Os códigos criados no software fizeram referência às características que responderiam ou estariam relacionadas a cada um dos três objetivos específicos deste trabalho, que são:
I. Verificar a existência de relacionamentos interorganizacionais em algumas das empresas constituintes do APL, caracterizando-os;
II. Caracterizar os possíveis recursos interorganizacionais existentes;
III. Verificar as possíveis fontes geradoras de rendas relacionais e vantagens competitivas.
Conforme Bandeira-de-Mello (2006) os códigos que fazem referência a dados similares consideram padrões de ocorrência e formam uma determinada categoria, devendo, assim, ser tratados juntos. Dessa forma, com o intuito de agrupar expressões e ideias em torno de classificações que pudessem englobar o máximo de informações referentes à cada um dos três objetivos específicos deste trabalho, foram utilizadas três categorias principais de códigos.
O primeiro grupo de códigos está associado à categoria “relacionamentos interorganizacionais”, o segundo grupo de códigos está associado à categoria “recursos
interorganizacionais” e, por fim, o terceiro grupo de códigos está associado à categoria “fontes geradoras de rendas relacionais”. Tais códigos dizem respeito às categorias de análise apresentadas no Quadro 14 - modelo de análise.
Estas três categorias e os respectivos códigos associados estão apresentadas no Quadro 17, a seguir. Cabe destacar que os códigos utilizados foram subdivididos em dois conjuntos: principais e secundários.
Quadro 17 - Categorias formuladas para a pesquisa e códigos correspondentes
Categorias Códigos principais Códigos secundários (exemplos)
Relacionamentos interorganizacionais
Confiança mútua; Relações de integração e/ou cooperação e/ou colaboração e/ou articulação entre empresas do setor de calçados; Parcerias; Troca, transferência e/ou compartilhamento de recursos e/ou capacidades e competências; Interdependência; Aprendizagem conjunta; Acesso a novos recursos e/ou tecnologias e/ou informações privilegiadas; Partilha de riscos/custos; Apoio governamental; Indução do desenvolvimento regional; Benefícios associados à proximidade geográfica; Articulação e interação com instituições públicas e/ou privadas para apoio, financiamento, treinamento, etc.
Compartilhamento de peças, equipamentos, matérias-primas; relações interpessoais entre gestores; confiança nas trocas; interação com UFPB, SENAI, SEBRAE, CIEE, SESI, FIEP e órgãos de controle; interação com fornecedores; interação com gestores de empresas concorrentes; funcionários da região; etc.
Recursos interorganizacionais
Recursos particulares de relacionamento; Recursos sistêmicos; Recursos de acesso restrito.
Trocas de informações e conhecimentos sobre produtos e processos; relações interpessoais entre gestores; recurso criado exclusivamente por conta da relação; melhorias por conta do relacionamento; utilização das rodovias, proximidade com portos; baixo custo da mão-de-obra; incentivos governamentais, etc.
Fontes geradoras de rendas relacionais e
vantagens competitivas
Investimentos em ativos específicos de relacionamento; Rotinas de compartilhamento de conhecimento; Dotações complementares de recursos; Mecanismos de governança.
Redução de custos por conta da proximidade; diminuição de erros de comunicação; redução de defeitos, etc; oportunidades de mercado; redução de custos e riscos associados à proximidade; redução de custos/riscos associados ao relacionamento; redução custos pela adoção de contratos; contratos formais; contratos informais; conhecimentos compartilhados; capacidade absortiva;
conhecimento adquirido exclusivamente por conta do relacionamento; comportamentos oportunistas; etc.
O conjunto de códigos principais inclui expressões, termos ou palavras-chave que foram citadas no decorrer do capítulo 2 deste trabalho, relacionando-se às questões tratadas ou citadas na literatura (esses códigos representam as variáveis de pesquisa apresentadas no Quadro 14 – modelo de análise). O conjunto de códigos secundários é um subconjunto dos códigos principais, pois dizem respeito aos termos que foram usados pelo pesquisador para identificar a existência das três categorias ou variáveis de pesquisa aqui consideradas, que são: a) caracterização do relacionamento interorganizacional; b) identificação de recursos interorganizacionais e; c) fontes geradoras de renda relacional.
Alguns códigos foram previamente criados antes da pesquisa de campo, já os códigos secundários só se fizeram necessários após a análise da fala dos entrevistados, com as entrevistas devidamente já transcritas.
Depois da inserção dos códigos, todos os discursos considerados semelhantes, isto é, todos os códigos que fizessem referência a uma mesma categoria, passaram a ser agrupados. Os esquemas gráficos (netviews ou networks) fazem a relação entre os diferentes códigos, citações, comentários e notas inseridas pelo pesquisador.
Para fazer essa relação entre códigos, foram utilizados conectores e, neste trabalho, ao invés de se utilizar unicamente os símbolos dos conectores para associar um código ao outro, foram adotados os nomes dos significados de cada um desses conectores, tal como ilustrado no Quadro 18, a seguir.
Quadro 18 - Conectores dos códigos do Atlas/ti
Símbolo Descrição da relação (significado)
= O código-origem é associado ao código-destino, usa-se: “é associado à” [ ] O código-origem é parte do código-destino, usa-se: “é parte de”
=> O código-origem (condição causal) é causa da ocorrência do código-destino, usa-se: “é causa de” *} O código-origem é propriedade do código-destino, usa-se: “é propriedade de”
Isa O código-origem é um tipo, ou forma, do código-destino, usa-se: “é um tipo de” < > O código-origem contradiz o código-destino, usa-se: “contradiz”
Fonte: Atlas/ti versão 6.0 e adaptação da autora.
Os códigos utilizados são formados por números entre parênteses (X, Y), em que “X” representa a sua fundamentação empírica ou groundedness (quantidade de trechos ou citações que estão vinculadas ao código) e “Y” a densidade teórica ou density (quantidade de outros códigos a que está vinculado) (KOVACS, 2009). A Figura 7 ilustra o significado desses números para o Atlas/ti.
Por exemplo, o código “Recursos humanos”, no centro da Figura 7, possui duas citações ou trechos relacionados a ele (fundamentação empírica ou groundedness), ou seja, foi
citado duas vezes na Unidade Hermenêutica. Além disso, o código “Recursos humanos” possui outros quatro códigos (densidade teórica ou density) a ele associados. Estas associações são feitas por meio dos conectores que foram considerados no Quadro 18.
Figura 7 - Exemplo de códigos, fundamentação empírica (groundedness), densidade teórica (density) e relações no Atlas/ti
Fonte: Dados da pesquisa (2014)
Para o exemplo da Figura 7, o conector utilizado foi “Está associado (a) à” e, dessa forma, isso significa dizer que o código “Recursos humanos” tem quatro outros códigos a ele associados, que são, neste caso específico: valorização de funcionários, cultura organizacional, treinamento e qualificação de funcionários e informalidade na comunicação interna. Da mesma forma, os números que aparecem entre colchetes em cada um dos outros quatro códigos, (ou seja, as quatro formas retangulares em torno da forma central) associados ao código “Recursos humanos” seguem o mesmo padrão do que foi explicado no parágrafo anterior.
Tendo em vista que foi obtida uma considerável gama de informações em cada uma das entrevistas realizadas na pesquisa de campo deste trabalho, a utilização do Atlas/ti foi significativamente importante para garantir uma melhor organização dos dados, de modo a permitir uma maior confiabilidade e consistência na análise dos resultados. A codificação que o software permite e o posterior agrupamento de códigos em categorias maiores também contribuiu positivamente para facilitar a visualização, a interpretação e o tratamento dos dados qualitativos aqui usados.
3.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS DO CAPÍTULO
O presente capítulo teve por finalidade apresentar a classificação metodológica da pesquisa, os procedimentos realizados para a seleção do portfólio de artigos que compuseram parte do capítulo 2 e o modelo de análise que foi utilizado para a pesquisa de pesquisa de campo, no sentindo do alcance dos objetivos propostos. Esse modelo se divide em três etapas: análise dos aspectos interorganizacionais (características das relações entre as empresas do APL), análise dos recursos interorganizacionais, e análise das fontes geradoras de rendas relacionais. Para a análise das informações obtidas na pesquisa de campo foi adotado o software Atlas/ti.