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RESUMO

A recomendação internacional de inserção da Educação Ambiental no currículo escolar de forma interdisciplinar tem sido alvo de polêmica desde sua concepção, na década de 70. Embora exista um consenso de que este seja o melhor caminho, a ausência de maiores referências sobre a interdisciplinaridade nos documentos oficiais, a organização curricular escolar e a formação dos professores têm favorecido a inserção da dimensão ambiental na educação de formas diferentes da preconizada pela lei. Assim, a presente pesquisa buscou conhecer os discursos dos atores envolvidos (coordenadores, poder público e professores), ao longo da diferentes fases/ etapas da Educação Ambiental a partir de sua disciplinarização dessa no ensino fundamental do município de Armação dos Búzios, analisar e discutir a consistência teórico-metodológica apresentada nos discursos. A polêmica em torno da melhor forma de inserção da dimensão am- biental na educação e as dúvidas existentes nos atores envolvidos apresentaram um espaço para discussões sobre a questão ambiental que está longe de ser um problema redutível a soluções e receitas prontas. Ridicularizar aqueles que são a favor da EA como disciplina e banalizar o assunto como se este já estivesse decidido, acaba por ferir os próprios princípios da educação ambiental.

Palavras-chave: Educação Ambiental, Epistemologia, Interdisciplinaridade. INTRODUÇÃO

Vivencia-se um dos maiores desafios do século XXI, uma crise ambiental de alcance global sem precedentes históricos baseada na depleção da natureza e na exploração do trabalho humano nos últimos séculos. Estima-se que o planeta já tenha passado por pelo menos cinco grandes abalos, dentre fenômenos astronômicos, climáticos e geológicos que ameaçaram a vida na Terra e provocaram altas taxas de extinção (SOFFIATI, 2008). Brugger (1994) atenta para a falta de reflexão típica da sociedade moderna e a preocupante redução de fenômenos comple- xos como violência, natureza, educação, que fora de uma contextualização histórica se tornam quase abstrações, personagens. Esses fenômenos, decorrentes das interações entre a sociedade e o mundo natural, através da reificação, processo típico da racionalidade moderna, perdem suas inerentes dimensões históricas.

O PROBLEMA

Em 2006, foi oficialmente criada através da Secretaria Municipal de Educação (SEMED) de Armação dos Búzios uma disciplina de Educação Ambiental para o ensino fundamental. Segundo Lima (2010), o então prefeito apresentava uma grande preocupação com a degradação ambiental na região, devido principalmente a especulação imobiliária e a atividade turística. Nesse contexto a equipe da SEMED de Armação dos Búzios, autorizou oficialmente através do parecer nº. 7/2006 a alteração da matriz curricular do Ensino Fundamental com inclusão da EA e estudos afros para 3º, 4º e 5º anos, língua estrangeira (inglês) para a 5º ano e EA e estudos afros para 6º e 7º ano e filosofia e língua estrangeira (espanhol) para 8º e 9º anos.

Contudo, um marco recente na história da E.A no Brasil, a Política Nacional de Educação Ambiental, expressa na Lei 9.795/1999 (BRASIL, 1998), destaca, que a Educação Ambiental deve ser desenvolvida como prática educativa integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modalidades do ensino formal (art. 10) e, em seu parágrafo primeiro traz a orientação para que a Educação Ambiental não seja implantada como disciplina específica no currículo de ensino. A polêmica sobre a forma ideal de inserção da EA pressupõe que, se há um claro entendimento sobre os objetivos e princípios norteadores da EA. No entanto, Dentz (2007) aponta para a falta de reflexão filosófica e histórica em atividades ligadas a questão ambiental, inclusive no meio acadêmico, que acabam apenas por sensibilizar a sociedade pelo aspecto catastrófico da crise, sem, no entanto, refletir sobre as práticas tecnicistas que alimentam um projeto de mundo que se pretende superar.

No Brasil, uma das primeiras inserções da dimensão ambiental no currículo escolar se deu em São Paulo, para Ciências do 1° grau, o que mais tarde veio a configurar uma forte tra- dição na associação entre E.A e ensino de ciências até meados da década de 90 (AMARAL, 2001). Já em alguns países da América Latina e da Europa, como a Espanha, o processo de desenvolvimento da E.A foi desde o início muito forte entre professores que estavam engajados com os movimentos de renovação pedagógica. Esse movimento resultou na inclusão do con- ceito de eixos transversais na reforma educativa em meados da década de 1980, e representou um aporte teórico inovador para a teoria curricular contemporânea, reforçando a perspectiva não-disciplinar da EA (GARCIA-GOMEZ apud AMARAL, idem).

Nesse contexto, desde sua recomendação, até os dias atuais, a EA tem ampliado seu es- paço na pesquisa realizada pelo MEC intitulada ‘’o que fazem as escolas que dizem que fazem educação ambiental?’’ só no Brasil, em 2004, o percentual de escolas do ensino fundamental que declararam trabalhar com EA, chegou aos impressionantes 94% (BRASIL, 2006). No en- tanto, apesar da expressiva ‘’ambientalização’’ das escolas por todas as regiões do país e as orientações para sua inserção no currículo escolar de forma interdisciplinar, esse processo não foi por todo homogêneo. Isso porque a SEMED de Armação dos Búzios decidiu inserir a EA no ensino formal em forma de disciplina.

Assim, a presente pesquisa buscou conhecer os discursos dos atores (coordenadores, po- der público e professores) envolvidos ao longo da diferentes fases/etapas da Educação Am- biental a partir de sua disciplinarização, analisar e discutir a consistência teórico-metodológica apresentada nos discursos dos referidos atores.

METODOLOGIA

Foram criados roteiros com questionamentos para auxiliar no processo de entrevistas. Objetivou-se ter acesso a informações que nos permitisse conhecer melhor a inserção da educa- ção ambiental no município. Para tal entrevistou-se o então coordenador de educação ambiental que exerceu o cargo de 2006 até 2008, a coordenadora do departamento de projetos da secreta- ria de educação atuante no mesmo período e professores envolvidos. Ao todo foram realizadas treze entrevistas junto a membros de Secretaria de Educação, professores e coordenadores de EA envolvidos no processo.