Iniciamos esta pesquisa com a aplicação do questionário, solicitando que os/as estudantes conceituassem célula. A maioria deles/as (144 respondentes) vinculava tal conceito à constituição dos organismos vivos; outros/as focavam em aspectos morfológicos das células, tais como:
São as menores estruturas vivas de cada ser vivo e pode ter vários formatos dependendo de sua função. (A219)27
Células não podem ser vistas a olho nu porque são muito pequenas. (A264)
Notamos que os/as alunos/as têm noção do caráter microscópico das
27 A fim de diferenciar as falas dos/as alunos/as e dos/as professores/as do corpo do
texto e das citações, elas estão apresentadas em itálico e recuadas; os trechos de maior importância foram por nós grifadas em negrito. Após as falas, apresentam -se a letra e o número do/a estudante respondente, conforme explicado anteriormente.
células, mas a compreensão da existência de diversas formas da estrutura celular foi detectada em apenas um/a dos respondentes do questionário.
Em sua pesquisa de dissertação sobre o conceito de célula viva, França (2015) encontrou uma gama heterogênea de definições apresentadas por alunos/as do 8º ano do ensino fundamental. A autora categorizou as definições da seguinte forma:
microscópica (pequeno, menor, partícula), ser humano (corpo, organismo, homem), vida (essencial, ser vivo, energia, origem da vida), moléculas (DNA, proteínas) e constituintes da célula (membrana, citoplasma, núcleo, mitocôndria) (FRANÇA, 2015, p. 67-68).
Sete alunos/as se referiram às células como microrganismos:
Células são microrganismos que constituem as partes do nosso corpo, elas formam os tecidos existentes em nós
(A217).
Células são microrganismos que compõem os seres vivos
(A16).
São microrganismos que através deles é formado nosso corpo (A241).
Essas afirmações evidenciam equívocos quanto aos níveis de organização dos seres vivos e à compreensão de célula como unidade autônoma. As pesquisas de França (2015) e Cunha (2011) encontraram em seus trabalhos concepções semelhantes às por nós apresentadas: “Nosso corpo é feito de milhões de microrganismos” (FRANÇA, 2015, p. 63); “É um tipo de ser microscópico que não pode ser visto a olho nu” (CUNHA, 2011, p. 59); e “Conhecer um pouco mais os organismos pequenos dentro do nosso corpo e que está presente em quase todas as funções” (CUNHA, 2011, p. 58).
Durante o curso de formação continuada em Biologia Celular, apresentamos aos/às docentes essas formas de entendimento sobre célula, solicitando que se posicionassem a respeito. O primeiro comentário foi:
Eles se saíram até bem, não está tão crítico. (Professora Alice).28
Em seguida, os/as participantes quiseram saber se havia alguma resposta “bizarra”29. Isso nos leva a pensar que os/as docentes não reconheceram problemas nas afirmações a eles/as apresentadas ou que tinham concepções similares às dos/as alunos/as.
Alguns/as professores/as afirmaram que os conceitos de célula encontrados nos LDs continham termos e expressões de difícil compreensão, como os exemplos a seguir, que contém termos científicos ou expressões que marcam os textos de Biologia: “célula é a unidade morfológica dos seres vivos” (AMABIS; MARTHO, 2010, p. 95, grifo nosso), ou a unidade morfofisiológica (LOPES, 2010). Estariam eles/as considerando a linguagem biológica como fator dificultador do ensino de Biologia?
Com vistas a implementar essa discussão, buscamos alguns conceitos de células presentes em livros de ensino superior e LDs de ensino fundamental e médio. Nos livros de ensino superior, encontramos: “Todos os seres vivos são formados de células – compartimentos envolvidos por membrana, preenchidos com uma solução aquosa concentrada de substâncias químicas” (ALBERTS et al., 2004, p. 3); “Célula é a unidade que constitui os seres vivos” (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2013, p. 2); e “A célula é a menor unidade estrutural e funcional dos organismos” (DE ROBERTIS; HIB, 2001).
Nos livros de ensino médio, encontramos: “Células são unidades fundamentais que formam a maioria dos seres vivos” (SILVA JUNIOR; SASSON; CALDINI JUNIOR, 2013, p. 26) e:
A célula é a estrutura mais simples capaz de desempenhar todas as atividades típicas de um organismo vivo: crescer, desenvolver-se, reproduzir-se e interagir com o meio que a
28 A professora Alice tem formação na área específica, ou seja, Licenciatura em
Ciências Biológicas, mas não considerou os erros conceituais apresentados pelos/as alunos/as em suas respostas.
29 Expliquei que havíamos considerado todas as respostas dos questionários, sem
classificar se estavam corretas ou não, tendo em vista que toda informação era valiosa para expressar as concepções daqueles/as alunos/as.
cerca, extraindo deles nutrientes e energia e devolvendo-lhe produtos de seu metabolismo. (SILVA JUNIOR; SASSON; CALDINI JUNIOR, 2013, p. 205).
Em um livro de ensino fundamental, o conceito apresenta-se da seguinte forma: “As células são os elementos fundamentais, ou seja, as unidades estruturais dos seres vivos” (USBERCO et al., 2012, p. 12).
Durante o curso de formação, a discussão sobre os conceitos de célula com os/as professores/as gerou inúmeras argumentações, dentre as quais está o uso da expressão “unidade morfofisiológica” e a dificuldade de os alunos entenderem os conceitos apresentados devido à linguagem biológica. Então, o grupo de professores/as deliberou que a definição de célula deveria ter alguns critérios e informações sobre forma, funcionamento, tamanho e como ela desempenha seu trabalho, tendo buscado outros termos ou denominações que superassem os nomes técnicos, classificados por eles/as como confusos e de difícil assimilação (morfologia, morfofisiologia). Nesse sentido, os/as docentes chegaram à seguinte definição de célula:
Célula é a menor parte que constitui estruturalmente um ser vivo, com formas e funções específicas necessárias à manutenção dos seres vivos e sua relação com o meio que os cercam. (Profs. Alice, Maria, Pedro e Daniela).
Esse conceito selou a discussão sobre a construção de conceitos e do conhecimento científico. Ele foi proposto como produto de uma etapa do curso de formação e, conforme os/as participantes disseram, seria adotado por eles/as em suas práticas pedagógicas futuras. Inferimos que tal conceituação não fugiu do cerne das demais definições de célula que encontramos nos autores supracitados, mas restringiu o uso de termos científicos próprios da Biologia.
Nesse contexto, seria a linguagem biológica o único empecilho para a aprendizagem da Biologia? Entendemos que faz parte do corpo de conhecimentos da área a aquisição de um vocabulário particular, específico dos conteúdos e dos procedimentos de determinada área do saber,
relacionando a linguagem à alfabetização e ao letramento científico. Todavia, o processo de construção desse conceito foi importante para que os/as professores/as refletissem sobre o desenvolvimento do conhecimento científico e os aspectos teóricos que devem protagonizar os saberes docentes e escolares sobre Biologia Celular.
Richter e Hermel (2016, p. 3.196) constataram que a definição de célula, nos LDs de Ciências e Biologia publicados no Brasil entre 1923 e 1949, estava reduzida a “uma estrutura limitada por membrana, contendo em seu interior um núcleo imergido no protoplasma”, ficando evidente que não havia clareza na sua conceituação. Alberts et al. (2004, p. 3), em livro de ensino superior, utilizam uma concepção de célula semelhante a essa na introdução da obra Biologia Molecular da Célula, embora saibamos que essa definição pode ocorrer em determinados contextos, em diferentes níveis de ensino, como, por exemplo, ao realizar a introdução do tema e, posteriormente, desenvolver seu estudo de forma detalhada.
Outrossim, em consonância com Bastos (1992), Carrillo et al. (2011), Jara e González (2012) e Palmero (1997), o conceito de célula é vital para a construção e a estruturação do conhecimento biológico e de seus desdobramentos a caminho da compreensão da organização e dos processos vitais. Como afirmado por Cherif et al. (2016, p. 75), “a célula é a menor entidade capaz de exibir características de vida”. Sendo assim, esse conhecimento sustenta a importância de entender a célula, tendo em vista sua participação fundamental na constituição dos seres vivos, em geral, e do próprio indivíduo como pessoa.
Durante a execução do grupo focal, ao discutirmos sobre a questão da dimensão das células e da relação com seu funcionamento, o professor Carlos afirmou:
Eu creio que transferir isso para o aluno é extremamente complicado, porque a noção dele do espaço celular... é uma coisa que eu acho que ele não tem muita noção realmente do que é, se ele não vivenciar isso, não há prática... não observar a cebola, ou estômatos, ele não vai ter noção nenhuma do tamanho, da dimensão disso. É complicado por essa causa.
O uso da palavra transferir, nesse contexto, revela a concepção tradicional do professor sobre o ensino de Biologia. Essa visão do processo de ensino-aprendizagem pode ser a responsável pela manutenção do/a estudante em seu papel passivo de receptor e reprodutor de saberes. Entretanto, o que discutimos com esses/as professores/as durante o curso de formação foi a necessidade de transcendermos essa percepção tradicional e adotarmos posturas diferenciadas que possibilitem aos/às discentes serem participativos/as no ato de produção do conhecimento, atuando ativamente na construção de saberes biológicos e na reflexão sobre sua importância na sociedade.