• No results found

Segundo Lemos e Diniz (1999), o fator “desequilibrador” da dinâmica econômica na cidade de Santa Rita do Sapucaí foi a presença de uma empresária schumpeteriana. Luzia Rennó Moreira, descendente e herdeira de cafeicultores ricos, sobrinha do ex-presidente da república Delfim Moreira, esposa de um diplomata, sem filhos, religiosa e que viveu diversos anos no exterior. Conhecida como Sinhá Moreira, como é hábito no interior rural do país se dirigir às filhas dos coronéis, Luzia Moreira tem como destaque em sua biografia a sua dedicação às causas sociais e seu espírito empreendedor.

Após desfeito seu casamento com seu primo e diplomata Antônio Moreira de Abreu, Sinhá Moreira retornou a Santa Rita do Sapucaí, para morar com os pais. O casamento aconteceu em 1929 e durou até o desquite em 1941, quando Sinhá Moreira tinha 34 anos. Durante esse período o casal residiu no México, Colômbia, Portugal e Japão, além de viajar por diversas vezes para os Estados Unidos, China e outros países asiáticos (FONTES, 2007).

A visão empreendedora de Sinhá Moreira foi primeiro evidenciada quando, em 1952, inaugurou um projeto imobiliário seu, financiado por seu pai, o banqueiro Francisco Moreira da Costa, que contava com 80 residências construídas em um novo bairro da cidade de Santa Rita, o Vista Alegre. Parte das residências foi doada aos funcionários das fazendas da família e outra parte vendida, parcelada em 10 anos, para a população carente da cidade (QUEIROZ, 2007).

Atribui-se a esse espírito empreendedor, somado à visão de mundo obtida no período de residência fora do país, os fatores que levaram Sinhá Moreira a procurar alternativas para manter na cidade os jovens que partiam para estudar e trabalhar nos grandes centros (FONTES, 2007). No final dos anos 1950 ela sabia que queria criar algo na área de educação para dar oportunidade a esses jovens, mas ainda não sabia exatamente o quê, pois

não havia muitos modelos a seguir. Procurou então aconselhamento com diversas pessoas, professores da Escola Federal de Engenharia de Itajubá, como Fernando Constanti, nascido em Santa Rita, mas que lecionava Engenharia na cidade vizinha e professores conhecidos do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) de São José dos Campos. Essa não é a única versão existente sobre a escolha da área de eletrônica para a escola, mas a que mais se repete em entrevistas de parentes e pessoas próximas de Sinhá Moreira, concedidas a Fontes (2007) e Queiroz (2007).

Como não havia leis regulamentando cursos técnicos em eletrônica no país, devido ao ineditismo da proposta, Sinhá Moreira usou da influência política sua e de sua família para conseguir audiência pessoal com o presidente Juscelino Kubitscheck, que assinou o Decreto nº 44.490, de 17 de setembro de 1958, autorizando a criação desses cursos (FONTES, 2007).

Seu passo seguinte foi doar um terreno de 104 mil metros quadrados para a Fundação Dona Mindóca Rennó Moreira – criada por ela e nomeada em homenagem à mãe – para construir e equipar as instalações iniciais, com recursos próprios, da Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE) – nome de seu pai. As aulas tiveram início em 1959 e logo em seguida foi assinado convênio com o Ministério da Educação e Cultura para a ampliação da área construída para 16 mil metros quadrados e instalação de novos equipamentos, já que a Fundação foi declarada de interesse público (FONTES, 2007).

A proximidade de Sinhá Moreira com religiosos católicos a levou a solicitar o auxílio dos Jesuítas, com grande experiência em administração escolar no país, a assumir a gestão da escola e foi então enviado da Espanha para o Brasil o Padre Alexandre Caballero, para ser o primeiro diretor da escola.

Dos 46 candidatos inscritos para matricular-se na primeira turma, foram aceitos apenas 13, que receberam bolsas de estudos integrais, pagas por Sinhá Moreira. Desde então sempre houve um rígido processo seletivo para admissão no curso e durante muitos anos seu processo seletivo excluía mais candidatos do que incluía.

Sinhá Moreira faleceu, aos 55 anos, vítima de câncer, no Rio de Janeiro, no dia 9 de março de 1963, sem presenciar a formatura da primeira turma da escola que criou. Deixou os recursos necessários para que a escola continuasse em seu detalhado testamento:

Menciono em especial, a Companhia de Jesus, que foi o meu amparo e guia em horas de grande emoção [...] souberam se impor ao meu coração pelos seus elevados pensamentos, seus benéficos trabalhos espirituais e educacionais. A eles Santa Rita do Sapucaí deve grandes e imorredouras obras. E eu, ao lhes passar o comando do

que possuo, deixo confiante e feliz esta vida, sabendo que eles saberão fazer frutificar nossas obras e engrandecer nossa cidade (MOREIRA,1963).

Ainda em seu testamento pode-se encontrar diversas recomendações sobre a gestão da escola, que são seguidas até hoje. Seus bens foram divididos entre parentes, empregados da família e a Fundação Dona Mindóca Rennó Moreira, mantenedora da ETE.

Uma das recomendações deixadas por ela era de que o Conselho Curador fosse presidido pelo Provincial dos Jesuítas de Minas Gerais ou por outro Padre Jesuíta por ele indicado. Outros cargos da Fundação deveriam ser preenchidos por Padres da Companhia de Jesus, mas deveriam fazer parte, sempre que possível, membros das famílias Moreira e Rennó. Atualmente, além desses membros o Conselho conta com membros do empresariado local, do poder público municipal, das demais instituições de ensino superior da cidade, muitos deles ex-alunos da própria escola.

O Brasil passava por forte industrialização e os recém-formados não tiveram dificuldades em conseguir trabalho em todo o país. Diversas empresas multinacionais começaram a operar no país, como IBM, AT&T, Westinghouse, RCA, General Electric, Mitsubishi, Hitachi, Toshiba, Philips, Siemens, etc. provocando uma demanda muito superior à oferta de profissionais formados nas escolas nacionais (QUEIROZ, 2007).

Tida como a gênese do Vale da Eletrônica, a ETE, como é chamada a Escola Francisco Moreira da Costa, precisava de docentes especializados para lecionar disciplinas tecnológicas. Nem sempre os jesuítas conseguiam suprir todas as vagas e a Direção da escola tinha dificuldade em atrair mão de obra dos grandes centros, pois os salários na escola não conseguiam competir com as oportunidades que engenheiros e técnicos tinham na crescente indústria de eletrônica no país. Esse foi um dos motivos de se iniciarem os planos de se construir uma instituição de ensino superior na cidade. O outro motivo era a necessidade dos alunos técnicos darem continuidade aos seus estudos, sem terem que deixar a cidade após a formatura, pois não havia onde trabalhar localmente (PEREIRA, 1991).

Atualmente o polo de Santa Rita do Sapucaí possui uma grande concentração de empresas do setor eletroeletrônico, que apresenta crescimento acima da média do Estado de Minas Gerais (Quadro 5.7).

Quadro 5.7: Distribuição dos Estabelecimentos nas Atividades Econômicas da Indústria de Eletroeletrônicos, por porte (número de vínculos ativos) - Santa Rita do Sapucaí - 2007/2009

Especificação

Porte dos estabelecimentos (número de empregados)

Micro até 19 Pequeno de 20 a 99 Médio de 100 a 499 Grande 500 ou mais Total Total em MG 2007 77 28 8 1 114 925 2008 94 29 6 0 129 1.013 2009 114 37 6 0 157 1.049 Var. absoluta 2009/2007 37 9 -2 -1 43 124 Var. relativa (%) 2008/2007 22,1 3,6 -25 -100 13,2 9,5 Var. relativa (%) 2009/2008 21,3 27,6 0 - 21,7 3,6 Var. relativa (%) 2009/2007 48,1 32,1 -25 -100 37,7 13,4

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), RAIS 2007, 2008 e 2009