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BACKGROUND TO THE ICES/EUROGOOS NORTH SEA ECOSYSTEM PILOT PROJECT

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Fausto: Nessa idade você já saia montada?

Elza: Não, eu levava a roupa para fora, no quintal, em uma sacolinha e deixava lá escondidinha perto do tanque. Aí na hora de sair, eu ia no fundo do quintal, me arrumava, me produzia ali, no escuro mesmo. E saia montadinha. Colocava meia-calça, aí colocava o shorts de cotton, e ia sozinha. Atravessava, para poder encontrar com esses amigos, para poder sair. Eu era a mais ousada, nesse sentido, do grupo. Porque eles não, eles usavam umas roupas mais justas, mas, assim, sem perder a característica masculina. Ninguém usava uma blusinha feminina mesmo. Eu que quebrei isso daí. Inclusive nessa mesma época eu sofri um ataque transfóbico de um grupo lá, e depois, se você quiser, eu posso até contar para você com mais detalhes. E foi o meu primeiro ataque transfóbico.

Fausto: Pode contar se quiser agora!

Elza: Foi. Porque eu lembro que estava tudo indo bem nesse baile [era um baile no bairro ao lado do seu] a gente dançava, e os meninos respeitavam, apesar de ser periferia. Mas eu lembro que em um determinado momento... Nós ficamos freqüentando durante sete meses, mais ou menos, que eu me lembre né. E aí em um determinado ponto alguém chegou e avisou para gente, falou “olha, vão embora que eles tão armando, querem pegar vocês, bater. Tem gente armada, com revólver, e tal”. Eu lembro que foi uma noite tenebrosa, foi aterrorizante. E alguns colegas fugiram antes, sumiram do baile, e eu tentava pegar minha bolsa, porque eu tirava, né, a roupa quando estava chegando[ em sua casa]. Então eu sempre andava com mochilinha, né. Ainda tinha um colga que brincava “ah, as mochileiras”, tal, porque sabia que eu andava com roupa de mulher na mochila, chegava em casa, se trocava para poder entrar em casa sem problemas. E aí eu não conseguia pegar essa bolsa, precisava pegar a bolsa lá no balcão, não conseguia porque um desses rapazes impedia a gente. A gente estava, acho que, em um grupo de seis, cinco pessoas, se não me engano, e eles já tinham ido embora. Ficou eu e mais uma amiga, que também era bem afeminada. E a gente não conseguia. Eu brigava com ela: “vai lá e tente pegar essa bolsa de qualquer maneira, que a gente tem que sair fora daqui”, né. E a gente não conseguia. E quando conseguimos sair, eu tive que armar uma estratégia, assim, porque estava um clima tão pesado. Mas não deu certo, acabaram pegando a gente lá na rua saindo do baile, correram atrás da gente, acabaram pegando a gente na esquina.

Fausto: Mas você foi espancada?

Elza: Olha, por incrível que pareça, eu saí sem um arranhão, mas eu saí com a roupa muito suja, porque eu lembro que eu caí em uma poça, e levei vários chutes. Mas eu acho que eu me encolhi tanto nesse momento que nada de grave aconteceu com o meu rosto, nada. Só que a roupa muito suja, descabelada e tal.

Fausto: Você foi roubada?

Elza: E roubaram minha bolsa, levaram eu para um canto de um muro, teve um cara que sacou um revólver, colocou na minha cabeça. E foi bem tenso.

Fausto: Mas eles falaram alguma coisa?

Elza: Que iriam assaltar. Eu lembro que chamavam de viado, de bicha, mas foi muito rápido. Muito rápido, que eu tentava me desvencilhar dele, mesmo ele estando armado, eu estava tão desesperada que eu não tinha essa consciência...

Fausto: Consciência de que?

Elza: De que eu podia levar um tiro. Eu só sei que eu não podia, mas o revólver estava ali. E também eu não tinha medo do revólver. Eu estava com medo da situação em si, não estava focada na questão do tiro. E eu tentava desvencilhar, eram três caras, um deles tentava apaziguar a situação, tentava controlar, “ô, vai devagar aí”. Porque eu lembro que um segurava no braço, no meu braço, contra o muro, eu lembro que tinha alguém segurando no meu pescoço, que quando eu tentava gritar para alguém na rua, para a vizinhança ouvir, ele apertava e minha voz sumia, e o revólver na cabeça. E aí, ele deu, acho que em uma dessas tentativas de eu tentar me desvencilhar, ele bateu com a ponta do revólver na minha cabeça. Uma coronhada? Não sei se é isso, né. Eu lembro, ficou um galo, eu lembro que durante uma semana eu fiquei com esse galo, com esse inchaço. Mais nada. E caiu uma peça, eu ouvi cair uma pecinha.

Fausto: Do revólver?

Elza: É. No momento que ele deu, que ele bateu forte mesmo com a ponta do revólver. E eu vi que caiu uma peça, daí eu lembro que eu pensei, falei “bom, caiu uma peça do revólver, então não deve ser arma verdadeira”, não sei, né. (...) Bom, enfim, eles me liberaram e eu fiquei ali perambulando, falei “como que eu vou embora agora?”, sem a minha chave...

Fausto: Sem a sua roupa masculina, porque você ainda estava montada? Elza: Sem a bolsa. Tinha alguns objetos da minha irmã dentro da bolsa, maquiagem, brinco, que eu pegava escondido.

Após o ocorrido, é interessante perceber na fala de Elza, a necessidade de tentar justificar o seu ataque transfóbico e que os seus agressores foram ―bons‖, tiveram dó dela:

A minha preocupação era como que eu ia explicar isso, eu estava completamente desorientada. E além de tudo, já estava clareando. E o medo, né, o medo de você, na próxima esquina. Acontecer coisa pior. Por sorte, acho que eu tinha um passe de ônibus no bolso da calça, eu falei “bom, pelo menos ir embora vou conseguir”. E quando eu estava me dirigindo para o ponto de ônibus, eles estavam em um ônibus. Um deles acredito que os três estavam no ônibus, que não moravam ali naquela região do baile, jogaram, um jogou a chave pela janela do ônibus. Eu fiquei... falei “gente!”. Acho que teve do né, ficou com pena e jogou a chave. Mas a bolsa foi, tudo que tinha na bolsa foi, só jogaram a chave da casa. Então esse foi o meu primeiro ataque transfóbico, né. Foi uma coisa que me marcou muito e falavam que eles eram skinheads, na época, mas pelo que eu me lembro eles não tinham aparência de skinhead. Daí eu acabei encontrando com eles mais para frente, e eu lembro que chorava muito... nunca comentei essas coisas com a minha família.

Fausto: Mas você entrou e ninguém viu? Quando chegou em casa?

Elza: Em casa? Porque eu fui para a casa de um outro amigo, me restaurei, lavei a calça, lavei a blusa, coloquei para a secar. E aí entrei em casa, assim, acho que cheguei na tarde de domingo, acho que era um sábado, cheguei na tarde do domingo, no final de tarde, como se nada tivesse

acontecido. Não tinha marca, não tinha nada. As marcas eram internas. As cicatrizes. (...) E depois disso muita coisa aconteceu muita coisa. Se eu for contar para você tudo dá um... eu não sei nem se você vai ter tempo para ouvir tudo. Foram muitos ataques.

Segundo Alexandre de P. Carrieri, Eloisio M. de Souza e Ana Rosa C. Aguiar

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