3. VERDI- OG KONSEKVENSVURDERING
3.6. B RUKERINTERESSER
Na concepção de Habermas (2012a, p. 206): “Falar e agir são conceitos fundamentais inexplicados, aos quais recorremos quando queremos aclarar [...] o pertencer a um mundo da vida sociocultural, o ser-parte de um mundo [...]”. Ora, como vimos no primeiro capítulo, perceber o sujeito destranscendentalizado, é percebê-lo mediante o seu protagonismo e autonomia, por meio de suas ações racionais e de seus atos de fala no mundo e como parte intrínseca desse mundo.
O sujeito em sua ação comunicativa deixa de atuar no campo da fundamentação, do preconceito e da intuição e passa a assumir posições de intervenções linguísticas, heterogêneas e intersubjetivas, ou seja, o agir racional
comunicativo e destranscendentalizado sugere que “[...] os sujeitos agindo comunicativamente se tratam literalmente como falantes e destinatários, nos papéis das primeira e segunda pessoas, no mesmo nível do olhar” (HABERMAS, 2012c, p. 53).
Nesse sentido, se caracteriza, portanto, o uso cotidiano dos atos de fala entre falantes e ouvintes, em conformidade com as comunidades linguísticas no enfoque das relações subjetivas, tanto na sua intervenção quanto na sua orientação e entendimento do contexto de mundo, tendo como finalidade e critério as pretensões de validade. Para Habermas (2014a, p. 248): “[...] o específico nessa comunidade linguisticamente estruturada é que nela os indivíduos individuados se comunicam”.
Noutras palavras, este recorte constitui-se em uma relação pautada no olhar horizontal com o outro, respeitando as estruturas, as normas e as regras da linguagem, estabelecendo uma relação dialógica e embasada no convívio social, ou seja, para Habermas (1990) é uma concepção pautada na justiça, na ética, no respeito e na verdade, pois “os atos de fala servem, em geral, à coordenação, tornando possível um acordo racionalmente motivado entre vários atores; e nisso colaboram também as outras duas funções da linguagem – a representação e a expressão” (p. 95). De fato, o uso expressivo do processo de interação social entre os sujeitos, é conceituado por Habermas, como um enlace que envolve as interações linguísticas e suas ações no mundo objetivo em conformidade com os diferentes.
Assim, é interessante notar que, por intermédio desse processo, Habermas (1990) expressa a possibilidade de eventuais e diferentes ações e discursos sociais, provenientes da prática comunicativa dos diferentes atores e no seu entrelaçamento com o mundo da vida. Isso acontece no âmbito das pretensões de validade e da retitude e, portanto, nos instiga para um processo da justiça social. A perspectiva da justiça social pode ser definida como um cuidado, uma postura ética e uma responsabilidade, consigo mesmo, com o mundo e, consequentemente, com o outro.
A partir disso, originam-se conjuntos de sentidos que envolvem uma estruturação da relação subjetiva “resultante da reprodução cultural, da integração social e da socialização, e esse jogo está, por sua vez, enraizado nessa prática” (HABERMAS, 1990, p. 100), isto é, o discurso linguístico tem sua gênese no mundo
da vida e, portanto, está pautado em um processo de autorreflexão histórica e na experiência dos sujeitos, dentro de uma relação intersubjetiva.
Neste âmbito de raciocínio:
A rede da prática comunicativa cotidiana espalha-se sobre o campo semântico dos conteúdos simbólicos, sobre as dimensões do espaço social e sobre o tempo histórico, constituindo o meio através do qual se forma e se reproduz a cultura, a sociedade e as estruturas da personalidade (HABERMAS, 1990, p. 96).
Compreende-se no pensamento de Habermas, a necessidade de percepção e entendimento acerca do discurso que constitui o outro, reconhecendo-o nas suas relações linguísticas de mundo. Dito de outra maneira é necessário compreender que os atos de fala e ação no mundo têm como característica; as ações com pretensões de validez, quer dizer, esse ato linguístico não está subjulgado acerca do que se diz expressamente, mas, sobretudo, como ação válida de sua intervenção no mundo, pois na compreensão de Habermas (2012c, p. 60):
[...] os participantes da argumentação são orientados pela verdade, o conceito de uma verdade válida absolutamente se reflete, no plano da certificação discursiva da verdade, nas idealizações efetuadas performativamente, que emprestam seu caráter cheio de exigências a essas práticas de argumentação.
E conclui:
Além disso, a pretensão de validez, com a qual o falante se refere às condições de validade de seu proferimento, não pode ser definida exclusivamente na perspectiva do falante. Pretensões de validez dependem do reconhecimento intersubjetivo através do falante e do ouvinte; elas têm de ser resgatadas através de razões, portanto, discursivamente, e o ouvinte reage a elas tomando posições motivadas pela razão (HABERMAS, 1990, p. 123-124).
Neste aspecto, as condições dos atos de fala que se referem às pretensões de validade acerca de um proferimento, não podem pautar-se apenas em um falante, isto é, segundo aquele que julga ou proferi algo, mas em uma via dupla de entendimento na qual se encontram falantes e ouvintes, ou melhor, na via da intersubjetividade.
Para Habermas, a reconstrução comunicativa acontece a partir do mundo da vida, não baseado nas verdades absolutas, mas no lugar legítimo das pretensões de validade e do bem estar comum das comunidades capazes de fala e ação. Acerca disto, Hermann (1999, p. 88) propõe que “a reconstrução comunicativa das estruturas do mundo da vida é o que permite ao sujeito aprender e validar, junto às comunidades cultural, científica e social, as suas expectativas de uma vida melhor”.
Portanto, esses atos de fala com pretensões de validade buscam o entendimento mútuo entre todos e com diferentes contextos de mundo da vida, noutras palavras: “Qualquer ato de fala, através do qual um falante se entende com um outro sobre algo, localiza a expressão linguística em três referências com o mundo: em referências com o falante, com o ouvinte e com o mundo” (HABERMAS, 1990, p. 95). De fato, a linguagem buscar interpretar o mundo e, consequentemente, romper com o semanticismo e o reducionismo das relações subjetivas.
Por fim, após termos trilhado o caminho epistemológico do pensamento habermasiano com a superação do pensamento metafísico e de um sujeito transcendental no primeiro capítulo e, da mesma forma, após, no segundo capítulo, buscarmos trilhar esse sujeito pós-metafísico em uma concepção do agir comunicativo entrelaçada ao mundo da vida e tendo a esfera pública como local autêntico deste entrelaçamento, assim, no próximo capítulo, buscaremos enfim, tratar da possibilidade de reconstrução da perspectiva educacional, enfatizando um importante reconhecimento do outro, em uma concepção de sujeito não mais pautado na metafísica, mas na heterogeneidade e que está em constante mutação; tendo o espaço da esfera pública - o âmbito educacional escolar - como local legítimo para as intersubjetividades, para o reconhecimento recíproco e para a reflexão crítica da realidade; além de propor o saber biográfico como possibilidade para o desenvolvimento da ação comunicativa no espaço do ensino da filosofia.
4. DESDOBRAMENTOS EDUCATIVOS DO PENSAMENTO HABERMASIANO: