4. FUNN
4.4 B ESLUTNINGSTAKING OG BEGRENSET RASJONALITET
Como já foi sublinhado, Lacan recorre a conceitos da linguística para benefício da psicanálise. No entanto, ao conferir grande importância à transposição da barra do algoritmo, Lacan enfatiza o furo em virtude da lógica diferencial determinar a natureza do significante. Esta definição do jogo dos significantes como correlação de furos do sentido, sem os quais os significantes não representariam nada, firma a articulação global da cadeia dos significantes:
«Or la batterie des signifiants, en tant qu’elle est, étant par là même complète, ce signifiant ne peut être qu’un trait qui se trace de son cercle sans pouvoir y être compté. Symbolisable par l’inhérence d’un (-1) à l’ensemble des signifiants.» (Écrits, 819)
Há, então, uma pura operatividade, chamada significância(9) que se funda na lógica seguinte: existe, simultaneamente, uma autonomia positiva dos significantes e o paradoxo de um funcionamento centrado num furo, uma falta em toda a cadeia significante:
«Ce qui tient à l’instance dans le rêve de cette même structure littérante (autrement dit phonématique) où s’articule et s’analyse le signifiant dans le discours. (…) Les images du rêve ne sont à retenir que pour leur valeur de signifiant, c’est-à-dire pour ce qu’elles permettent d’épeler du «proverbe» proposé par le rébus du rêve. Cette structure de langage qui rend possible l’opération de la lecture, est au principe de la signifiance du rêve, de la traumdeutung.» (Écrits, 510)
A fórmula negativa da significância revela as condições estruturais do funcionamento do significante e a primazia que é conferida no sistema lacaniano à estruturalidade da articulação das unidades mínimas(10).
As unidades significantes decompõem-se em fonemas. Daí a importância do uso da palavra “letra” na sua acepção material e aptidão à localização, por um lado, e sua estrutura diferencial, por outro. Num plano superior, os significantes constituem-se em “locução verbal”.
A articulação significante pode ser descrita com base nos dois eixos saussurianos do sintagma e do sistema. No entanto, este esquema subordina a constituição do signo à separação do significante do significado e a prevalência da cadeia dos significados sobre a cadeia significante.
Na realidade, deve-se antes manter a preexistência e autonomia do significante. Daí o deslizamento sem fim do significado no significante. Se não há significação pontual, antes deslizamento, movimento constante da significação – como podemos formular o efeito de sentido ou significação?
De facto, a questão situa-se no estabelecimento da relação entre a cadeia significante e a cadeia dos significados. Para Lacan, não se trata de um “corte” tal como Saussure enunciou que determina o funcionamento mas de uma delimitação com um conceito original de Lacan denominado point de capiton:
(9)Os autores de Le titre de la lettre sublinham essa operatividade nos termos seguintes: «Il y a donc ici quelque chose comme une pure opérativité au principe de
ce que Lacan nommera bientôt lui-même la signifiance, - sans que pour autant, toutefois, la valeur d’opération (de mécanisme) soit explicitement thématisée comme le moment de la destruction du sens, encore moins de l’opposition du sens et de l’opération (…) C’est de là, donc, que l’opération elle-même tire sa possibilité et qu’ainsi se fonde la logique du signifiant, c’est-à-dire à la fois son autonomie et son fonctionnement paradoxalement «centré» sur un trou, un manque.» (Lacoue-Labarthe e Nancy, 1973, 52)
(10)Repare-se que a prevalência do termo significante é determinante nos Écrits e se aparece sob a designação de letra, refere-se a uma unidade mínima localizada
1. ”Point de capiton” ( Écrits, 805).
Com o chamado “point de capiton”(gráfico I, Écrits, 805), Lacan ilustra o modo da cadeia significante interromper por cruzamento o deslizamento indefinido da significação. Essa interrupção produz-se pelo vector retroactivo que circula do desejo (∆) para o S barrado (sujeito):
«On peut donc avancer, comme le fait Lacan, que ce n’est jamais que rétroactivement
qu’un signe fait sens dans la mesure où la signification d’un message n’advient qu’au terme de l’articulation signifiante elle-même. Cette dimension rétroactive du sens est matérialisée sur le schéma du point de capiton par le sens rétrograde du vecteur ∆ $ ; autrement dit, c’est dans la dimension de l’après-coup que le point de capiton arrête le glissement de la signification.» (Dor, 1985,51)
A função do point de capiton situa-se no desenvolvimento diacrónico da frase que fecha a sua significação com o último elemento no sentido em que cada elemento antecipa a construção do próximo e o próximo determina o sentido global da asserção por um efeito retroactivo.
Assim para “acontecer” uma significação, é preciso que o significante interrompa o deslizamento do significado por um fenómeno de ancoragem onde a significação seja produto acabado:
«On sait que la «solution», c’est la théorie dite des «points de capiton», (…). Théorie selon laquelle, pour rappeler brièvement l’essentiel, il faut, pour qu’une signification se produise à un moment donné, qu’en général, de place en place, le signifiant interrompe le glissement du signifié comme par un phénomène d’ancrage qui donne lieu à la ponctuation «où la signification se constitue comme produit fini.»(Lacoue-Labarthe e Nancy, 1973, 52)
De facto, a ordem significante opera a divisão do sujeito como propriedade fundamental da subjectividade. Dessa divisão ressalta a alienação do sujeito na e pela linguagem em consequência da relação que mantém com a ordem simbólica. Dado que o sujeito se dizima na cadeia significante, ele tem, em consequência dessa relação, um carácter radicalmente inessencial, é um sujeito de letra.
Ora, a linguagem tem uma propriedade que advém da metáfora paterna que consiste em representar a presença de um real em benefício da ausência desse real como tal. Assim, a relação do sujeito com o seu discurso apoia-se no mesmo efeito de cisão. De facto, anula-se como sujeito para ser unicamente representado num símbolo.
Esta constatação permite a Dor inferir que «Non seulement le sujet n’est pas cause du langage, mais il est causé par lui.» (Dor, 1985, 137). Como consequência, o sujeito que emerge pela linguagem resulta do efeito que o faz existir para logo o eclipsar na autenticidade do seu ser, – «Cette aliénation du sujet dans son propre discours est à proprement parler la refente du sujet (le fading du sujet).» (Dor, 1985, 137)
Ora, se se partir do princípio que a linguagem é uma sistema de signos em que estes adquirem valor em relação com os outros, em que o efeito deslizamento consequente é interrompido pelo point de capiton e que o sujeito é instaurado na ordem significante pela metáfora paterna, pode-se concluir que um significante é o que representa um sujeito para outro.
Dado que o sujeito é representado por um significante que o institui como sujeito no discurso, este deve ser considerado como um efeito do significante. Não é causa do significante e daí a noção lacaniana de sujeito barrado:
«Mais ce sujet, c’est ce que le signifiant représente, et il ne saurait rien représenter que pour un autre signifiant: à quoi dès lors se réduit le sujet qui écoute.
Le sujet donc, on ne lui parle pas. Ça parle de lui, et c’est là qu’il s’appréhende, et ce d’autant plus forcément qu’avant que du seul fait que ça s’adresse à lui, il disparaisse comme sujet sous le signifiant qu’il devient, il n’était absolument rien. Mais ce rien se soutient de son avènement, maintenant produit par l’appel fait dans l’Autre au deuxième signifiant.» (Écrits, 835)