Os exemplos analisados neste item ilustram situações em que o informante se mostra não só atento às obrigações derivadas de seu papel conversacional, mas também cooperativo. Assim, em alguns momentos, demonstra consideração pelos interesses de seu interlocutor, procurando aproximar-se dele e envolvê-lo no diálogo. Em outros, chega até mesmo a auxiliá-lo na condução do evento. Eis o primeiro exemplo extraído do início de uma interação:
(61) Inf. LEMbro perfeitamente... então nós poderíamos começar dizendo que::... eu ia pra fazenda na infância... em tempo de férias... a casa da fazenda ela era... uma casa antiga... tipo colonial brasileiro... janelas
LARgas... (NURC/SP, 18, L. 5-10)
Essa intervenção do informante é a resposta à primeira pergunta do documentador que solicita uma descrição da casa da fazenda. A disposição do entrevistado se nota, primeiramente, pela elevação da voz, recurso prosódico que denota interesse pelo tema. Notamos também a presença do advérbio que modifica o verbo já expresso com ênfase. Em seguida, há uma tentativa de envolvimento do interlocutor por meio do emprego da primeira pessoa do plural, o que podemos considerar como uma das formas coletivas com valor de solidariedade, pois o entrevistado sinaliza a construção cooperativa que se processará no curso do diálogo.
Em (62), também retirado do início de uma das entrevistas, é a reprodução do verbo empregado na pergunta do documentador (..daria para você contar alguma coisa...) pelo informante que sinaliza a disposição desse locutor. Eis a sequência:
(62) Inf. conto sim não tem problema... ((tossiu)) não tem segredo ((risos))... (o) negócio é o seguinte... eu participei de um grupo de teatro... formado lá no:: Mackenzie... por alunos... éh::: alunos e alguns:: professores... (NURC/SP, 161, L. 5-9)
Vejamos, ainda, mais uma resposta inicial do informante, agora extraída do inquérito 137 para o qual não há transcrição da pergunta:
(63) Inf. então vamos falar... a respeito de São Paulo e das outras cidades que eu:: conheço porque:: já tive oportunidade de lá estar... evidentemente quando a gente pensa em São Paulo... e em fazer comparação... ah::... devemos...
lembrar aquelas cidades onde estivemos anteriormente né? (NURC/SP, 137, L. 1-6)
Destacamos, mais uma vez o emprego da primeira pessoa do plural, e de sua variante oral “a gente”. Entretanto, apenas a primeira ocorrência pode ser tomada como uma forma coletiva de solidariedade, uma vez que inclui o documentador na fala do informante. As outras três ocorrências configuram o uso genérico e impessoal da primeira pessoa. De qualquer modo, esse emprego contribui para a construção de um discurso menos assertivo, o que favorece a construção da imagem social de um locutor menos impositivo e mais cortês.
Os dois trechos a seguir, extraídos do mesmo inquérito, revelam o informante atento à presença do documentador e, de certa forma, a seus interesses, na medida em que busca o diálogo com seu interlocutor, chegando até mesmo a lhe dirigir uma pergunta, embora, no primeiro caso, não lhe ceda o turno:
(64) Inf. (...) Belo Horizonte que é
uma bela cidade mas completamente diferente de São Paulo você é de Belo Horizonte não? ((risos)) anh? ahn... é uma
cidade:: que foi estruturada em termos:: ahn paisagísticos
ou urbanísticos que:: destacam Belo Horizonte... no rol das
cidades onde eu tive oportunidade de estar (NURC/SP. 137, L. 29-34)
(65) Inf. (...) vocês já tiveram oportunidade de estar em Belo Horizonte não?...
já?
Doc. já
Inf. você deu um risinho aí que pelo (visto) pelo visto
você gosta muito de Belo Horizonte
Doc. eu gosto Inf. é
Doc. (muito) bonita ((risos))
Inf. Belo Horizonte:: é uma cidade atrativa uma cidade:: limpa uma cidade... inclusive naquele centro de Belo Horizonte onde a gente costuma estar MAIS quando vai a Belo
Horizonte dá uma sensação assim de largueza muito grande... que São Paulo não apresenta muito porque São Paulo
cresceu desordenadamente (NURC/SP, 137, L. 45-58)
As perguntas dirigidas aos documentadores representam, certamente, uma tentativa de envolver o interlocutor no diálogo. Os trechos ocorrem nos primeiros minutos da gravação, o que nos leva a interpretá-los como índices da negociação entre interlocutores, inclusive da de seus papéis conversacionais, especialmente no caso do informante. Mas devemos considerar, ainda, o fato de que, ao tentar aproximar-se de seu interlocutor, o entrevistado o faz por meio da valorização dos interesses de um dos documentadores.
Assim sendo, com a primeira pergunta, o informante procura confirmar a origem do documentador. Como não há transcrição de turno atribuído ao segundo, podemos supor que a confirmação pode ter sido feita por meio de algum gesto. À segunda, dirigida aos dois documentadores, segue-se a confirmação verbalmente. Com essas duas intervenções o entrevistado procura levantar terreno em comum, no que tem êxito. Mais próximo de seu interlocutor e, tendo encontrado condições favoráveis ao diálogo, faz uma suposição sobre
seus interesses (sequência em itálico) para, em seguida, valorizar aquilo que o documentador também valoriza, o que se revela por meio do elogio dirigido a Belo Horizonte em comparação a São Paulo. Nesse sentido, poderíamos falar em cortesia positiva do informante em relação ao documentador.
Em (66), trecho extraído do inquérito 235, evidencia-se, mais uma vez, o interesse do informante pela proposta do documentador:
(66) Doc. escuta e quais os componentes::... de uma feijoada?...
você sabe?
Inf. vamos fazer uma linda feijoada você quer uma rece::ita?
Doc. Isso
Inf. o que você vai querer? ((rindo; risos)) Doc. (me dá) a receita completa ((risos))
Inf. se bem que eu seja lá uma grande que eu não seja uma grande coisa em culinária hem? ((riu)) (você vai) ((riu))... você vai tentar fazer essa feijoada você vai::... dar alguma mancada por aí viu? ((risos)) bom em primeiro
lugar você tem que ter o feijão preto né? (NURC/SP, 235, L. 175-186)
No trecho transcrito, os risos compartilhados podem evidenciar um clima de descontração. As perguntas que a informante dirige ao documentador ratificam essa evidência e, além disso, denotam uma certa proximidade entre os interlocutores e o interesse da informante em ser cooperativa na interação. Note que o documentador pergunta apenas sobre os componentes da feijoada, diante do que a informante dispõe-se a dar a receita do prato e de acordo com o desejo de seu interlocutor. Mas, a disposição da locutora pode pressupor seu conhecimento no campo da culinária e, até mesmo, uma oportunidade para vangloriar-se desse saber. Assim, atenta ao tabu que pesa sobre o autoelogio, a informante faz a ressalva de que dará a receita, mas seus conhecimentos a respeito do assunto são modestos. Desse modo, preserva a própria face, mas também a dos interlocutores.
Outro exemplo em que se evidencia a cooperação do informante em relação ao desenvolvimento da interação é o que transcrevemos a seguir:
(67) Doc. ahn ahn... e... o leite... tirado o que se faz com ele?
Inf. um bom a senhora havia perguntado como é que se tirava leite
primeiro né?
Doc. isso... isso... sabe? Inf.. sei
Doc. ah então conte ((risos)) ( )sabe que é ótima (NURC/SP,18, L. 534-539)
Nesse caso, a cooperação do informante consiste em lembrar a documentadora sobre uma pergunta anterior que ainda não havia sido respondida. O ato poderia até representar uma ameaça à interlocutora, já que, em virtude de seu papel, cabe a ela dirigir a interação. Além disso, o ato representa uma correção. Entretanto, a reação positiva da documentadora revela que a atitude do informante é interpretada como colaboração e, nesse sentido, como uma cortesia, na medida em que auxilia a interlocutora na condução do diálogo.
Tal fato evidencia que a avaliação de um ato como cortês depende de sua interpretação como tal, num determinado contexto. Briz (2004: 73), ao estudar a atenuação de certos atos verbais como o pedido, por exemplo, afirma que a cortesia “só pode ser medida dialogicamente no contexto conversacional”. Ou seja, um ato verbal pode ser interpretado como cortês em virtude da reação do outro e em relação ao contexto interacional. É, em certa medida, nesse sentido, que interpretamos essa intervenção do informante como um ato de cortesia.
No inquérito 250, ocorre uma situação que, a princípio, pode ser interpretada como um dos poucos atos de cortesia positiva presentes nas intervenções do informante. Trata-se do trecho que se segue em que o informante avalia positivamente uma pergunta:
(68) Doc. certo... quando um empregado professor ele sai por conta... por conta própria... quais os direitos que
competem a ele?
Inf. bem... eu eu devo dizer que ... ahn... o que vou
declarar... é muito aleatório porque... como nós
e não sou consultor de firmas... mas::... hoje... ah... existe o que se chama o Fundo de Garantia...
Inf. (...) ANtes do Fundo
de Garantia a questão é que se resolvia... nos termos daque::la ahn... dispensa que eu me referi... quando respondi à::... à pergunta anterior se não estou
enganado... foi até muito bom é/ éh... muito boa essa pergunta agora porque... ficou mais claro talvez agora... ficou mais clara a explicação (NURC/SP, 250, L. 105- 135)
O final do trecho transcrito nos mostra o elogio e é, nesse sentido, que falamos em cortesia positiva. Entretanto, a análise do início da intervenção do informante pode nos levar a interpretar o elogio final como reparação a uma ameaça. A esse respeito, observe-se que o entrevistado inicia sua resposta com um “marcador prefaciador de rejeição” (em itálico) ou, mais especificamente, um “’mas-prefácio’ que realiza um anúncio metacomunicativo”, fazendo uma avaliação negativa da declaração vindoura (Rosa 1992: 78-79) (grifo da autora). O que caracteriza um “mas-prefácio” é o fato de esse marcador conter “expressões ou verbos declarativos associados à adversativa mas”. Os marcadores prefaciadores de rejeição desempenham a função de rejeitar, por antecipação, “possíveis reações desfavoráveis ao que é dito”. Desse modo, esses marcadores podem exercer um “controle sobre o comportamento verbal do interlocutor”.
Note que, no exemplo analisado, o locutor informante preserva a própria face, evidenciando o tipo de reação negativa que deseja evitar (sua declaração é aleatória e deve ser entendida como tal). O enunciado subsequente justifica essa avaliação negativa e sinaliza que a pergunta do documentador representa uma ameaça, pois se refere a um tema que o entrevistado julga não dominar muito bem. Além disso, a fala desse locutor denuncia o fato de que ele, anteriormente, já havia se manifestado quanto a sua competência profissional para responder a perguntas sobre o tema em questão. Ao denunciar uma possível falta de atenção do documentador, o informante acaba por ameaçá-lo. É, nesse sentido, que o elogio poderia configurar-se como um reparo.