A crença na existência de dois Anticristos parece ter sido um fenômeno particular da cristandade latina, descrito em versos por Comodiano148 em meados do séc. III e em prosa por Lactâncio, naquela que é considerada sua principal obra,
Divinarum Institutionum,149 escrita na primeira década do séc. IV.
Comodiano relata em seu poema Carmen de Duobus Populis150 que Nero, o primeiro Anticristo, será morto por “por um rei que virá do Oriente”, o qual, após realizar muitas façanhas, será por sua vez derrotado por Deus no final dos tempos. Lactâncio, por sua vez, mistura fontes pagãs com as escrituras para convencer seus leitores que o fim está próximo. Em seu texto, o final dos tempos seria precedido por um “poderoso inimigo vindo do norte”, que após “afligir o mundo com uma tirania insuportável”, seria substituído por um “rei nascido de um espírito maléfico, vindo da Síria”, o verdadeiro Anticristo (MCGINN, 1996: 66-68):
Um rei vindo do leste com quatro nações, levanta-se mais uma vez para derrotar Nero [...] Vindo da Pérsia, esse homem disse que era imortal [...] Estes dois são os profetas dos fins dos tempos. Nero é o destruidor da cidade [Roma], neste caso, a totalidade da terra: conto apenas algumas das coisas que tenho lido sobre ele. (Carmen 932-936)
148
Comodiano (séc. III EC) é considerado o mais antigo poeta cristão a escrever em latim. 149Instituição Divina.
Em primeiro lugar, o reino será ampliado, e o poder, disperso entre muitos e dividido, será diminuído. Então discórdias civis serão perpetuamente semeadas [...] dez reis surgirão ao mesmo tempo, que irão dividir o mundo, não para governar, mas para o consumir [...] Em seguida, um inimigo mais poderoso surgirá contra eles a partir dos limites extremos da região Norte [...] que deve ser admitido à aliança com os outros, e será constituído príncipe de todos. Ele deve incomodar o mundo com uma tirania intolerável [...] (InstDiv 16) Quando o fim dos tempos se aproximar, um grande profeta será enviado para levar aos homens o conhecimento de Deus, e ele deve receber o poder de fazer coisas maravilhosas [...] Por estes prodígios e poderes ele converterá muitos à adoração de Deus. E quando as suas obras estiverem cumpridas, outro rei se levantará na Síria, nascido de um espírito maligno, o conquistador e destruidor da raça humana, que destruirá o que foi deixado pelo mal que o precedeu [...] Ele lutará contra o profeta de Deus,o vencerá, o matará e o deixará insepulto; mas ao terceiro dia ele voltará à vida. E enquanto todos olham maravilhados, ele será apanhado e levado aos céus. Mas esse rei não será somente desgraçado em si mesmo, mas também será um profeta de mentiras; ele irá se constituir e se chamar o próprio Deus, e vai ordenar ser adorado como o Filho de Deus. (InstDiv 17)
Então, ele vai tentar destruir o templo de Deus, e perseguir os justos e haverá angústia e tribulação tais como nunca houve desde o início do mundo [...] Quando estas coisas acontecerem, então os justos e os seguidores da verdade vão se separar dos maus e fugir. E quando souber disso o rei ímpio, inflamado pela raiva, virá com um grande exército e cercará a montanha em que o justo se escondeu. Mas quando eles se virem [...] sitiados invocarão a Deus em alta voz, e implorarão o auxílio do céu, e Deus os ouvirá e irá enviar do céu um grande rei para os resgatar e libertar e destruirá todos os ímpios com fogo e espada. (InstDiv 17)
Lactâncio, embora claramente inspirado por João em Institutionum, não considera Nero como sendo o “inimigo que virá do norte” e nem chama o “rei que se levantará na Síria” de Anticristo. Além disso, e também diferentemente do
Apocalipse,151 seu texto utiliza apenas um profeta em vez de dois.
À duplicidade do Anticristo, aparentemente restrita à tradição latina, adicionou-se a partir do séc. III a preocupação com a descrição de sua aparência física. Embora uma das mais importantes e difundidas contribuições para o desenvolvimento da lenda, essa novidade ficou praticamente limitada à cristandade oriental. Testamentum Dominum,152 um texto anônimo de origem grega daquela
151 Cf. Rev 11: 3-12.
época, mas conhecido por uma tradução siríaca do séc. VII, descreve as feições do Anticristo da seguinte maneira (COOPER & MACLEAN, 1902: 5):
E esses são os sinais dele: sua cabeça [é] como uma chama de fogo, seu olho direito manchado de sangue, seu [olho] esquerdo preto- azulado e ele tem duas pupilas. Suas sobrancelhas são brancas e seu lábio inferior é grande, mas sua coxa direita fina e seus pés largos. Seu polegar é chato e [tem uma] ferida. (TestDom: 1:11)
Além da aparência, o texto do Apocalipse de Elias revela “que ele [Anticristo] multiplicará seus sinais e seus prodígios na presença de muitos, fazendo as mesmas ações que o Cristo fez, exceto por ressuscitar os mortos”, enquanto no Apocalipse do
Santo Teólogo João (séc. V), um diálogo pós-ressurreição entre Jesus e seus
discípulos, o Anticristo , além de descrito, é identificado por uma inscrição em sua testa:
Pois veja, eu lhe contarei seus sinais, de modo que você possa reconhecê-lo: ele é um jovem de pernas finas, com um tufo de cabelos grisalhos na frente de sua cabeça calva. Suas sobrancelhas alcançam seus ouvidos e existe uma marca de lepra na palma de suas mãos. Ele se transformará na presença daqueles que o veem [...] mas os sinais na sua cabeça ele não conseguirá mudar. (ApEl 3:14-17)
“Senhor, revela-me como ele é. E ouvi uma voz que me dizia: A aparência do rosto é sombria, seus cabelos como pontas de flechas, as sobrancelhas ásperas; seu olho direito é como a estrela da manhã e o esquerdo como o de um leão; sua boca tem um cúbito de largura, os dentes um palmo de comprimento, os dedos são como foices. Suas pegadas têm dois cúbitos de comprimento, e na testa está escrito Anticristo”. (ApStTJn 6-8)
2. 5 O Anticristo entre os sécs. IV e VI EC
O texto da Leitura Catequética de número 15, dedicada à exegese de Dan 7, em Cirilo (ca.315–386), bispo de Jerusalém, e o do discurso Sobre o fim do Mundo, em Pseudo-Hipólito, revelam que a incorporação da imagem do Anticristo à época da cristianização do Império Romano153 já havia sido definitivamente assimilada, embora de forma assimétrica. Assim, enquanto Cirilo, por exemplo, orientava sua audiência a
153 O acordo entre Constantino e Licínio em Milão permitindo que os cristãos fossem tratados de “forma benevolente” data de 313 EC.
identificar o Anticristo dissociando suas ações daquelas do verdadeiro Cristo, Pseudo- Hipólito as igualava:
Agora que o verdadeiro Cristo está para vir uma segunda vez, o adversário [...] traz certo homem que é um mágico experiente em bruxarias e encantos de astúcia sedutora, que tomará para si o poder do império romano e falsamente se considerar o próprio Cristo; enganando os judeus, que estão procurando o Ungido e seduzindo os gentios por suas ilusões mágicas. Mas este citado Anticristo virá quando os tempos do Império Romano tiverem sido cumpridos, e o fim do mundo estiver prestes a chegar. Dez reis dos romanos deverão se levantar juntos, reinando em diferentes partes talvez, mas todos ao mesmo tempo; e depois destes, um décimo primeiro, o Anticristo, que, por seu ofício mágico, vai apoderar-se do poder romano. (Cat.Lect 15: 11-12)
Pois em todos os aspectos esse simulador procura se fazer parecer com o Filho de Deus. Cristo é um leão, e Anticristo é um leão. Cristo é o Rei das coisas celestes e terrenas, e o Anticristo será rei sobre a terra. O Salvador se manifestou como um cordeiro, e ele também vai aparecer como um cordeiro, enquanto ele é um lobo por dentro [...] Cristo reuniu as ovelhas dispersas e ele, do mesmo modo, reunirá os povos dispersos dos hebreus. Cristo deu aos que nele creem a honrada e vivificante cruz, e ele, do mesmo modo, dará seu próprio sinal. Cristo apareceu em forma de homem, e ele do mesmo modo, virá na forma de homem. Cristo surgiu entre os hebreus, e ele irá aparecer entre os judeus. Cristo exibiu sua carne como um templo, e a ressuscitou no terceiro dia, e ele também irá levantar novamente o templo de pedra em Jerusalém. (Ps.Hipp 20)