A revolução sexual – ocorrida entre o final da década de 60 e início dos anos 70 – foi considerada um marco na história mundial. Isso porque foi avaliada como fator de rompimento da repressão cuja sexualidade era submetida e que, na verdade, fez parte de um conjunto mais complexo de mudanças sociais no que diz respeito à visão de sexualidade das pessoas. Esse conjunto de mudanças se caracterizou, principalmente, pela modificação de percepções acerca desse assunto e, pelo desvelamento de assuntos que até então tinham sido ferrenhamente reprimidos pela moralidade característica da época.
Este período foi marcado por transformações, isto é fato. Nas décadas posteriores sentiram-se as consequências – a nosso ver, positivas –, como a passagem de uma sexualidade
mais estruturalmente controlada e disciplinada por causas externas (morais), para uma sexualidade organizada através de disciplinas internas (BOZON, 2004).
Um dos resultados desse processo de individualização da sexualidade foi a progressão da medicalização (que se intensificou a partir dos anos 60), tão crescente nesse período em função dos problemas dos sujeitos – no que tange a aspectos de sexualidade – terem deixado de ser apreendidos como morais e passando a ser vistos como uma questão de bem-estar individual e social. Isso modificou por demais a visão de sexualidade, predominando noções de saúde sexual e comportamento responsável (BOZON, 2004).
Durante esse período, a contracepção se popularizou e permitiu às mulheres vivenciar de novas maneiras a experiência sexual. “[...] Os percursos sexuais, afetivos e conjugais se tornaram complexos e se despadronizaram, combinando cada vez mais sequências de vida conjugal e sequências de vida sem parceiro estável” (BOZON, 2004, p. 123).
A estrutura familiar mudou, jovens e mulheres passam a ganhar cada vez mais autonomia material em função da crescente participação no mercado de trabalho. Na onda de transformações, aumenta também a visibilidade da homossexualidade e do tema da homoparentalidade que enfraquecem a ideia de normalidade sexual.
Todas essas mudanças ocorreram muito recentemente (a partir das décadas de 60 e 70) e, ao que parece e pelo que vimos ao longo do texto, o povo de santo – e seus deuses – já percebiam a sexualidade de forma mais próxima a essa perspectiva pós-revolução sexual. Prova disso foi demonstrada, por exemplo, na perspectiva dos mitos, muitos deles trazidos da África pelos escravos.
Depois de Ruth Landes foi Peter Fry, em 1977, que continuou a falar de sexo e homossexuais nos cultos afro-brasileiros. O trabalho seguinte é de Leni Silverstein, em 1979, que reafirma e defende o poder social e político das mães-de-santo baianas – pioneiras na liderança das religiões afro-brasileiras, como vimos no capítulo anterior. A partir dos anos 1980, o número de pesquisas que exploram essa temática aumenta significativamente137.
A sexualidade é um aspecto que sempre marcou muito fortemente as religiões de matriz africana e somada à demonização da religião, houve uma relação entre esta e os/as marginalizados/as – homossexuais, prostitutas, entre outros – que não eram aceitos em outras religiões, a menos que resolvessem se converter e negar a homossexualidade ou a prostituição.
Na fala de Mãe Renilda percebemos argumentos que demonstram a receptividade de pessoas com orientação sexual diferenciada da convencional e de pessoas com comportamentos sexuais desaprovados pelas outras crenças religiosas:
[...] a gente trata com muito respeito à sexualidade que entendemos como o respeito à diversidade, que é a única religião que recebe de braços abertos todas as pessoas lésbicas, gays, prostitutas, a gente recebe de braços abertos, bota dentro de casa e cuida, por isso que lá fora nós somos vistas geralmente como gays, lésbicas, travestis, que isso pra sociedade em geral é um desrespeito, é como se estivessem menosprezando a gente porque a gente tem essas pessoas na nossa casa, mas por que nós temos essas pessoas na nossa casa? Porque nós compreendemos que a religião tem que ser tratada com igualdade. Então qual a diferença de alguém porque tem uma orientação sexual diferenciada? Qual a diferença de alguém ser casada com um hetero ou uma lésbica ser casada com outra mulher, não vejo nenhuma diferença, o que importa é o respeito138.
Este trecho da entrevista precisa de algumas observações. Opostamente ao que afirma a ialorixá, as religiões de matriz africana não são as únicas a aceitarem homossexuais. Em São Paulo há uma igreja só de gays (Igreja da Comunidade Metropolitana do Brasil - ICM) e outras denominações evangélicas que estão realizando inclusive, casamentos entre homossexuais (Igreja Contemporânea e Comunidade Cristã Nova Esperança) e ordenando pastores gays139.
Embora haja aceitação dos homossexuais no Ilê Tata do Axé, é importante lembrar que, como salienta Mãe Renilda, se um/a deles/as resolve se iniciar no candomblé, na hora do ritual as normas têm que ser seguidas, por exemplo, se um filho de santo homossexual for filho de um orixá masculino, ele terá que se vestir de acordo ou se uma filha de santo homossexual for equede, ela terá de usar saia e vestir-se como uma equede. Mas no dia a dia, o filho ou filha de santo vai se comportar da maneira que lhe convenha, de acordo com sua sexualidade, e será respeitado/a.
No que diz respeito à aceitação das pessoas como elas são – sem a necessidade de adequação às regras sexuais propostas por algumas religiões –, Mãe Renilda faz a seguinte colocação:
[...] eu tenho é que me sentir bem como eu sou, vivendo como eu vivo, da forma que eu vivo e não tendo que viver como a sociedade me impõe. A sociedade quer ter o direito de dizer: você tem que viver com um homem,
138 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 13/06/2010.
139 IGREJA da Comunidade Metropolitana do Brasil. Conheça a igreja dos homossexuais. A. Sítio GLBT.
Disponível em: <http://www.athosgls.com.br/noticias_visualiza.php?contcod=18201>. Acesso em: mai. 2011. GAZETA online. Igreja evangélica permite casamento gay. Gnotícias. Revista eletrônica gospel. Disponível em: < http://noticias.gospelmais.com.br/igreja-evangelica-permite-casamento-gay.html>. Acesso em: mai. 2011. O TEMPO. Pastores gays fundam igreja evangélica em Belo Horizonte. Revista eletrônica. http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=135740
você tem que viver com uma mulher, não, é o direito de decidir140.
Além dos movimentos sociais já mencionados, Mãe Renilda também já participou de instituições como o MEL141: “[...] eu sempre estive dentro do MEL142”; e o GLBT ou LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros): “sempre fui atuante no GLBT143”. É evidente que estar inserida dentro de movimentos como o MEL, LGBT e até mesmo o próprio movimento de mulheres influencia o discurso da ialorixá, mas o que estamos tentando evidenciar é o fato de a mesma ter tido a iniciativa de procurá-los, tentar transferir esse novo conhecimento para seus/suas filhos/as de santo e estes os transferirem para seus próprios lares, alterando a visão de mundo de várias pessoas da comunidade – não só de santo. Processo este que, reforçamos, vêm ocorrendo em escala maior na sociedade englobante.
Por outro lado, a ialorixá cumpre seu papel – por ela mesma evidenciado durante todo o tempo que estive no terreiro – de receptividade, acolhimento e aconselhamento, papel esse ainda atrelado demasiadamente ao “sexo” feminino. Mas, sem fazer restrições no que concerne a orientação sexual dos filhos e filhas, ela tem plena consciência da peculiaridade desse tratamento que se diferencia do predominante, não só em outras religiões, mas em toda a sociedade.
[...] geralmente a filha de santo nos procura pra saber o que fazer se acaba discutindo com o seu companheiro ou companheira [...] as lésbicas também, aceitamos os gays e os travestis. Então, às vezes eu me pego com um caso que, vamos dizer que a mulher brigou com a sua namorada ou vice versa, que o rapaz brigou com seu namorado, e nessa ocasião vou ter que colocar no colo e dar os conselhos de uma mãe. A mãe, eu sou a matriarca deste ilê, então eu sou aquela pessoa que tem que ser coerente, que tem que ter humanização, tentar humanizar as pessoas, mostrar o caminho bom, como é que se vive aqui. Então esse é o meu papel, o de uma mulher que cuida das pessoas e acolhe. Eu costumo dizer que primeiro eu acolho para poder conhecer e saber quem é, porque é assim que a minha religião ensina, primeiro eu acolho, depois vou procurar saber quem é. Diferente de outras religiões que primeiro vai saber quem é para poder acolher. Então aqui eu fico muito feliz [...] quando eu chego, porque aqui eu faço o atendimento às pessoas, converso e dou os meus conselhos144.
Este envolvimento com os movimentos e com as pessoas que com ele se identificam influenciou e incentivou atividades da mãe de santo dentro do terreiro, como expõe Mãe Dorioman:
140 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 13/06/2010.
141 MEL - Movimento do Espírito Lilás. Dedica-se à defesa dos direitos humanos e cidadania dos homossexuais
do Estado, sendo considerada entidade pioneira do movimento gay em toda a Paraíba.
142 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 22/07/2010. 143 Idem.
[...] temos aula até sobre isso de menstruação, aliás, Mãe Renilda trabalha conosco toda essa educação, fala sobre menstruação, camisinha, sexualidade de ambas as partes, tanto o gay como a lésbica, ela conversa abertamente sobre isso e fala e não tem nenhum problema145.
Mãe Renilda é insistente na postura de “levantar a bandeira” do movimento, até porque se trata de uma bandeira que também é sua. Ela deixa clara sua atitude diante de uma filha de santo com orientação sexual “transgressora”.
[...] não vai deixar de ser filha de santo do terreiro, não vai deixar de ser respeitada e aonde tiver eu vou sempre abraçar a todos os gays, todas as lésbicas, todas as prostitutas porque é um ser humano igual a mim, a você, igual a qualquer pessoa, então é preciso que a gente comece a compreender146.
Apresentam-se, portanto, algumas particularidades do candomblé que se distinguem das demais religiões, como a centralidade e poderio feminino, a visão divergente da predominante sobre relacionamentos amorosos – a não fidelidade a um único parceiro demonstrada nos mitos e no discurso das mulheres de terreiro com quem conversamos – e a maior naturalidade com que se trata a sexualidade. Esta última é tão verossímil que Mãe Renilda sente-se à vontade para falar de sua própria “orientação sexual”.
Então, na nossa religião, nós que somos do orixá, nós não precisamos esconder a nossa sexualidade entendeu. Então, eu sou uma mulher que tem uma sexualidade hoje diferenciada, hoje eu vivo com uma mulher. Então, nós que somos de candomblé não precisamos desse tabu, de esconder a nossa vida pessoal porque mais importante nós dizermos para a sociedade quem somos nós do que escondermos e fazermos às escondidas, como se está vendo por aí, a pedofilia de algumas religiões147.
Mas ela conta que nem sempre foi assim. Como já sabemos, ela foi casada, teve dois filhos e só “descobriu” sua homossexualidade depois de algum tempo. Descreve que essa mudança não era prevista e que simplesmente aconteceu quando conheceu uma moça no trabalho e ficaram muito amigas. Ela sabia da orientação sexual da colega, mas não se importava com isso. Durante um período acolheu-a em sua casa, pois ela passava por sérias dificuldades financeiras e, nesse meio tempo, as duas tiveram um relacionamento. Mãe Renilda conta que, desde o nascimento de sua filha, nunca mais teve um relacionamento heterossexual.
145 Entrevista concedida por Mãe Dorioman em 12/01/2011. 146 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 13/06/2010 147 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 16/01/2010
Convém mencionar que ela acrescenta relatando que o fato de ouvir com frequência mulheres que lhe procuram em busca de aconselhamento, reclamando da violência masculina, reforçou seu interesse em só manter relações homoafetivas.
A sacerdotisa sente-se privilegiada e aprova esse tratamento de maior abertura no que diz respeito à sexualidade, demonstrando as vantagens deste comportamento que traz inúmeros benefícios, pois, notam-se os resultados desastrosos desvelados recentemente pela Igreja Católica, por exemplo, em função da repressão ao tema da sexualidade e que envergonhou mundialmente o catolicismo.
[...] nós não somos demagogos de estar dizendo: eu sou uma mulher casada, eu sou uma mulher direita e por trás, a sociedade não pode saber que eu sou isso. Então quem quiser aceitar a ialorixá Mãe Renilda da forma que ela é, e é bem explícito para todos os meus filhos de santo, minhas filhas de santo dentro do barracão, olha a ialorixá ela vive assim, para depois não estar aqui: “mas eu não sabia, estou arrependida”. Então, a beleza do candomblé é essa de nós podermos ser independentes, sermos libertas para dizer tudo isto, que eu acho que era o que todas as religiões deviam fazer, era poder falar, poder dizer “eu sou isto”, não se esconder atrás de um véu que não existe, ou seja, tapar a chuva com a peneira, aí as águas ficam caindo só pelos buraquinhos. Então eu sou Mãe Renilda e a minha vida é esta148.
A composição simbólica e social interna das religiões de matriz africana é fator crucial na construção da trajetória desta mãe de santo. Assim sendo, a ialorixá mantém a postura de representante de uma prática religiosa ainda “marginal”, que se torna atuante na comunidade e, consequentemente destaca-se na política, atua em vários movimentos construindo redes de articulação para legitimar-se – a si, como sacerdotisa, e a sua religião – no propósito de ampliar e positivar a visão de sua religiosidade e, que ainda levanta mais uma bandeira – que é sua também –, a da quebra com o império da “heterossexualidade compulsória” e a aceitação de pessoas com práticas sexuais pouco “convencionais”.
CAPÍTULO 4