A terra na fotograia de Enoque é debitária da “imaginação criadora” (BACHELARD). Apresenta-se como criação original e injuntiva biográica/confeccionista, uma vez que a fotograia da terra resgata a origem, a experiência inicial do fotógrafo com a terra.
Trabalhou a terra desde terna infância, um ofício que o acompanhou na vida. O ser- tão é o local depositário de uma vida sertaneja, o local onde Enoque nasceu, cresceu e morreu. A terra se associa à tradição, ao trabalho, à permanência do ser que se encontra no lugar.
Daí investir na ideia de que a terra plasma a vida do fotógrafo não como cenário, ou coisa “exótica”, muito mais “matéria de poesia”, ressalta a imagem da terra como mobili- dade, ativismo, sonho laboral, ação. A terra é o lugar em que o homem se insere e partilha a vida, processa um ritmo natural nascer/viver/morrer, fazer/desfazer na alternância cíclica do devir. Fauna, lora e criatório se prologam pelo horizonte sem im da caatinga, como um jardim cultivado pela força do homem, do cavalo e do boi.
Na imagem fotográica que Enoque constrói do homem em seu viver cotidiano des- ponta muito mais do que a própria terra. Aciona a imaginação da intimidade, da “entrada” no mundo, da profundidade, da prospecção ígnea, da profundidade que adentra na litolo- gia da alma.
A imagem da terra aciona uma busca interior, a terra mobiliza o desejo de endoge- nia, “queremos ir ao interior das coisas” (BACHELARD). A terra embute a semente. Arrasta
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os dramas do viver, e mobiliza a consistência simbólica do trabalho, “escavando” a matéria ígnea.
Sua “obra-vida” fotográica emerge como fragmento de lembrança, numa intimida- de física de quem conheceu as diferentes práticas do lavourar, da colheita, da plantação, da lida com o gado, como lembrança que precisa acessar através do lirismo “real”, iccional e como forma de expressão estética do sujeito iliado à terra.
Mesmo se tratando de um fotógrafo proissional, a fotograia da terra é destituída de qualquer repositório temporal, emerge como desejo, vontade e autorretrato do sujeito, no reconhecimento íntimo de seus lugares reais-imaginários, acionando um desejo entra- da, permanência na terra.
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Pressupõe, portanto, a terra como motivo principal na qual o homem se ilia, res- saltando ruralidade, pastoreio, e agricultura como mecanismos integradores do homem à terra. Enoque cruzou o sertão, atento aos pequenos bichos, à água, ao chão, e aos homens na relação com o lugar, desnudando o sertão em rizomas, rusticidade, fortaleza.
A distância da imagem é sugestiva de um meio termo, todos os elementos estão organicamente integrados, a cena inteira está em close, ressaltando a ênfase naquilo que vê, dando a impressão que o fotógrafo se integra à cena. O primeiro plano das imagens – a terra, o chão, a vegetação, um panorama de baixo –, dá a ver um jeito de sertão. A poética da imagem desvelará trama cultural, simbólica da terra, numa criação de imagens da ter- ra, pois “a matéria imaginada, meditada, torna-se a imagem da intimidade” (BACHELARD, 1990b, p.3).
Através da fotograia se expandem “traços riscados” sobre a terra seca e pedregosa. Cravado sobre pastos, roçados, serras, tabuleiros, e “incado” entre mandacarus, xiquexi- que, rios, temos aí, um pouco de Enoque. Ele se enraíza à terra, dizendo as vivências de um homem simples com seu lugar. Seu acervo é antes, a intimidade de quem se ilia amorosa- mente à terra.
A terra aciona uma potência imaginante que mobiliza as imagens da força e do re- pouso, da irmeza e da resistência; a terra do sertão é o repouso, o refúgio de um homem ligado aos currais e a todo o criatório, uma terra que tem a medida do homem – agoniza na morte-vida Severina, mas ilia-se afetivamente com aquilo que o habita. A terra é pura resistência.
Mesmo pedregosa, árida, sugere um movimento em direção às fontes de repouso, a terra é a matéria que “nos leva a sonhar o interior das coisas”. Assim, a fotograia de Enoque contém o sertão no seu interior e a alma do sertanejo.
Enoque fotografou o agricultor, o sertanejo feliz, o vaqueiro, o morador em episó- dios da vida cotidiana, cujas cicatrizes – marcas de uma dureza ancestral, de quem ali viveu, são ligações afetivas que desvelam aos poucos a poética existencial do fotógrafo.
Enoque encontra na terra uma resistência poética, os lashes disparados buscam capturar a alma do lugar, dando-se a conhecer por meio de um jeito de viver e de estar no mundo. A terra constitui uma espécie de centralidade imaginária, circunstanciada nos gestos, práticas, formas de expressão, de um povo que corre a caatinga com coragem, não dando trégua ao cansaço; homens e mulheres dispostos a enfrentar, combater e lutar pela vida.
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A fotograia do homem iliado à terra é uma resistência simbólico-afetiva que com- bate o esquecimento, sobretudo, porque desponta a dimensão do vivido. Assim, o homem, a casa, a terra, a lavoura, a colheita e os animais domésticos (cachorros, gatos) e os de cria- ção (cavalo, jumento, vaca, ovelha, boi, porcos) emergem como pertencimento, apego, sig- niicando a terra e a vida.
A perspectiva da terra ressalta uma sensibilidade. Fotografa numa economia de re- cursos, eliminando todo o excesso das coisas, apenas mobiliza um sentimento de amizade entre os sujeitos e os animais. Prevalece uma harmonia entre o homem e os bichos: o boi é amigo do sertanejo, pousam lado a lado, numa demonstração de carinho o sujeito afaga o dorso do animal; pai, ilho e criação integram um mesmo universo. O mobilismo da ima- gem poética conduz o sonhador para um princípio de fraternidade e dependência, como se o apego aos bichos, de alguma forma, iliasse o homem ao lugar.
O “alvo” é o homem em seu labor, o agricultor com seu carro de boi, os roçados e as famílias em suas colheitas, os currais, vazios ou cheios de gado, na civilização do couro. Por mais que seu registro fotográico evidencie um modus vivendis, a estética dessas ima- gens são expressões que traz do imaginário do homem iliado à terra. O cavaleiro que com sua bravura (o arquétipo mítico do cavaleiro heroico), que em sua ancestralidade não tem medo nem de assombração, nem de enfrentar os desaios das pegas do gado “de quem, em cima de um cavalo, derruba pau e quebra espinho; e o companheirismo – não se nega a ajudar um compadre ou quem quer que peça ajuda” (Geyson Magno, 2006, Encourados: inventário fotográico, investigação sonora e registros escritos sobre o vaqueiro e a lida com o gado).
Homens, meninos e senhores de idade em suas montarias, “cavalos mágicos” pron- tos para o enfretamento – a pega de gado nas vaquejadas reais, simbólicas e dramáticas, um repertório cultural do sertanejo em seu lugar.
Enoque percorreu antigas trilhas de gado pelos sertões, tanto no Rio Grande do Norte quanto na Paraíba, fotografando um viver que revela o homem intimamente ligado à terra em seu dia-a-dia: o vaqueiro, o meeiro, o arrendatário, o garimpeiro, o agricultor e o senhor da casa grande.
Os jazidos das prospecções em garimpo abrem para o mundo metálico. A terra se oferece ao ativismo da ocorrência mineral. Uma terra profunda, vigorosa, essas imagens acionam uma imaginação curiosa, e o olhar se arvora por entrar nas “entranhas da terra”, e como escreve Bachelard (1990b, p. 10), “a imaginação está, nessas imagens, inteiramente dedicada à sua tarefa de superação. �uer ver o invisível, apalpar o grão das substâncias”.
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Os utensílios do trabalho mineral, as cubas de decantação, a bateia, as foices, a pose simulando um confronto, os martelos, os chibanques são bastante sugestivos de como a remoção da terra é uma ação dura, e violenta. Bachelard (1990b, p. 8) assegura que a terra dialetiza as imagens do duro e do mole, mas “a terra, com efeito, tem como primeira carac- terística uma resistência”. Assim, o metal da terra é admirável, um privilégio de imagens aos grandes imaginantes.
A força da matéria terrestre aciona a beleza íntima dos minerais com força e potên- cia. A terra depositária do mineral possui uma energia dinâmica na profusão do mundo dos metais e das pedras, mobiliza aquilo que Bachelard (1990b, p.1) denomina de beleza dos sólidos
Essas imagens da matéria terrestre oferecem-se a nós em profusão num mun- do de metal e de pedra, de madeira e de gomas; são estáveis e tranquilas; temo-las sob os olhos; sentimo-las nas mãos, despertam em nós alegrias musculares [...] Parece que podemos, passando das experiências positivas às experiências estéticas, mostrar com mil exemplos o interesse apaixonado do devaneio pelos belos sólidos que “posam” ininitamente diante de nossos olhos, pelas belas matérias que obedecem ielmente ao esforço criador [...].
A terra é símbolo de morada, e enraizamento do sujeito no seu lugar, projetando signiicados numa sucessão de fenômenos que estão relacionados entre si: a casa, a ve- getação e a terra, são princípios do habitar. Mobiliza as forças de resistência, também do acolhimento, “tem aspectos convidativos, e toda uma dinâmica de atração, sedução, apelo” (BACHELARD, 1990b).
O acervo da terra abre um horizonte para a concepção topofílica do enraizamen- to do sujeito, em seu lugar de origem, sendo a topoilia para Tuan (1980) a subjetividade humana que estabelece ligação entre percepção, atitudes, valores individuais e coletivos na experiência dos lugares. O sujeito transforma os valores e sensação dos lugares como resposta aos estímulos externos, na experimentação da vida social, assume a topoilia dos lugares em si mesmo, um espaço que se torna uma experiência sensível para si mesmo, que toca a si mesmo.
Na iliação do homem com a terra certos fenômenos são claramente registrados, enquanto outros retrocedem para a sombra ou são bloqueados. Assim, Tuan (1980, p. 5) sintetiza dizendo que topoilia é o elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico. A topoilia é difusa como conceito, vívida e “concreta” na experiência pessoal.
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terra foram consagradas, constituindo um verdadeiro espaço afetivo, deixando o “recalque” do agricultor que se ilia à matéria ígnea, como parte e parcela de sua saga pelas veredas áridas do sertão.
A terra é evidente, permite o acontecer da vida, em função do poder de concretude que a matéria terrestre tem – a forma mais manifesta das quatro matérias da imaginação. Bachelard (1998b, p. 7, grifo do autor) assegura que a terra é a massa do atrativo oculto, uma beleza íntima se concentra no interior da terra, mobiliza, portanto, uma imagem in- volutiva “que nos traz de volta aos primeiros refúgios, que valoriza todas as imagens da intimidade. Grosso modo, teremos então o diptício do trabalho e do repouso”.
No pensamento de Tuan a terra constitui centro de uma narrativa do homem topoi- licamente ligado à terra e às práticas de mobilização da terra; à colheita, à safra, os apegos simbólicos aos ciclos do plantar e colher, dos sujeitos em demonstrações de afeto, ternura e estima aos animais, numa iliação ancestral à terra. Tuan (1980, p. 111) diz
O apego à terra do pequeno agricultor ou camponês é profundo. Conhecem a natureza porque ganha a vida com ela. Os trabalhadores franceses quando seus corpos doem de cansaço, dizem que “seus ofícios formam parte deles”. Para o trabalhador rural a natureza forma parte deles – e a beleza, como sub- stância e processo da natureza pode-se dizer que a personiica. Este senti- mento de fusão com a natureza não é simples metáfora. Os músculos e as cic- atrizes testemunham a intimidade física do contato. A topoilia do agricultor está formada desta intimidade física, da dependência material e do fato de que a terra é repositório de lembranças e mantém a esperança. A apreciação estética está presente, mas raramente é expressada.
Enoque fotografa com a alma de quem viveu o trabalho com a terra, de quem plan- tou e colheu. A matéria imaginada se torna a imagem de uma intimidade, como uma par- te dele. A terra é matéria bela, substancializa a relação própria da natureza sertaneja – é áspera, loresce, desfalece, é profunda, acolhe, repousa, fortalece, silencia, é esperançosa, contém “a imensidão íntima das pequenas coisas” (BACHELARD, 1998b).
A terra é preciosa, com sensibilidade e talento o sujeito à experiência em sua intimi- dade, cultiva suas reentrâncias, cavidades, garimpa seus mistérios mais profundos. Nessa dimensão, Enoque fareja o garimpo e evidencia um pouco das vivências da extração arte- sanal do minério, atividade econômica comum em terras com embasamento cristalino. A estética da terra na fotograia mantém o sujeito enraizado às tradições de um tempo ser- tão, um tempo ritmado aos regimes sonoros da terra.
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a mãe levava todos os membros da família para a lavoura, e lá cuidava de inseri-los como mão de obra, o que terminava ampliando as possibilidades de produção. Em casa icava apenas um ilho, geralmente o mais velho, ou o mais cansado, cuidando dos outros, da “miunça”.
O acervo dá conta de uma vivência do homem iliado à terra, amante da terra, seus sonhos, suas “riquezas” encrustavam à terra, tudo estava na terra – o corpo, a casa, a família. A imagem da terra tem a dimensão de enraizamento, de rizoma.
O telurismo que se depreende do acervo deixado por Enoque ultrapassa o regiona- lismo na medida em que se revela uma espécie de relato visual referenciado pela paisagem sertaneja, para ser uma identiicação metafísica do homem com a terra e a natureza. Sua imagem permite que a natureza seja vista sob um ponto de vista que muda de acordo com as relações, parece se desdobrar conforme o ponto focalizado.
A assimilação da terra pelo homem vem por qualquer ser vivente, como os pássaros, os regimes d’água, os bichos pequenos, o curral, a lavoura, as casas, e todos os elementos numa espécie de tropicalismo semiárido, uma natureza fecunda, pura, muitas vezes desco- nhecida, anônima, mítica, mas querendo se revelar (CRUZ, 2009).
A fotograia da terra, é uma fotograia existencial, pulsante, repercute nos versos do poeta cearense Patativa do Assaré, a quem retroalimenta um sentido particular do sertane- jo envolto em sua ambiência, num viver incrustado à terra. O poeta parece que diz da terra de Enoque. Esse é o lugar:
�uando o sol ao nascente se levanta, espalhando os seus raios sobre a terra entre a mata gentil de minha serra, entre cada galho um passarinho canta.
�ue festa! �ue alegria tanta! E que poesia o verde canto encerra! [...] beijando a choça do feliz caipira,
sinto brotar da minha rude lira, o tosco verso do cantor selvagem (ASSARÉ, Inspiração nordestina, 2009, p. 196).
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A fotograia da terra airma um símbolo sertanejo como principal personagem desse universo de imagens. A terra está lá povoada por um modus vivendi, ligada ao plantar, à co- lheita, aos rigores climáticos do ambiente, à fauna, à lora, enim, aos homens em sintonia com a natureza.