Durante seis anos e meio, de 1999 a 2005, por motivos familiares, houve a necessidade de assumir a direção de uma indústria, mais precisamente uma indústria de tintas. Surge, assim, um fato inusitado que é dirigir uma empresa, de capital nacional e de porte pequeno/médio, a partir da formação de psicólogo, em Psicanálise e com um referencial materialista histórico e dialético. Ali foi possível observar em profundidade a relação entre a economia e a constituição da família e do sujeito, sendo, portanto, um ponto privilegiado de observação da dinâmica da subjetividade em função das relações sociais e de produção. Então, se antes havia a experiência com o sujeito em situação de miséria e exclusão, assim como com a população de
classe média e alta no consultório, nesta fase, deparei-me diretamente com os mecanismos econômicos que constituem uma e outra.
Este lugar me permitiu uma compreensão vez mais aprofundada do que é o capitalismo contemporâneo, assim como do processo de globalização e o lugar do trabalho na vida humana. É inegável que o contato direto com as relações de produção causaram um profundo impacto em minha práxis enquanto sujeito, psicanalista e pesquisador.
Junto à atividade de empresário nos últimos anos, tenho desenvolvido diferentes trabalhos institucionais entre os quais vale citar a supervisão a uma das maiores sociedades de formação de operadores de grupos do país, a equipe de técnicos da Secretaria do Bem Estar Social da Prefeitura de Paulínea; a coordenação de grupo de estudos com técnicos de distintos setores da Prefeitura de Campinas que trabalham diretamente em programas críticos tais como o Renda Mínima e crianças de rua.
Na cidade de Porto Alegre, foi possível realizar a capacitação de, aproximadamente, 120 monitores, técnicos e gerentes da Fundação de Assistência Social Comunitária (FASC) da Prefeitura, além de intervenções pontuais na Secretaria da Saúde desse mesmo município e, ainda, supervisão a um grupo que desenvolve um jornal com a população de rua de Porto Alegre no ano de 2003.27 Ainda nesta cidade, fomos contratados pela prefeitura para darmos supervisão aos distintos programas de ação com crianças e adultos de rua, além de termos como tarefa contribuição para a constituição e ordenamento da rede de atendimento à população moradora de rua na cidade através da coordenação de um grupo intersecretarial28 responsável pelas ações da prefeitura no campo.
27 A partir de 2002 quase todos os trabalhos que desenvolvi foram realizados em parceria com Emilia
Estivalet Broide.
28 Fundação de Assistência Social Comunitária (FASC), Secretaria da Saúde, Secretaria da Habitação e
Na cidade de São Paulo, também realizei a supervisão da equipe de atendimento em saúde mental da Guarda Municipal Metropolitana. e, também, junto à Associação Nacional dos Trabalhadores de Empresas de Autogestão (ANTEAG). Essa última ação foi ligada ao governo federal, mais precisamente à Secretaria da Economia Solidária (SENAES) do Ministério do Trabalho. Trata-se do desenvolvimento do I e II Plano Nacional de Qualificação das cooperativas e empreendimentos de auto-gestão, coordenado pela ANTEAG29. Esse projeto também tem a participação direta da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da USP. A parte que me coube coordenar em conjunto com a ANTEAG é justamente a que se refere à qualidade de produtos e serviços. No II PNQ fui o responsável pelo desenvolvimento da metodologia do trabalho desenvolvido através de oficinas de trabalhadores em diversas regiões do Brasil.
Na cidade de Guarulhos, no ano de 2004, fizemos uma intervenção grupal com aproximadamente 250 trabalhadores do Fundo Social de Solidariedade que é coordenado por Janete da Rocha Pietá, através da PUC- SP, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Psicologia da Educação. Essa experiência foi desenvolvida diretamente pelo Núcleo de Psicanálise e Sociedade e teve a Coordenação Geral na pessoa do Prof. Dr. Raul Pacheco Filho, a Coordenação Executiva foi realizada pela Profa. Dra. Isleide Fontenelle e a Coordenação Técnica ficou a meu encargo. A PUC-SP esteve representada também pela Profa. Dra. Mitsuko Antunes que, além de participar da articulação do trabalho, realizou a ponte entre a Prefeitura de Guarulhos e a Universidade. Foram três dias de trabalho utilizando a metodologia do grupo operativo tendo como referência a Experiência Rosário
29 Os parceiros da ANTEAG neste projeto são: ABCRED, ADS/CUT, CARITAS, CONCRAB, FASE,
IBASE, PACS, Rede Brasileira Socioeconômica Solidária, Rede de Gestores de Políticas Públicas de Economia Solidária, Rede Universitária de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares, UNITRABALHO.
desenvolvida por Enrique Pichon Rivière, na década de 50’, na Argentina.30 Essa intervenção tinha por tarefa elaborar aspectos contratransferenciais vividos pelos trabalhadores do Fundo Social, possibilitando um debate profundo sobre as dificuldades de sua ação cotidiana.
Ao longo do ano de 2005, realizamos um trabalho de consultoria à Secretaria da Saúde de Guarulhos, no programa da constituição de uma base de dados unificada sobre a violência em projeto, financiado pelo Ministério da Saúde. Aqui fizemos uma nova experiência que é tratar de mobilizar a segunda maior cidade de São Paulo e o oitavo PIB do país, realizando um seminário31 com uma equipe intersecretarial, e com ajuda de nossas alunas do grupo operativo, em que estavam presentes 1.200 pessoas entre crianças adolescentes, militares, agentes da polícia federal, polícia civil e militar, agentes de saúde, professores, assistentes sociais, etc. Durante o dia, na parte da manhã, foi feita uma mesa redonda sobre a questão da violência e, à tarde, foram realizados grupos operativos que se encerraram em um grande grupo de 800 pessoas. Além da presença do prefeito, estava também grande parte do secretariado.
Esse seminário trouxe algo novo e importante já que até então havia tido uma prática individual, grupal, nas instituições e nas ruas, mas essa foi a primeira vez que foi possível pensar e executar o trabalho grupal sobre o tema da violência, pensando e realizando a mobilização de uma cidade por seus diferentes atores.
Para encerrar, gostaria de realizar uma última reflexão: o que une os diferentes trabalhos realizados ao longo de minha vida profissional, e, também, qual a diferença entre eles? Existe algum fio condutor? O caminho é
30 PICHON RIVIÈRE, E. Técnica dos grupos operativos. In: O processo grupal.
31 O Seminário Viva Construindo a Paz foi coordenado pela subsecretária da saúde e coordenadora do
pensar qual é o produto de cada uma dessas diferentes inserções. No consultório, podemos pensar que o produto é a transformação do sintoma no percorrido do desejo por meio da palavra na transformação da vida. Na consultoria pública, o produto é o atendimento à população. Nas empresas de autogestão, é a obtenção do lucro e sua repartição entre os cooperados. Já na empresa privada, é o lucro do capitalista.
Em qualquer um desses casos, a confusão a cerca do produto inviabiliza o trabalho. Se, no consultório, o produto for o lucro e, na empresa, a descoberta do verdadeiro desejo, a tarefa não se realiza. A mesma coisa na consultoria, se o produto for somente o desejo da equipe ou o lucro político da instituição, a população ficará excluída.
Na verdade, é o produto que irá definir a tarefa e deverá liderar o processo. Assim, o fio condutor é o método psicanalítico que está presente nos diferentes trabalhos e lugares. Seu papel é desobstruir, pela palavra, os conflitos e resistências à tarefa os quais surgem como sintomas no paciente, na instituição e na comunidade.
Cabe relatar agora como cheguei ao campo e ao tema da pesquisa. Como é possível perceber a partir dessa introdução, o tema da juventude em situações sociais críticas perpassa toda a minha vida profissional. Dentre os trabalhos que desenvolvi no ano de 2002, houve um extraordinariamente rico pelo material clínico que gerou. Vínhamos32
trabalhando com uma ONG que desenvolve ações na área da violência, nas periferias da cidade de São Paulo, com recursos da UNICEF, quando dois jovens líderes comunitários ligados a um dos programas de formação contra a violência cometeram um assassinato.
Os jovens não foram presos e a instituição ficou diante de um sério dilema de como agir em tal situação. Houve, então, a idéia de realizar um
grupo operativo do qual participassem os dois rapazes que haviam cometido o crime. Foram convidados também outros jovens da periferia afetados por graves situações de violência, alguns sobreviventes de chacinas, mais os membros da instituição responsáveis pelos programas e alguns intelectuais comprometidos com o tema. O objetivo do grupo, ou melhor, a tarefa era exatamente a elaboração do crime por parte dos jovens e da instituição. A diretoria da ONG convidou-me para coordenar o grupo e eu estendi o convite à psicóloga e psicanalista Emilia Estivalet Broide para co-coordenar o grupo. É esse o material clínico que será analisado na tese.