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BACKGROUND AND LITERATURE

Conquistada a terra, feita a festa e o forró, a tarefa posta aos assentados era o da construção do Assentamento Modelo e suas duas agrovilas. Numa delas, a agrovila Santa Luzia (ou Modelo II), além das casas dos assentados também se deu o processo de soerguimento da primeira edificação de uso comum: a escola.

Um grupo de mulheres, capitaneadas pela missionária da Congregação das Irmãs do Coração de Jesus, Hildegardes Correa, e Dona Rita, uma das mais ativas mulheres do grupo de recém-assentados, teve participação decisiva nesse processo, organizando turmas de alfabetização de crianças e jovens, negociando com os representantes do poder público municipal a garantia do acesso da comunidade à escolarização formal.

Assim, a preocupação inicial era assegurar as atividades escolares no próprio assentamento, pelo menos às crianças. Quanto aos jovens e adolescentes, intentava-se que fossem asseguradas vagas em escolas na cidade, além de transporte para os estudantes.

Olhe...o primeiro ano depois que nós ganhamo a terra, as criança não ficou matriculada. Ficou cada um que sabia ler ajudava uma turminha, né, dava, assim, uma ajuda. Quando foi, durante esse ano, que ficou assim, a gente ficou lutando, lutando, demo quinze [em tom de raiva] viage na prefeitura pa ver se conseguia uma escola oficial... (Dona Rita Francisca da Silva – informação verbal, entrevista concedida ao autor em 16/04/2004)

Mais de uma dezena é a quantidade da insistência, da teimosia e do compromisso dos assentados em se garantir a continuidade dos estudos dos filhos enquanto se desenrolava o processo de consolidação do assentamento.

A gente chegava lá, perante a Deus, a gente ficava, [...] assim meio dia, sentada assim de frente com ele. E ele atendia todo mundo que chegava, não atendia a gente. A gente dizia: ‘Como é, a resposta da escola, vai ser hoje?’ Quando já era quage 12 hora, meio dia, aí ele dizia: ‘Não! venha na sumana que entra.’ ‘Que dia nós pode vir? Que hora?’ Nós chegava lá, e era o mesmo massacre. Um dia até eu me aborreci e disse pra ele: ‘Me diga uma coisa vocês num diz que escola é prioridade, que toda criança deve ter escola, e como é que você diz que não pode conseguir uma escola pra nosso assentamento?’ (Dona Rita Francisca da Silva – informação verbal, entrevista concedida ao autor em 16/04/2004)

A negação do direito à educação escolar acabou sendo equacionada com a “nomeação” da Irmã Hildegardes Correia como professora das turmas de 1ª a 5ª série, constituídas no assentamento, num trabalho voluntário cujos resultados da avaliação seriam legitimados pelo órgão municipal de educação, conforme acordos construídos entre a prefeitura e representantes da comunidade então recém-assentada.

Quando foi no outo ano nós fumo lutar por transporte e pela uma vaga pra eles. Quase que a gente não conseguia, que tinha uma comissãozinha, [...] mas aí a gente conseguimo, ainda, uma vaga. Mas quando nós cheguemo no colégio, no dia que a gente conseguimo a vaga pos jovens, eles disseram que não aceitávamos jovem no colégio sem calça comprida. Aí [a Irmã Hildegardes Correia] conseguiu a calça comprida, aí os menino foram (Rita Francisca da Silva - informação verbal, entrevista concedida ao autor em 16/04/2004).

As falas revelam a via crucis que significou para essa comunidade a conquista da escola em meio a uma discursividade oficial pautada pela afirmação da escola como direito de todos e dever do Estado. A negação do direito à educação escolar se manifestou, também, na dificuldade em se garantir transporte para os jovens estudarem na cidade. Como se carregassem um karma, os jovens assentados reviviam – em pleno final do século XX – um dos mesmos constrangimentos que impediam o acesso à escola pelos seus pais e avós, quando jovens. Era como se o mundo estivesse dando voltas, mas continuasse reservando aos jovens assentados o mesmo lugar dos seus antepassados mais próximos.

Nas falas de Dona Rita, a luta encarniçada pela garantia de educação escolar para filhos e netos se apresenta na superação da discursividade oficialista que diz assegurar o direito para todos, mas na prática o nega. Também na superação dos mecanismos sociais discriminatórios que revestem o acesso a um direito pela interposição de condicionalidades infralegais, típicos de uma sociedade excludente e autoritária. Assim, para além de uma distância físico-territorial, o caminho entre a comunidade de assentados e o acesso à escola se

consubstanciava numa distância social, política e cultural, desnudada numa exigência que se alimenta do mais perverso dos mecanismos de exclusão e preconceito social: a aparência dos indivíduos ou a qualidade das roupas que vestem.

Durante o primeiro ano de assentamento, a ausência do espaço escolar oficial e a inexistência de transporte escolar que levasse os jovens do assentamento para uma unidade escolar da cidade, fez com que a Irmã Hildegardes Correia assumisse, voluntariamente, a organização da turma equivalente às primeiras séries do ensino fundamental.

A partir da reunião de um grupo de moradores, foi iniciada a construção do prédio da escola, em taipa, reconhecida inicialmente pela prefeitura como um anexo de uma unidade escolar da comunidade São Geraldo.

Foto 5 – Filhos dos trabalhadores recém-assentados, defronte à casa de taipa que serviu como primeira escola do assentamento Modelo, agrovila Santa Luzia, 1995. Foto do arquivo da Ir. Hildegardes.

Mais uma vez, deixemos que eles mesmos contem essa história.

Quando o grupo chegou no Assentamento Modelo II já sabia que para conseguir uma escola tinha que ir atrás. Então os pais se juntaram com o grupo de jovens e construíram o primeiro colégio. Foi feito de taipa, com varas e paus. As linhas eram de carnaúbas. [...] Quando chovia as paredes começavam a cair, como torrões de barro, mas com muita força de ensinar, D. Rita e outros ensinavam a distrair as crianças do perigo que elas estavam correndo debaixo daquele teto deteriorado. Essa luta e sacrifício durou mais ou menos uns três anos. No decorrer desse tempo, pessoas e mais pessoas foram falar com o prefeito para fazer um colégio. Até que o prefeito viu que a casa onde era o colégio ia cair mesmo. Ele tomou a

providência, mas isso só foi feito porque as mães dos meninos falaram que se acontecesse alguma coisa com aquelas crianças a responsabilidade era dele. Hoje as crianças estudam em um colégio com mais segurança. Demos treze viagens para falar com as autoridades municipais – D. Rita, a irmã Ildergardis e o grupo de jovens, junto com alguns pais – para conseguirmos esse colégio (SILVA et al., 2004, p. 19-20).

Desde então, a agrovila passou a contar com um novo prédio para a escola, que abriga duas turmas de Ensino Fundamental (de 1ª a 4ª série) – que atendem uma média de 42 crianças, pela manhã – e duas turmas de Educação de Jovens e Adultos (uma de alfabetização, atendendo cerca de 25 adultos, e outra de escolarização – 1a a 4 a série) que funcionam durante a noite. Uma unidade física que hoje se encontra enquadrada no sistema público municipal de ensino na condição de anexo da Escola Municipal Vitória Vilar, localizada numa comunidade próxima, São Geraldo.

Importante destacar aqui que essa trajetória da conquista da escola para Modelo II não constitui uma experiência isolada dessa comunidade. Em quase todos os processos de conquista de terra coordenados pelo MST, a luta pela garantia de escolarização dos novos assentados se faz presente, tornando a luta pela escola pública no assentamento rural e, portanto, a constituição do campo da educação formal, como uma das características centrais da relação do Movimento com o âmbito educacional. (SOUZA, 2003)

Nesse caso específico, as lideranças do MST que acompanhavam a formação do assentamento Modelo, encontraram no grupo de mulheres liderado por Dona Rita e a irmã Hildegardes um importante ator para a mobilização da comunidade. Assim, protagonizaram não apenas o mutirão responsável por erguer a casa de taipa que originalmente abrigou as atividades de educação formal no assentamento, mas também a pressão sobre o poder público municipal de João Câmara.36

36 Mais do que mero grupo organizado para lutar pela escola, as mulheres que lideraram esse processo se

constituíram em associação, com uma personalidade jurídica própria – a Associação de Mulheres Girassol –, coordenando projetos e iniciativas de natureza produtiva e educacional junto aos jovens e mulheres do lugar. Com isso, assumiram a condição de ator político relevante dentro da comunidade, em permanente conflito com as lideranças da outra associação existente – a que oficialmente representa toda a comunidade. Maiores detalhes a respeito desse processo será discutido no próximo capítulo.

Foto 6 – Fachada do prédio escolar da agrovila Santa Luzia, anexo da Escola Municipal Vitória Vilar. 2003. Foto do arquivo do Autor.