Restauro, em Roma, onde permaneceu por 20 anos. Ensinou História da Arte na Universidade de Palermo e na de Roma.
9 BRANDI, C. Teoria da restauração. Tradução de Beatriz Mugayar Kühl. 2ª. ed. Cotia: Ateliê
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Brandi coloca que “a integração deverá ser sempre e facilmente reconhecível; mas sem que por isto se venha a infringir a própria unidade que se visa a reconstruir” (2005, p. 47). Ou seja, define aí o princípio de distinguibilidade.
Pensando na evolução das técnicas e amadurecimento das ideias, e principalmente que o restauro é um ato do presente, Brandi aponta “que qualquer intervenção de restauro não torne impossível mas, antes, facilite as eventuais intervenções futuras” (2005, p. 48), promovendo a reversibilidade.
E a preservação da ambiência é fundamental, pois o espaço no qual a arquitetura se insere coexiste com o próprio monumento e, portanto sua restauração deve ter isso como guia condutor.
Em 1964, ano seguinte à Teoria da Restauração, é redigida a Carta de
Veneza, na qual é possível verificar a permanência desses conceitos. Como aponta
Kühl (2010, p. 295), a Carta de Veneza10 “é herdeira direta do restauro crítico e, indiretamente, também da teoria brandiana”. É na Carta de Veneza11 que o conceito
de monumento histórico é ampliado, passando a incluir, por exemplo, sítios históricos e edificações rurais. Também ganha ênfase o reconhecimento do valor das diversas camadas, sendo a exclusão de elementos adicionados ao longo da vida da edificação um ato excepcional.
A Declaração de Amsterdã, elaborada em 1975 pelo Congresso do Patrimônio Arquitetônico Europeu, focou em conceitos e diretrizes para abranger no planejamento urbano e regional a conservação de centros históricos. Essa
10 Seu conteúdo foi elaborado no II Congresso Internacional de Arquitetos e de Técnicos de
Monumentos Históricos, realizado em Veneza, em maio de 1964.
11 A Carta de Veneza é uma das cartas patrimoniais, e que s
egundo Kühl (2010, p. 300) “uma carta é a repercussão do estágio das idéias de um determinado momento”, sem a pretensão de ser um ponto final referencial para a restauração e sim um ponto inicial para a metodologia de intervenção, a partir das especificidades do objeto da restauração, e da respectiva realidade cultural.
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Declaração propôs o conceito de conservação integrada, onde a preservação do ambiente garantirá melhor compreensão da significação do patrimônio arquitetônico. Faz-se necessário, também, o envolvimento dos valores a serem preservados na vida cotidiana da população, priorizando a utilização do monumento histórico, para fazer perdurar sua riqueza cultural.
Outras cartas, recomendações e convenções foram e continuam a ser elaboradas com o objetivo de fornecer diretrizes universais para a metodologia de restauração de monumentos. Porém cabe ressaltar que as diretrizes contidas na
Carta de Veneza permanecem até hoje como referência aos profissionais envolvidos
na restauração. Novas linhas teóricas nascem baseadas no histórico da preservação e nas ações tomadas ao longo dos séculos para garantir a transmissão de elementos referenciais da paisagem para as gerações futuras, como parte de sua cultura e de autoconhecimento. De fato não é possível retroceder nas conquistas metodológicas de aproximação e intervenção a que chegamos hoje. Mas, sempre há novas demandas e tecnologias que contribuem para que a discussão mantenha-se ativa e renovada. É o caso, precisamente, do reconhecimento de que, para a fruição dos bens culturais patrimônio de todos , são necessárias determinadas condições que devem ser contempladas nos projetos de restauro, utilizando-se das diretrizes preservacionistas para esse propósito.