4 HOVEDDEL
4.7 B ARNETRÅKKREGISTRERING
Uma das dificuldades da turma quanto à escrita era a questão ortográfica, então perceberam-se diversos momentos em que a orientação era para auxiliar o ajuste da grafia ao padrão. Além disso, foi possível notar, em algumas atividades, ações que orientavam para revisão, correção, reescrita e de assumir a voz no texto.
Contudo, também houve momentos de reflexão sobre como se escreve no coletivo, em duplas e individual.
Continuei observando e percebi que duas crianças, Ayana e Nubia, haviam escrito cacheado com grafias diferentes. Solicitei que elas escrevessem na lousa e pedi que as crianças lessem. A primeira escrita foi lida “caixiado”, Nourbese levantou-se, apontou o erro e disse: “Aqui tem um i, aqui caixiado” e Udama completou: “E também não é com x”, então pedi para ler a segunda escrita “cachiado” as crianças leram, e falei que naquela havia apenas uma letra errada. Asad levantou-se, disse qual era e já arrumou: “Eu sei, aqui no lugar do i é o e”. Falei muito bem e solicitei que quem tivesse escrito essa palavra para verificar se estava correta em suas folhas e se fosse necessário corrigisse (Atividade 2).
Ao longo da intervenção, como já explicado, a opção foi por realizar uma escrita de impressões infantis sobre o mundo, sobre as relações e sobre si. Os dados demonstraram que no registro as crianças variavam a estrutura, ou seja, ao solicitar a elas que escrevessem sobre o tema estudado no dia, algumas escolhiam realizar perguntas, outras produziam comentários e houve crianças que criaram uma narrativa.
Kwaku havia feito um desenho. Ao mostrar primeiro, falou: “O tia, ele xingou ele só porque tem o cabelo black”; Perguntei: “Por quê?”. A resposta foi: “Porque ele está com inveja”, e falou que tinha escrito “burro”. Perguntei quem era o burro, e ele, apontando o desenho, falou: “O muleque não gostou que ele tem cabelo black power e daí chamou ele de burro”. Perguntei se era certo, e ele respondeu que não, e mais uma vez indaguei qual seria a melhor atitude. Ele pensou um pouquinho e disse: “Ele parar de xingar os outros”. Eu disse: “Isso”, e ele completou: “Vai que a mãe dele chama ele lá na casa do menino”, e saiu (Atividade 2).
A professora-pesquisadora percebeu na pergunta de uma criança sobre a palavra “cafuza”, que apareceu em um texto não selecionado, uma oportunidade para: discutir outras palavras associadas às pessoas negras, introduzir a ideia de autobiografia, visto que o texto que a criança lia era uma biografia e, por fim, ampliar o repertório sobre cultura afro-brasileira. Então, devido à inserção da autobiografia foi preciso orientar as meninas e meninos sobre as características desse gênero.
Na percepção da professora-pesquisadora, as duas formas de orientar essas escritas foram diferentes, pois na primeira surgiram perguntas, narração de fatos e acontecimentos reais e imaginados, expressão de desejos. Já na segunda as crianças procuravam imitar os modelos. Porém, as duas formas de escrever apresentaram indícios importantes para a pesquisa: uma não desqualificou a outra.
Quanto aos procedimentos de revisão, correção e reescrita, às vezes, outras crianças participavam e não só a que havia escrito.
Akin perguntou se podia começar, e eu disse que sim. Makena já havia começado, e solicitei que ela lesse, e Akin, que estava ao seu lado, comentou “Escreveu um livro!”. Então, a menina começou a ler: “Vida de Makena: Oi, sou a Makena, tenho sete anos. Eu vou todos os dias para a escola tou tou (como percebi que ela estava com dificuldade, indiquei que a escrita correta é estou, ela corrigiu e continuou), estou no 2º ano. A Makina e a Nouberse não gostam de mim, mas eu gosto dela e da minha professora. O meu cabelo é castanho e o meu olho é castanho [...] eu gosto de todo mundo beijos e abraços”. Indiquei uma parte que não havia entendido, ela disse que também não, mas depois leu e corrigiu. Então, eu falei para a menina que estava legal, no entanto faltava dizer sobre as brincadeiras de que ela gostava, e Chad, próximo, disse: “É! Colocar que ela é arteira”. Eu discordei que ela fosse, mas ele disse: “É um pouco”, e Makena sorriu. Perguntei para ela, e a menina fez o sinal que era um pouquinho, e Akin disse: “Às vezes”, então eu sugeri para ela colocar que era um pouco (Atividade 8).
Na análise dos dados, constatou-se que a professora-pesquisadora utilizou procedimentos para auxiliar as crianças a assumirem o seu dizer no texto.
Depois pedi para a Nouberse para ler. Ela leu e, durante a leitura houve várias interrupções sobre como alguns meninos estavam comportando-se. Eu tentava explicar para a menina que faltava ela escrever mais como ela era, perguntei como ela era, e ela disse: “Eu tenho cabelo preto” (mordeu os lábios). Perguntei o que mais, ficou em silêncio por um tempo e disse: “Eu não sei se sou morena ou negra”. Eu disse que ela poderia colocar o que tinha dito, ela sorriu, e eu comentei com ela que se fosse verdade poderia escrever. Fui conversar com os meninos e ela escreveu (Atividade 8).
Escrever é um processo complexo. Ao orientar, a professora-pesquisadora foi auxiliando as crianças desenvolver a escrita. Esse processo remeteu a um trecho de um livro de Evaristo:
Compreendera que sua vida, um grão de areia lá no fundo do rio, só tomaria corpo, só engrandeceria, se se tornasse matéria argamassa de outras vidas. Descobria também que não bastava saber ler e assinar o nome. Da leitura era preciso tirar outra sabedoria. Era preciso autorizar o texto da própria vida, assim como era preciso ajudar a construir a história dos seus. E que era preciso continuar decifrando nos vestígios do tempo os sentidos de tudo que ficara para trás. E perceber que, por baixo da assinatura do próprio punho, outras letras e marcas havia (2003, p. 131).
Assim, é possível dizer que orientar propiciou que as crianças não só desenvolvessem a escrita; como no trecho mencionado, autorizaram o texto da própria vida.