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Em 1983 teve início o movimento político das Diretas Já. O pemedebista Dante de Oliveira propôs a emenda constitucional que previa eleições diretas para o cargo de presidente nas eleições de janeiro de 1985. É talvez o maior movimento político da história republicana brasileira. Milhares de pessoas se reuniam nos comícios pelas grandes e médias cidades. Nos dias finais do movimento Belo Horizonte chegou a reunir 300 mil pessoas num comício; o Rio de Janeiro 1 milhão e São Paulo 1,5 milhão de pessoas. As principais lideranças que faziam oposição ao governo se uniram ao movimento das Diretas Já. Entre elas estavam Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Leonel Brizola, entre outros.

A emenda do deputado federal Dante de Oliveira foi aprovada por 298 a favor e 65 contra na votação na Câmara dos Deputados. Entretanto, em razão da ausência de 113

deputados a votação não pôde ser validada por questão de quorum. Foi constituído então o Colégio Eleitoral a fim de escolher de maneira indireta o presidente da República. Como já se sabe a chapa Tancredo Neves e José Sarney saiu vitoriosa.

No início de 1985 o pastor Manoel Ferreira esteve em audiência com Tancredo Neves em Brasília. O jornal Mensageiro da Paz relatou o fato quando diz: “Em nome das Assembleias de Deus no Brasil, o pastor Manoel Ferreira aproveitou a ocasião para entregar a Tancredo Neves um ofício convidando-o a comparecer a 27ª AGO” (MP, n. 1, p. 8, 1985). Entretanto, essa reunião não foi apenas para convidar Tancredo Neves para participar da Assembleia Geral Ordinária (AGO). Além do pastor Manoel Ferreira esteve presente o presidente da Associação dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno (ADHONEP) e diretor executivo da CPAD, Custódio Rangel Pires, entre outras lideranças assembleianas. O pastor Nemuel Kessler relatou no jornal Mensageiro da Paz:

A audiência concedida pelo Dr Tancredo Neves a diversos pastores das Assembleias de Deus, em atendimento à solicitação do irmão Custódio Rangel Pires, Diretor Executivo da CPAD, que também se fez acompanhar do pastor Manoel Ferreira, então presidente da CGAD, representa uma nova porta que se abre para o diálogo entre evangélicos e o próximo governo brasileiro (MP, n. 2, p. 2, 1985).

Na pauta da referia audiência estava a entrega de um documento elaborado pelos pastores pentecostais com propostas ao então presidenciável Tancredo Neves: i) Que o Brasil estreitasse as relações com Israel; ii) a retirada dos simbólos das religiões de matriz africana das moedas e notas; iii) que fosse criado o Dia Nacional de Jejum e Oração. A primeira “proposta” ganhou mais força nessa década de 1980 por causa do imaginário político-religioso dos desdobramentos da Guerra Fria, que discutiremos adiante. A segunda proposta também será analisada posteriormente.

Sabe-se que Tancredo Neves não chegou a assumir a presidência em razão de sua morte em abril daquele ano de 1986. O teor da matéria publicada no jornal Mensageiro da Paz sobre a morte é ambíguo. Ela transmitiu pesar pelo falecimento, mas ao mesmo tempo questionava se o governo de Tancredo não iria favorecer a Igreja Católica.

[...] Por outro lado, será que Tancredo Neves, no exercício da presidência, como católico praticante e devoto seguidor de São Francisco de Assis, teria condições de não submeter-se a prováveis influências do clero romano, que tentassem comprometer os objetivos da Nova República, principalmente no que tange a liberdade de expressão religiosa? Reiteramos o que já disse o

Jornal Batista: “Ponto de honra para nós é a preservação do princípio de separação entre Igreja e o Estado...” (MP, n. 6, p. 10, 1985).

Há alguns elementos estão claros nesse enunciado. Ao que indica, no encontro dos pastores com Tancredo Neves não foi discutido a influência católica. Pelo que vimos nas propostas apresentadas foram os símbolos das religiões de matriz africana que estiveram na pauta. Outro dado é um trecho do Jornal Batista usado para fundamentar a separação entre Estado e Igreja. Nos primórdios do pentecostalismo brasileiro jornais batistas e jornais assembleianos trocaram farpas, principalmente, por questões doutrinárias.

No ano de 1984 está o embrião daquela que seria a Frente Parlamentar Evangélica (FPE)24. Um dos idealizadores foi o deputado assembleiano José Fernandes, depois de

conversas com outros deputados evangélicos nas dependências da Câmara dos Deputados. O deputado José Fernandes recebeu uma carta do pastor Otoni Moura de Paula, então assessor da vereadora assembleiana Benedita da Silva. Essa carta propunha a realização do I Encontro de Parlamentares Evangélicos; desse modo Benedita da Silva está na origem desse processo. A deputada Benedita da Silva ainda faz parte da FPE; além de ter sido sempre de um partido de esquerda, seus posicionamentos polítcos diferem de muitos outros deputados evangélicos. Esse é um dos elementos que demonstram a heterogeneidade da Bancada no Congresso Nacional.

Benedita da Silva era uma típica mulher assembleiana: negra, pobre e empregada doméstica. Em razão de sua filiação partidária de esquerda e de determinados posicionamentos políticos não era uma candidata oficial das ADs. Por isso era uma parlamentar assembleiana e não uma parlamentar da Assembleia de Deus.

No dia da posse do primeiro presidente civil após o golpe de 1964, Figueiredo se recusou a passar a faixa ao presidente Sarney; como já nos referimos em outra ocasião a posse do Sarney não significou a restauração de uma República democrática. Mota (2015) questiona o uso da expressão redemocratização para esse período. Para ele o termo deveria ser mesmo democratização, pois para Mota o Brasil ainda não tinha vivido um regime de fato democrático em toda a sua história. Ele lembra o fato de que mesmo durante o período de 1946 a 1964 partidos de esquerda e políticos como Jorge Amado e Carlos Marighella foram cassados por razões ideológicas.

A chegada de Sarney ao poder significou a volta ao poder de antigos quadros ligados à UDN de caráter liberal e conservador. Na composição ministerial vários nomes pertenciam à

24 Desde seu surgimento na Assembleia Nacional Constituinte (1986-88) a Frente Parlamentar Evangélica é

linha ideológica da antiga UDN (MOTA, 2015): o baiano Antônio Carlos Magalhães, o mineiro Aureliano Chaves, o catarinense Jorge Bornhausen, entre outros. O governo Sarney adotou a discurso de conciliação das antigas elites políticas do Brasil, na medida em que ao invés de

remoer o passado recente se deveria criar um clima de harmonia social. Era um claro gesto de jogar a sujeira para debaixo do tapete.

O novo governo pavimentou o surgimento de um neoclientelismo, onde grandes empreiteiras, multinacionais, companhias de aviação entre outras desenvolveram práticas monopolistas. A expressão “capitalismo selvagem” surgiu nesse período. Essa “nova classe promíscua e deslumbrada com o capitalismo e com as colunas sociais dos jornais e revistas, o mesmo capitalismo, agora selvagem, que pagou contas do DOU-CODI” (MOTA, 2015). Mesmo sem a presença dos militares no poder, essa classe econômica tinha o apoio e o respaldo do governo Sarney.

Ainda em 1985 foi realizada uma AGO na cidade de Anápolis. Como de costume um temário de assuntos foi apresentado, mas entre os assuntos não constou a participação nas eleições de 1986. “A elaboração antecipada de um temário pressupõe que os assuntos nele incluídos refletem o escopo das grandes questões que interessam, de perto, à vida de nossa Igreja” (MP, n. 3, p. 2, 1985). Apesar disso, estiveram presentes o governador de Goiás, Íris Resende; o prefeito de Anápolis, Anapolino de Farias; os deputados federais Daso Coimbra e José Fernandes; o deputado estadual por São Paulo, Carlos Apolinário e o vereador Gilberto Nascimento. Durante as reuniões convencionais o governador Íris Resende concedeu entrevista ao jornalista da CPAD pastor Geremias Couto. Nela, Íris “incentivou” mais participação das ADs na política partidária.

Dias depois foi convocada uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE), cujo assunto principal seria a unidade de ministérios, tendo em vista que havia muitas divisões no interior da eclesiologia pentecostal. Essa AGE aconteceu em Brasília. Todavia, outro assunto também dominou a pauta de discussões: o lançamento de candidaturas para as eleições de 1986. Além dele, foi constituída uma comissão de pastores que apresentaria propostas ao pré-projeto do texto constitucional. O jornal Mensageiro da Paz relatou que “reunidos em Brasília, constiui- se uma comissão tendo entre seus membros Manoel Ferreira, Alcebiádes de Vasconcelos e o presidente foi o Luiz Bezerra da Costa” (MP, n. 6, p. 10, 1985).