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N. B.: SEE ALSO 9B005

A escolha por iniciar a apresentação dos principais conceitos, categorias e noções desenvolvidos pelo Círculo Bakhtiniano pelo conceito de enunciado (enunciado concreto, enunciação)15 se mostra evidente em uma tese que se propõem lançar mão de uma teoria- metodologia discursiva. Qualquer análise do discurso parte, evidentemente, do enunciado, que representa a materialização de inumeráveis discursos em diálogo, em sua forma verbal, visual ou verbo-visual, considerando-se situações e contextos específicos da sociedade.

Quando estamos diante de textos verbais, o trabalho metodológico, analítico e interpretativo, de longa tradição na nossa área, se dá, sempre, esmiuçando

15 Existe grande diversidade em relação ao emprego dos conceitos enunciado, enunciado concreto e enunciação, decorrente de seu uso por diversas teorias discursivas. “Os conceitos enunciado/enunciação, tão largamente utilizados na área dos estudos da linguagem, estão longe de promover um consenso, apresentando, ao contrário, uma grande polissemia de definições e empregos” (BRAIT e MELO, 2008, p. 62). Dentro do pensamento bakhtiniano, a leitura desses termos deve estar necessariamente articulada com outros termos, categorias, noções e conceitos que lhes dotam sentido específico diferenciado em relação a outras perspectivas teóricas.

campos semânticos, micro e macro organizações sintáticas, marcas e articulações enunciativas que caracterizam o(s) discurso(s) em foco e indiciam sua heterogeneidade, o gênero a que pertencem e os gêneros que nele se articulam, a tradição das atividades em que se inserem, o inusitado de sua forma de ser discursivamente, sua participação ativa nas esferas de produção, circulação e recepção. Por outro lado, se escolhemos textos visuais ou verbo-visual (foto e sua legenda; pintura e seu título; composições visuais em jornais; filmes etc), assumindo sua textualidade, sua discursividade, também é possível lançar mão de muitos desses aspectos, respeitando as particularidades da construção textual e discursiva da imagem. Esse cuidado com a dimensão específica da visualidade nos obriga, também, a reformular construtos teóricos e metodológicos, uma vez que não se trata de testar determinados conceitos ou determinada teoria, mas discutir a construção de sentidos, a produção de sentidos desses discursos. (BRAIT, 2008b, 96-97).

Se para algumas teorias o conceito de enunciado se limita à frase, sequência de frases, imagens ou outras manifestações verbo-visuais, com alguns linguistas acreditando ser possível, exclusivamente por meio delas, explicar os fatos da linguagem observados na realidade cotidiana; em outras, o enunciado é entendido como unidade de comunicação e significação, devendo ser, obrigatoriamente, contextualizados.

A língua materna – sua composição vocabular e sua estrutura gramatical – não chega ao nosso conhecimento a partir de dicionários e gramáticas mas de enunciações concretas que nós mesmos ouvimos e nós mesmos reproduzimos na comunicação discursiva viva com as pessoas que nos rodeiam. (BAKHTIN, 2010, p. 282-283).

Nessa segunda concepção, prenunciada por diversos estudos transfrásicos, um enunciado verbo-visual está relacionado a infinitos enunciados. Ou seja, o enunciado verbo- visual ganha sentido em diferentes realizações enunciativas, possui caráter extraverbal (extralinguístico), sendo o contexto (amplo e imediato) imprescindível para a sua compreensão. “O Círculo não aceita que as categorias de percepção e/ou de pensamento possam existir fora da situação concreta dos sujeitos que percebem e/ou pensam ou que existam em sua consciência entendida como instância a-social e a-histórica” (SOBRAL, 2008b, p. 106). Os estudos transfrásicos, os quais concebem o enunciado para além de suas características gramaticais, encontraram no Círculo de Bakhtin importante fonte de inspiração. “Ora, a língua passa a integrar a vida através de enunciados concretos (que a realizam); é igualmente através de enunciados concretos que a vida entra na língua. O enunciado é um núcleo problemático de importância excepcional”. (BAKHTIN, 2010, p. 265).

O enunciado é um dos conceitos essenciais na concepção de linguagem do Círculo Bakhtiniano, que a consideram sob um enfoque histórico-social. Nesse sentido, a compreensão e análise da linguagem por meio de seus enunciados levam em conta, inevitavelmente, a comunicação efetiva, com seus sujeitos e discursos aí envolvidos. “As relações de acordo-desacordo, afirmação-complemento, pergunta-resposta, etc. são relações puramente dialógicas, mas não são, (...), relações entre palavras, orações ou outros elementos de uma enunciação, mas relações entre enunciações completas” (BAKHTIN, 2010b, p. 215- 216).

Na concepção de Bakhtin e do Círculo

(...) a consciência depende da linguagem para formar-se e manifestar-se. E como a linguagem se acha imersa no mundo, a consciência não é uma instância que imponha suas categorias ao mundo, precisando, em vez disso, desse mundo para se constituir, ao tempo em que também o “constrói”. As situações vividas chegam à consciência individual por meio da linguagem, no âmbito do processo de interiorização do signo ideológico.

A constituição da consciência e a construção do mundo pelas categorias da consciência são processos que se dão situadamente, na sociedade e na história, em vez de no plano essencial do “humano” idealista, dado que só se pode ver o mundo, natural ou social, a partir de uma dada posição, o que não implica negar a existência concreta do mundo dado, mas postular que sua apreensão é sempre situada. (SOBRAL, 2008b, p. 107).

Brait e Melo (2008) fazem menção ao texto Discurso na vida e discurso na arte – sobre poética sociológica (1926), assinado por Voloshinov, para mostrar a importância da situação extraverbal/extralinguística (contextos) no entendimento dos enunciados.

A partir da indagação – Como o discurso verbal na vida se relaciona com a

situação extraverbal que o engendra? – é utilizado um exemplo bastante simples – Duas pessoas estão sentadas numa sala. Estão ambas em silêncio.

Então, uma delas diz “Bem”. A outra não responde, o texto dá a medida da

diferença existente entre a concepção desses termos na abordagem bakhtiniana da linguagem e nas demais a que hoje temos acesso.

Em função desse exemplo muito simples – Bem, um enunciado monoleximático –, o texto vai construindo a ideia de que o sentido de “bem” só pode acontecer, só pode ser compreendido e consequentemente analisado porque existe uma situação extraverbal implicada no verbal, incluindo aí interlocutores que se conhecem, compartilham universos, conhecimentos, pressupostos, sentimentos. Há uma situação específica – um tempo ruim que se prolonga – e uma simples palavra, enunciada num tom apropriado, carrega a avaliação que é feita pelo enunciador e que é perfeitamente entendida e partilhada pelo silêncio do interlocutor.

Considerada a dimensão comunicativa, interativa, avaliativa, a palavra bem foi enunciada dentro de condições que a tornam um enunciado. Isso significa que esse enunciado implica muito mais do que aquilo que está incluído

dentro dos fatores estritamente linguísticos, o que, vale dizer, solicita um olhar para outros elementos que o constituem. (BRAIT e MELO, 2008, p. 66, grifos das autoras).

Em suma, o enunciado e as suas formas particulares de enunciação devem ser analisados considerando-se a interação entre o verbal/visual e o extraverbal que integram a situação. Mas aqui o extraverbal não deve ser visto como uma causa externa de um enunciado, como uma força mecânica autônoma. A situação deve ser analisada como integrada ao enunciado, sendo uma parte essencial de sua significação. Os enunciados estabelecem múltiplas conexões com o contexto extraverbal, correndo o risco de perder quase toda a sua significação se analisada separadamente desse contexto. O enunciado concreto existe no processo de interação social entre os participantes da enunciação, sendo a sua forma e significação decorrentes do caráter desta interação.

El sentido vital y la significación del enunciado (cualesquiera que fuesen) no coinciden com la estrutura puramente verbal del enunciado. Las palavras dichas están impregnadas de lo supuesto y de lo no dicho. Aquello que suele llamarse “comprensión” y “evaluación” del enunciado (acuerdo o desacuerdo) siempre abarca, junto com la palavra, la situación cotidiana extraverbal. De este modo la vida no actúa sobre el enunciado desde el exterior: lo impregna desde el interior de la enunciación, como aquella unidad y comunidade de la existencia que circunda a los hablantes, y de las valoraciones sociales básicas que habían brotado de esta existencia, valoraciones sin las cuales es imposible cualquier enunciación plena de sentido. La entonación se sitúa em la frontera entre la vida y la parte verbal del enunciado; parece bombear la energía de uma situación vital a la palavra, atribuye a todo lo lingüísticamente estable um movimento histórico y su unicidade. Finalmente, el enunciado refleja em sí la interacción social entre el hablante, el oyente y el héroe, viene a ser el producto y la fijación de su comunicación viva em el material de la palavra. (VOLOSHINOV, p. 123, 1997).

A perspectiva de enunciação, considerada em seu enfoque discursivo, implica um caráter social e histórico, ligando-se a enunciações anteriores e posteriores que fazem os discursos circularem. Ou seja, os discursos circulam por meio de enunciados/enunciações e estes devem ser encarados na sua historicidade, ultrapassando seu caráter apenas linguístico.

O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua mas, acima de tudo, por sua construção composicional. Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo, a

construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus

tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros

do discurso. (BAKHTIN, 2010, p. 261-262, grifos do autor)

A citação anterior, apesar de iniciar pelo conceito de “enunciado”, trás consigo ainda os conceitos e noções de “campo (esfera)”, “estilo” e “gêneros do discurso”. De certa forma, ela exemplifica bem a articulação inevitável que Bakhtin e o Círculo realizam entre diversos conceitos-chave em suas obras. Apesar desta seção ter se iniciado pelo conceito de “enunciado” – escolha realizada devido ao fato de que em uma análise do discurso parte-se do enunciado para a construção da análise –, esse conceito jamais pode ser entendido em sua plenitude se não for articulado com outros termos, noções, categorias e conceitos apresentados e desenvolvidos pela teoria/análise bakhtiniana.

Os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem. Nenhum fenômeno novo (fonético, léxico, gramatical) pode integrar o sistema da língua sem ter percorrido um complexo e longo caminho de experimentação e elaboração de gêneros e estilos. (BAKHTIN, 2010, p. 268).

Outro aspecto essencial para a compreensão bakhtiniana de enunciado diz respeito ao fato dele, o enunciado, dirigir-se a alguém, de olhar para o destinatário. Este pode ser o interlocutor direto do enunciado, diretamente ligado ao enunciador; pode ser um interlocutor presumido, o qual se instalará a partir da circulação do enunciado; ou ainda um interlocutor indeterminado, um sobredestinatário, que está além da fronteira de tempo e espaço do momento da enunciação efetivada. Um obra de arte, por exemplo, que ultrapassa seus limites cronotópicos (tempo e espaço), se enquadraria nessa possibilidade de relação indeterminada entre enunciador e destinatário. A relação entre o locutor e o seu destinatário é essencial para a compreensão da composição e do estilo dos enunciados e ainda contribui para a análise integradora entre o verbal/visual e o extraverbal. O próprio estudo dos gêneros do discurso depende dessa relação entre enunciador e destinatário, uma vez que cada uma das áreas da comunicação verbal/visual tem concepções peculiares sobre seus destinatários, fazendo aparecer e circular os gêneros discursivos. Para se estabelecer marcas enunciativas e discursivas se torna necessário ir além daquelas marcadas verbo-visualmente. É preciso ater- se nas marcas de enunciação de um sujeito histórico e socialmente posicionado do ponto de vista discursivo, que circula entre discursos e os faz circular. Para Bakhtin, “(...) o texto é um

enunciado, o diálogo entre textos é um diálogo entre enunciados, e por trás do enunciado existe o falante, o sujeito dotado de consciência” (BEZERRA, 2010, p. XVII).

Todo enunciado – da réplica sucinta (monovocal) do diálogo cotidiano ao grande romance ou tratado científico – tem, por assim dizer, um princípio absoluto e um fim absoluto: antes do seu início, os enunciados de outros; depois do seu término, os enunciados responsivos de outros (ou ao menos uma compreensão ativamente responsiva silenciosa do outro ou, por último, uma ação responsiva baseada nessa compreensão). O falante termina o seu enunciado para passar a palavra ao outro ou dar lugar à sua compreensão ativamente responsiva. O enunciado não é uma unidade convencional, mas uma unidade real, precisamente delimitada da alternância dos sujeitos do discurso, a qual termina com a transmissão da palavra ao outro (...). (BAKHTIN, 2010, p. 275).

Enfim, o enunciado concreto possibilita compreender a forma como a enunciação se estabelece e os discursos que o atravessam. Por meio da sua constituição enquanto enunciado, que integra os elementos verbo-visuais e extraverbais, é possível compreender que o enunciado se compõe de discursos que circulam na sociedade e, dessa forma, entender os sentidos discursivos que o constituem.

1.3.2 As relações dialógicas como forma de entendimento do sentido do discurso dos