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Na Comunidade Quilombola do Mato do Tição, o caminhar e os caminhos também possibilitam o prosear. Nessas ocasiões, o próprio caminho, normalmente, dá início ao assunto. Pisar naquele chão é puxar um fio da memória, outro do esquecimento, tecer uma história. Começa assim55: “Eu já fiz esse caminho umas mil vezes quando eu era menina, carregando lata de coco na cabeça,” “era por aqui que a gente passava pra ir pra escola, de menino”, “ou “nós acordava cinco horas da manhã, acordava não, cinco hora da manhã já tava aqui nesse moinho moendo cana, ás vezes a lua inda tava clara”, “aquela casa ali é que nós foi criado”, “tá vendo aquele pé de manga ali? De antigamente era celebrada a missa ali, missa campal.” Enquanto percorre-se um trajeto dentro do território de Matição, nas narrativas, percorre-se um trajeto de vida, ocupa-se outras territorialidades, desenha-se outros espaços. Nas palavras de Lopes (2004, p. 198), “a produção do espaço tempo está quase totalmente baseada na memória humana associada ao manejo da linguagem”.

55Imagino que essas histórias também são despertadas pela presença da pesquisadora. No entanto, notei que,

mesmo no caminhar com pessoas da própria comunidade, elementos do caminho despertam conversas voltadas à biografia e à apropriação do espaço.

Enquanto caminhei com D. Bina, do fundo do seu quintal até a beira do córrego ― uma distância de, aproximadamente, 400 metros ― conheci alguns caminhos de sua vida. O sarampo do filho que quase o matou, a relação dela com a criação 56·, o lugar onde ela faz o sabão dicuada e como aprendeu o ofício, as maneiras ela usa os remédios do campo e do mato, o trabalho na infância de moer cana para a mãe fazer rapadura, a dificuldade dela ao andar até ali por conta das dor do reumatismo. Narrativas como essa, que tive a sorte de ouvir muitas vezes em Matição, agenciam o tempo e o espaço de uma forma intrincada e conjunta, o que se faz possível exclusivamente no momento e na experiência de narrar. Ao trazerem histórias nos deslocamentos ou os descreverem, eles cartografam pontos de sofrimento, pontos de superação e os meios que criaram para superá-los.

A potência do ato de narrar está, também, na habilidade de aproveitar-se das contingências e dos encontros e na habilidade de trazer a relação para dentro da experiência narrativa. Não é só a informação passada que está em jogo, mas há uma interação do movimento no tempo e no espaço no que tange à história contada e no momento da narrativa. A memória também é agenciada pela relação social presente no momento da conversa, e não se limita ao passado. A narrativa, assim, é um imbricamento de tempos e de relações e possibilita a ocorrência da memória, mas não o contrário. Para Michel de Certeau (1994), a memória não está previamente pronta, mas se mobiliza relativamente ao que acontece:

Os modos de rememoração é conforme ao modo da inscrição. Talvez a

memória seja aliás apenas essa „rememoração‟ ou chamamento pelo outro,

cuja impressão se traçaria como em sobrecarga sobre um corpo há muito tempo alterado já mais sem o saber. Essa escritura originária e secreta „sairia‟ aos poucos onde fosse atingida pelos toques. Seja como for, a memória é

tocada pelas circunstâncias, como o piano „produz‟ som ao toque das mãos.

Ela é sentido do outro. E por isso ela se desenvolve também com a relação [...]. (CERTEAU, 1994, p.163).

Os encontros e os reencontros também ampliam a circulação das palavras faladas. Quando se tem visitas em Matição, é aí que a prosa rende (como diz Rosaura). Muitos elementos motivam as conversas e os causos: fotos, comidas, encontros, pesquisadores, projetos, plantas, remédios, outros causos, crianças. Isso, eu percebi aos poucos, quando fui deixando de ser visita e comecei a fazer parte, de certa forma, do dia a dia daquelas pessoas. Também quando levei algumas pessoas comigo, parentes, colegas na universidade ou amigos. Um dia tive a sorte de estar presente na visita de Fernanda, pesquisadora e amiga da

56D. Bina cria uma porca e algumas galinhas. O povo do Matição usa a palavra criação para se referirem a

comunidade, e Lucely57, uma das lideranças quilombolas que participou do Encontro de Saberes58 como Seu Badu. O encontro possibilitou uma sequência encadeada de narrativas, cujas paradas, cortes e silêncios faziam o elo: logo alguém comentava o que foi dito anteriormente e emendava uma história, inserindo um testemunho pessoal ou de alguma coisa que ouviu. Um silêncio ou uma imagem despertava um novo causo a ser contado, “um exercício coletivo de encadeamento mnemônico” (CERQUEIRA, 2013, p. 209). No final, esse momento rendeu uma foto. Essa, certamente, em algum momento, renderá um causo. Para melhor detalhamento, trago aqui um trecho do meu caderno de campo:

A seguir fomos para a casa de D. Nilse, que nos esperava com um farto almoço feito por Rosaura. Comemos, enquanto conversávamos sobre a magia das plantas. Depois do almoço, D. Nilse mostrou uma caixa de fotos que representam, para ela, a cultura do Matição. Inclusive fotos de D. Divina há trinta anos (FOTO 12) . Contou as histórias das fotos e das festas, conhecendo cada pessoa de fora que aparecia ali. Contava também a história do fotógrafo: fulano tirou essa foto, fulano veio aqui fazer um trabalho sobre o candombe... Esse aqui era um japonês que veio visitar a comunidade, até japonês já veio aqui...Luan disse que os professores deles não acreditaram nisso não. Aí ele levou essa foto pra eles ver... Dizia quem era e o que veio fazer. Gostava de responder às perguntas. Ria muito quando alguma foto despertava alguma lembrança. Empolgamos com as fotografias, atividade que nos demandou horas (...). Depois disso, fomos caminhar no quintal: mais uma vez, cada planta com uma função que eu nunca havia imaginado. Caminhávamos e parávamos a cada planta, sempre ouvindo as explicações e histórias. D. Nilse contou pra quê que servia, todas as finalidades, e depois narrava um caso de sucesso ou de cura em que usou tal erva. Lucely complementava com suas experiências pessoais. Vira e mexe, anotava algumas coisas em um papel velho que tirava do bolso. (Caderno de Campo, abril de 2015).

Normalmente, os causos e histórias vão trazendo outros causos e outras histórias. Uma narrativa puxa outra, que puxa outra, e forma, assim, um tecido discursivo que diz o enredo do Mato do Tição. O interlocutor, depois de reações e comentários, traças analogias e comparações, compartilhando e aproximando, suas experiências. O fluir das palavras faladas, das histórias e dos causos cria um vínculo: às vezes significa cordialidade, outras possibilitam uma intimidade e há ainda aquelas histórias que dizem e marcam uma diferença. A conversa flui no movimento do reconhecimento entre os interlocutores e se faz a partir das relações ali

57Lucely Pio (especialista em fitoterápicos e curas tradicionais, do Quilombo Cedro, município de Mineiros no

Estado de Goiás).

58Disciplina Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais que ocorre na UFMG, com a participação de professores,

estabelecidas. Assim como no Povo dos Buracos (CERQUEIRA, 2013), em Matição, o encadeamento das narrativas e a circulação das histórias produzem conhecimento e estabelecem uma linha de pensamento, tal como a economia política, a história natural. Posso comparar as narrativas em Matição com a descrição, feita por Cerqueira (2013, p. 206), da prosa do povo buraqueiro:

[...]Um movimento de reconhecimento mútuo se faz a partir de relações pessoais e geográficas, que situam o ouvinte a respeito do narrado e em função dos parâmetros apresentados pelo narrador. Neste sentido a narrativa é

bricolagem; reúne determinados conjuntos factuais: a „parentesa‟, as histórias

dos lugares, os acontecidos das biografias formam imagens independentes de sua posição na argumentação da qual são parte constitutiva. Por esta bricolagem, o modo da conversa não se distingue daquilo que se tem a dizer, uma vez que o narrado não se separa das unidades relacionais acionadas por cada imagem trazida à narração. E a forma de um causo se mistura aos elos

que lhe dão sentido. „Contar causo‟ é, em suma, uma conversa em que se aprecia o „modo da prosa‟, “uns aos outros”, no dizer buraqueiro (uns apreciando os „modos‟ dos outros).

Os causos contados em Mato do Tição abarcam temáticas variadas. Ora trazem elementos do passado, da época em que eram crianças, ora trazem casos sobre eventos recentes da comunidade. Contam como aprenderam algum ofício, das visitas que ocorreram em Mato do Tição, de acontecimentos da família. Mas há algo em comum que atravessa a maioria das histórias: a vida em comunidade. Ou melhor, a vida naquela comunidade. Para algumas pessoas que chegam, é necessário mostrar alguma versão do Matição. São inúmeras as versões acessadas, mobilizadas de acordo com quem é o interlocutor e qual é o contexto da prosa. Assim, a função dos causos não é apenas a hospitalidade e fazer o encontro funcionar. Além dessa, é o de trazer, nas narrativas, um espelho no qual a comunidade se vê refletida. Importante dizer que as crianças também participam dessa trama de causos, casos, histórias e narrativas, e foram figuras muito importantes para o meu entendimento do funcionamento dessa trama, como veremos no próximo tópico.