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8. ANALYSE

8.2 B OLIG OG BOLIGPRISINDEKS

Vemos que alguns riscos apontados no item anterior podem nos ajudar a vislumbrar possibilidades, dentro do nosso contexto de pesquisa.

Como já vimos, nossa produção de dados ocorreu em um ambiente não escolar, que pode ser visto também como um ambiente de aprendizagem não formal. Poderíamos pensar na liberdade quanto aos conteúdos como um risco, pois acaba deixando a atividade muito livre, e nem sempre proporciona a aprendizagem de coisas novas, uma vez que podemos trabalhar os mesmos conteúdos sempre. Porém, acreditamos que a liberdade de conteúdo propicia mais propostas de situações, dentre essas situações podemos encontrar o trabalho com projetos.

Embora o trabalho com projetos permita a abordagem de conteúdos previstos no currículo, segundo Cattai e Penteado (2009), os projetos possibilitam trabalhar os temas transversais propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, abordando assuntos do cotidiano dos participantes. Assim, sem a obrigação de cumprir uma ementa pré-determinada, há mais liberdade quanto ao tema do projeto, o qual se recomenda seja do interesse dos participantes.

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é preciso que os temas dos projetos façam parte de seus interesses. Ninguém aprende aquilo que não tem intenção de aprender. A aprendizagem depende da motivação, do envolvimento, do esforço e da capacidade de cada um” (CATTAI; PENTEADO, 2009, p. 3).

Há também a possibilidade de desenvolver projetos multidisciplinares que envolvam assuntos além da matemática. Nesses moldes, vemos as Atividades de

Vida Prática, que foram o contexto da nossa pesquisa, como outra possibilidade para o trabalho com projeto. Tal tipo de atendimento oferecido por Instituições de Reabilitação se mostra como um ambiente propício para esse tipo de trabalho, uma vez que também envolve assuntos relacionados ao cotidiano.

Além disso, vemos nas Atividades de Vida Prática a possibilidade de desenvolvimento da dimensão sociopolítica matemacia. Baseado na literacia de Paulo Freire, Skovsmose (2001) define matemacia como um conjunto de competências referente às habilidades matemáticas e à forma de aplicar essas habilidades em situações estruturadas pela matemática, bem como a reflexão sobre todo esse processo.

Biotto Filho (2008) aponta que a matemacia envolve uma dimensão técnica e uma dimensão sociopolítica. A dimensão técnica da matemacia refere-se à habilidade de lidar com noções matemáticas, como demonstrar teoremas, dominar algoritmos e fórmulas, bem como à construção de modelos matemáticos. A dimensão sociopolítica refere-se à discussão sobre as implicações sociais e políticas da aplicação de tais noções em diversos contextos.

Vale ressaltar que os objetivos das Atividades de Vida Prática estão associados à autonomia e qualidade de vida dos participantes. Sendo assim, as vemos como um ambiente propício não só para o desenvolvimento de projetos, como também para discutir e refletir sobre o papel da matemática na sociedade. Acreditamos, ainda, que a visão crítica da matemática proporcionada por essas discussões possa vir a contribuir com a autonomia e inclusão social das pessoas envolvidas.

Dentre os riscos que apontamos, destaca-se a exposição tardia à educação bilíngue como um dos entraves para a nossa proposta. As dificuldades com a língua de sinais aparecem como um bloqueador das formas de expressão e autonomia dos participantes, e as dificuldades com leitura e escrita como um dificultador da manipulação dos softwares e compreensão das tarefas.

Embora não consigamos ver, dentro das nossas atividades, possibilidades para desenvolvimento da leitura e escrita dos participantes, vemos os cenários para investigação como um ambiente propício para estimular a aprendizagem da língua de sinais, bem como a necessidade de os participantes exporem suas ideias.

Suponhamos uma turma sem problemas de assiduidade, com a qual poderíamos propor um trabalho em grupo. Por mais que estivessem em diferentes

níveis de desenvolvimento, poderíamos primeiramente levantar os interesses dos participantes, e com base neles, convidaríamos os participantes a uma investigação. A partir disso, a mediadora poderia lançar mão de questões investigativas a fim de firmar contato com os participantes, de modo a colocar todos na mesma sintonia, e, para isso, contaria com o auxílio de uma intérprete. Nesse caso, toda essa mediação seria por meio da língua de sinais, e seria importante, dentro desse processo, não apenas esperar que as crianças soubessem Libras, mas ensinar a elas novos sinais, e também pedir aos que tivessem mais facilidades que ajudassem os com mais dificuldades.

Tendo um assunto de interesse deles sendo discutido, e tendo em vista o apoio mútuo, tomando cuidado para que todos continuassem em sintonia, acreditamos que mesmo os participantes com mais dificuldades em língua de sinais procurariam se engajar no processo investigativo e, com essa abertura, poderiam aprender com seus pares a língua de sinais.

Além disso, dentro dessas condições, e supondo um contato contínuo, podemos dizer que haveria mais abertura para a aparição dos outros atos dialógicos, o que certamente os instigaria a defender seus pontos de vista, e consequentemente a expressar-se. Assim, os participantes com mais dificuldades poderiam sentir-se encorajados a defender suas ideias, e nesses moldes o processo investigativo contribuiria para autonomia dos participantes.

Enfim, vemos uma situação hipotética, porém com condições de ser executada, pensando em nossos dados. Acreditamos que existe realmente a possibilidade de os cenários de investigação e a postura investigativa serem fatores que atraiam as crianças surdas e as incentivem a aprender a língua de sinais, para que possam participar do processo de investigação de forma igualitária em relação a seus pares.

Entre outras coisas, vemos em nossos dados a possibilidade de refletirmos sobre os atos dialógicos que compõem o Modelo de Cooperação Investigativa. Será que esse modelo, pensado para ouvintes, é um modelo apropriado para pensar o diálogo envolvendo surdos? Existiriam entre os surdos outros atos dialógicos, além dos definidos por Alrø e Skovsmose (2010)?

Durante todo este texto, vemos que os fatores que influenciam no engajamento das crianças surdas nas atividades são complexos e muito particulares. Pensando nos riscos, vemos a possibilidade e a oportunidade de

refletirmos sobre nossas práticas como docentes e nossa postura como pesquisadores.

Ao refletirmos sobre nossas práticas, vemos que vários riscos podem ser amenizados e talvez até extintos, conforme o cuidado tomado durante o planejamento e a execução do processo investigativo. Embora seja mais fácil trabalhar em uma zona de conforto, o pesquisador deve trabalhar em uma zona de risco, para que novas coisas sejam descobertas e novas teorias sejam fundamentadas.

De um modo geral, acreditamos no cenário para investigação como um ambiente propício para o trabalho com pessoas surdas, e o vemos como uma nova possibilidade metodológica para o ensino e aprendizagem de matemática para pessoas desse grupo.