d’exotisme » (Scibilia, 1986:18)
O Senegal começou a ser eleito e explorado como destino turístico internacional no final dos anos 60 e a centralidade que o país consagra politicamente ao turismo ganhou um peso significativo desde que, na década de 70, no Quatriéme Plan Réajusté de
Développement Économique et Social ou 4º Plano (1973-1977), o turismo foi definido
como um objectivo prioritário (consagrou a passagem do valor destinado ao mesmo de 9.7 mil milhões de FCFAs para 20.7) (Diouf, 1980:5). Nesta altura, a comunidade internacional era seduzida pelas Nações Unidades a dar prioridade ao sector turístico nas suas economias, que acreditava no turismo internacional de grande escala como uma oportunidade para resgatar os países menos desenvolvidos da sua condição. Muitos países em vias de desenvolvimento lançaram-se então nessa aventura com ajuda financeira e técnica do Banco Mundial (Scibilia, 1986:16-17). O Senegal foi um deles, tendo instaurado uma política de forte apoio ao turismo, encorajando investimentos, garantindo inúmeras vantagens fiscais e financeiras, ajudando organismos de transportes aéreos e terrestres e organizando campanhas de promoção publicitária (Scibilia, 1986:16-17, Diouf, 1980:41). Os efeitos foram imediatos e, ainda nessa década, deu-se
69 um boom no turismo Senegalês: em 1965 o turismo representava 0.5% do turismo africano, em 1977, 2,4% e hoje representa cerca de 4%. O turismo é hoje o segundo sector mais importante da economia senegalesa, apenas atrás da agricultura. O turismo no Senegal é actualmente pequeno em termos de chegadas (420.000), mas contribui em cerca de 50% para o total de exportações (Sharpley, 2008:9-4). É mais um meio de sobrevivência económica do que uma estratégia de desenvolvimento (Sharpley, 2008:9- 4).
Não obstante, não tardou muito a que algumas das suas virtudes fossem desmistificadadas e os seus problemas se revelassem. Tornava-se claro que a fatia maior do capital em circulação no negócio turístico não ficava para os países e suas populações (Britton, 1989) mas nas sim para as grandes companhias turísticas, normalmente europeias, e choveram, no Senegal, críticas à consagração de meios para satisfazer necessidades superficiais num país com tantas carências (Scibilia, 1986:18). O ideal do turismo como fenómeno redentor de encontro de culturas também foi questionado: a experiência turística parecia, afinal, não conseguir escapar a uma certa superficialidade, baseava-se, por vezes, na exploração dos recursos locais e na escravização das populações e perpetuava o eixo dominantes-dominados dos tempos coloniais. Foi denunciado como veículo de propagação imperialista (Nash, 1978) e de valores ocidentais como o individualismo e o mercantilismo e como efectivador de uma comercialização das relações humanas, lado do qual a prostituição, no Senegal, tem constituído até hoje o exemplo mais visível e condenado pela opinião pública.
No 5º plano (1977-1981), a abordagem ao turismo parece resultar de uma apreciação renovada e mais crítica do fenómeno e, embora mantendo a maioria dos seus objectivos iniciais, o seu acento recaiu sobre a necessidade de descentralizar e regionalizar as infra- estruturas, de diversificar a clientela e de desenvolver o turismo interior, salvaguardando ao mesmo tempo o património ecológico, social e cultural (Scibilia, 1986:16; Diouf, 1980:43).
Na década de 70, a Casamansa (e particularmente a Baixa-Casamansa, actual Região de Ziguinchor), então um destino turístico praticamente novo, destacou-se como a segunda região mais visitada no país, a seguir à quase-ilha de Cabo Verde, onde se localiza a capital Dacar, estatuto que não mais viria a perder. É um destino comercializado pelo seu património histórico, cultural e humano e pela sua vegetação luxuriante, sendo também muito procurado para turismo balnear. Em 1979 a Baixa-Casamansa terá sido
70 visitada por cerca de 34.000 turistas (Diouf, 1980:41), tendo esse número sofrido variações nos últimos anos e baixado significativamente, sobretudo devido ao conflito armado em curso na Casamansa, tendo a Região de Ziguinchor sido visitada por 21.208 turistas em 2008. Então, como agora, os turistas eram esmagadoramente europeus (franceses, alemães e suíços, à cabeça) sendo que a grande transformação de públicos, ao longo das últimas três décadas, terá sido o aumento relativo do número de turistas espanhóis50. Em 1979, a Casamansa contava 27 estabelecimentos turísticos, 11 deles no Departamento de Oussouye. A Região de Ziguinchor (e apesar de muito encurtada geograficamente em relação à anterior região da Casamansa) contava 34 estabelecimentos em 2006, 39 em 2007 e 45 em 2008. Já no Departamento de Oussouye estes números, também têm evoluído positivamente, respectivamente de 92 para 99 e depois para 104 estabelecimentos. Em 1979 existiam cerca de 890 camas em toda a Casamansa (a maioria nos grandes resorts turísticos, entre os quais o Club Méditerranè, inaugurado em 1973), actualmente são 3 775 camas apenas na Região de Ziguinchor. Seja como for, o Club Med, apesar do período de abertura se restringir de Outubro a Abril, permanece, oficialmente, o principal receptor de turistas. Recebeu em média 34.4% das chegadas e mais de metade (63.1%) das noites em 200851.
Em 1973, Carabane não tinha nenhum estabelecimento turístico oficial. Hoje tem quatro, com tendência para aumentarem. Nos anos início dos anos 80, a antiga Missão Católica foi convertida pela Diocese de Ziguinchor num Hotel com um restaurante e cerca de 50 camas, e Malang Badji, um pintor originário da ilha, abriu o primeiro
campement. A partir deste momento, os estabelecimentos multiplicaram-se, e hoje, em
Carabane, permanecem em funcionamento os dois estabelecimentos referidos, que, juntamente com o Chez Hélene e o Barracuda, inaugurados na década de 90, funcionam numa lógica muito similar de bed and breakfast conjugado com as principais refeições e também de organização de saídas de pesca desportiva à linha em barco e de excursões às ilhas vizinhas. O Barracuda destaca-se por se concentrar, mais do que os outros estabelecimentos, na pesca desportiva. Todos estes hotéis se encontram à beira-mar, na mesma linha costeira, a par com dois outros bares/restaurantes. Adicionalmente, há ainda um hotel/discoteca/restaurante, no interior da aldeia, que funciona
50 De frisar que, no caso de Carabane, não registei a presença de africanos ou senegaleses em mais de sete
meses de residência na ilha,.
51 Fonte : Agence Nationale de la Statistique et de la Demographie. Service Regional de la Statistique et
71 intermitentemente, um centro de pesca desportiva que também aloja clientes numa lógica relativamente informal, e várias casas ou pequenas boutiques de venda de artesanato e produtos tradicionais52 (bijuteria em madeira, escultura, instrumentos musicais locais, panos batick, confeiteira) e ainda três alfaiatarias53. A estes elementos há que juntar uma vasta rede informal, não-oficial e bastante competitiva de alojamento, alimentação, prestação de serviços a turistas (sobretudo guias e excursões guiadas) e aluguer de transporte, virtualmente ilimitada no sentido em que, reunidas as condições, qualquer agregado familiar é um potencial beneficiário e fornecedor de serviços turísticos embora, claro, algumas casas o façam ou procurem de modo mais sistemático. Os turistas chegam à Casamansa através de três vias distintas: por terra, através da estrada trans-gambiana, que liga Kaolack (Senegal) a Bignona (Casamansa) através da ponte de Farafenni (Gâmbia), por ar, ao aeroporto de Ziguinchor e também através da ligação charter directa França-Cap Skirring, e, duas vezes por semana, através do barco que liga Dacar a Ziguinchor (trata-se da mesma ligação que em tempos fez escala em Carabane). Para Novembro de 2011 estava prevista a inauguração de um pequeno porto que reporá a escala dessa ligação em Carabane.
Em traços gerais, os turistas visitam Carabane segundo três regimes diferentes, em termos de restrição temporal:
- regime fechado: estes são os turistas que compraram um pacote de viagens em solo Europeu, no qual uma ida a Carabane por uma manhã, uma tarde, uma noite, ou para uma refeição e visita aos principais pontos de interesse da aldeia, está prevista ou é opcional. Incluem-se também nestes turistas o grupo dos que vêm uma vez por semana, na época alta, almoçar ao Hotel Carabane e realizar o referido passeio, através de uma ligação fluvial directa entre o Clube Med (Cap Skirring) e Carabane, bem como os turistas que passam por Carabane em excursões pré-definidas através do Senegal ou somente da Casamansa, como por exemplo os espanhóis que vêm através de agências de viagens.
52 É interessante que muitos destes produtos começaram a ser comercializados depois de ateliers que
incentivaram e ensinaram o fabrico dos mesmos, organizados pela Associação dos Amigos da Missão de
Carabane, de origem francesa.
53 É importante referir que, exceptuando o Hotel Carabane (suportado por fundos da diocese) e o
bar/discoteca (propriedade de um norueguês), os três outros estabelecimentos principais de albergamento, os dois bares e ainda o centro de pesca, foram erigidos a partir de parcerias informais baseadas em amizades pessoais com europeus. Exceptuando, novamente, o caso da discoteca e do Hotel Carabane todos os negócios pertencem actualmente a habitantes de Carabane.
72 - regime plástico: os turistas que, tendo comprado um voo de ida e volta entre o Senegal e a Europa para períodos compreendidos, grosso modo, entre os cinco dias e as quatro semanas de estadia, decidem passar por Carabane, acabando por aí pernoitar uma ou mais noites, podendo exercer individualmente ou em grupo essa escolha. Muitos destes turistas vêm acompanhados de um guia senegalês que conheceram aleatoriamente em Dacar ou em Ziguinchor (muitos deles encaminham os turistas para Carabane), outros chegaram a Ziguinchor onde, através do Office du Tourisme local, falando com outros turistas, ou informando-se junto das unidades hoteleiras, lhes são sugeridos percursos nos quais, normalmente, Carabane é ponto de recomendação quase obrigatório;
- regime aberto: sobretudo jovens backpackers. Chegam a Carabane normalmente quase acaso, por recomendação de alguém que encontraram no caminho, e vêm com vários meses de tempo livre que frequentemente não sabem por que local, região ou mesmo país da região dividir (entre Mali, Gâmbia e Senegal, sobretudo) e acabam por demorar em Carabane entre alguns dias e vários meses. Realizam, no caso de Carabane, como noutros contextos turísticos (Maoz, 2005), um tipo de viagem com muito menos constrangimentos e predefinições que aquilo que estamos habituados a considerar para os chamado turismo de massa54.
Não existem registos oficiais do número anual de turistas em Carabane, mas é pelo menos possível ter uma noção da sua variação anual em termos de número através do registo de chegadas do Hotel Carabane, o mais importante da ilha:
Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Total
2007 113 71 63 82 40 20 94 147 47 72 107 139 995
2008 106 75 116 102 44 14 82 125 38 54 78 149 983
20010/2011 98 68 94 105 X X X X X X X X X
A estes turistas haveria que juntar os turistas dos três hotéis em falta e as muitas dormidas em estabelecimentos não oficiais ou casas particulares, para se obter um número aproximado. Esta estatística também não contabiliza quem só passa uma manhã
54 Um quarto tipo de turistas seriam os visitantes recorrentes, que já conhecem Carabane e chegam intencionalmente
à ilha, por decisão apriorística, tomada na Europa. Decidi não os incluir nesta subdivisão porque o tipo de frequência de Carabane que praticam (em termos de motivações, duração e relacionamento com o local) escapa àquilo que normalmente se considera como turismo, embora eles também sejam amplamente considerados nas subsequentes páginas desta dissertação.
73 ou uma tarde na ilha, indo almoçar ao Hotel Carabane, número que constituirá talvez metade dos visitantes da ilha, e que se inclui a na versão mais restrita do regime fechado.
Desde de 2009, o Hotel Carabane fecha nos meses de Maio e Junho, e, em 2011 voltou a acontecer o mesmo, o que constitui um indicador de uma diminuição recente nos números de turistas. Desde 2006 que a situação de turismo na região se tem agravado. A consciência de dependência do turismo aumentou com estas diminuições drásticas e a sua preservação é agora uma preocupação comum de organismos estatais, religiosos e da população local. A aldeia tem, por exemplo, realizado reuniões semanais sobre turismo, impulsionadas pelo Office du Tourisme de Ziguinchor, organismo governamental regional. Desde Julho de 2010 que estas reuniões acontecem. Numa delas, foi, por exemplo, decidido deixar de depositar o lixo na orla costeira da aldeia – que é a zona com maior movimento turístico, tendo-se optado pela sua zona mais escondida. Quem o sugeriu terá sido o Office du Tourisme de Ziguinchor. Este organismo também planeia para Carabane a abertura de um posto local de recepção/gestão do turismo, que acompanhará – e estará em rede com – outros cinco postos já criados nos principais pontos turísticos da região. Numa entrevista com o director do mesmo55, foi-nos explicado o grande investimento do governo regional no turismo, e a tentativa de começar a fazer um trabalho que possa começar a quantificar e as rotas turísticas locais para que possam ser melhor geridas e canalizadas.
Já o responsável local do Hotel Carabane manifesta vontade na dinamização do turismo local e senegalês. Coloca a tónica em conceitos de paz, tranquilidade, saída da confusão e da cidade, para explicar como será feita a tentativa de começar a captar públicos oriundos do Senegal urbano. Explica que “O hotel já não pode estar à espera que os clientes lhe caiam do céu. Tem que ir à procura deles, tem que estar no mercado”. Fala da questão da visibilidade e, à semelhança do responsável pelo Office du Tourisme de
Ziguinchor, numa direcção de roteirização e canalização dos manifestando vontade de
paralelizar a estrutura turística do Clube Med, em Cap Skiring, a apenas 30km de Carabane. A população em geral, manifesta-se, maciçamente a favor de uma evolução do turismo na ilha na direcção das estruturas colossais e tipo de turismo que existem em Cap Skiring, preocupando-a fundamentalmente a questão do emprego, apesar dos temores relativos ao turismo sexual e ao corrompimento moral local. Esta opção, de
55 15 de Maio de 2011.
74 resto, parece cada vez mais provável, nomeadamente com a reposição da escala náutica do Aline Sitoé Diatta, num futuro próximo.
Por enquanto, o turismo de Carabane, que passa muito pela lógica backpacker, deve ser visto como, não obstante, não só uma monodependência económica da ilha, mas também como uma âncora muito importante de reprodução da comunidade (ninguém tem a certeza que a aldeia pudesse continuar a existir sem turismo). De resto, Carabane corrobora certos pontos positivos que têm sido atribuídos a este tipo de turismo, como o controlo que as comunidades têm sobre os seus empreendimentos (Cohen, 1982 apud Maoz, 2005:223), ou a possibilidade de distribuição dos benefícios pela comunidade, apesar de a entrada de capital não ser suficiente, tal como o não é a capacidade de o fixar. Na verdade, o turismo de Carabane é errático, descontrolado e pouco inserido em sistemas de roteiros.