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Falar sobre a prática docente, sobre as especificidades dessa prática tornou- se cada vez mais freqüente entre as professoras participantes. No início as falas estavam mais restritas às dificuldades encontradas no cotidiano da sala de aula como a falta de atenção, defasagem de idade e aprendizagem, problemas externos, principalmente relativos às famílias dos alunos, interferindo no desempenho destes. No decorrer do processo, porém, as falas se modificaram passando a destacar os resultados advindos da nova postura, que envolvia o aproveitamento didático do ensino musical. Os alunos valorizando a música,

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participando das atividades musicais, solicitando-as cada vez; as professoras mais desinibidas, mais unidas, também valorizando de maneira especial a música em sala de aula. O ensino musical – anteriormente visto como uma área muito específica da qual nunca teriam domínio –, diante das experiências vividas na oficina e nas salas de aulas, deixou de ser amedrontador e encorajou as professoras. Exemplos disso foram os alunos criando novas melodias e letras, cantando e se movimentando, as professoras adequando as atividades vivenciadas, propondo novos procedimentos, dando retorno positivo das aplicações realizadas em sala de aula. Refletir sobre a prática, reflexão essa pautada na própria prática pedagógica, mas também em leituras e trocas de experiências, mostrou ser um importante passo para o redirecionamento dessa prática pedagógica. Como afirma Pérez-Gómez (1992), quando o professor reflete na e sobre a ação converte-se num investigador na sala de aula:

“O pensamento prático do professor é de importância vital para compreender os processo de ensino-aprendizagem, para desencadear uma mudança radical dos programas de formação de professores e para promover a qualidade do ensino na escola numa perspectiva inovadora” (Pérez-Gómez,1992:106).

Também Candau(1992) afirma que os saberes da experiência fundamentam- se no trabalho cotidiano. Afirma ainda que a formação continuada não pode ser concebida como um processo de acumulação de cursos, palestras, de conhecimentos ou técnicas, mas como um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal e profissional, em interação mútua (Candau,1992:146/147).

A reflexão, de acordo com Mizukami et al. (2002), é uma espécie de fio condutor que vai produzindo os sentidos e explicitando os significados ao longo de toda a vida do professor, garantindo, ao mesmo tempo, uma espécie de conexão entre a formação inicial, a continuada e as experiências vividas. No entanto, a autora alerta que, o fato de o professor empregar o conceito de reflexão em sua atuação docente não significa que ele estará refletindo sobre tudo ininterruptamente, pois sempre haverá uma grande dose de rotina em sua atividade:

“Ele (o professor) deve buscar o equilíbrio entre a reflexão e a rotina, entre o ato e o pensamento, não se entregando a modismos, mas decidindo conscientemente o caminho a seguir como professor que constrói a própria prática de forma reflexiva” (Mizukami et al., 2002:18).

Durante o processo de intervenção, tivemos como objetivo aprofundar o contato das professoras com a linguagem musical, permitir que em nossas vivências tivéssemos espaço para refletir sobre o tipo de formação à qual as crianças têm tido acesso não apenas na escola, mas também fora dela, bem como sobre a formação a que as mestras, enquanto tais, tiveram acesso e o quanto essa formação influenciava suas posturas nas salas de aula.

À medida em que essa capacidade de reflexão foi se desenvolvendo, foi possível observar também um desenvolvimento das professoras quanto à capacidade de expressar opiniões, emoções, sensações, ansiedades presentes no cotidiano escolar. A atitude de refletir sobre o cotidiano escolar, em suas várias faces, foi se construindo de tal forma que a expressão dessas reflexões tornou-se mais clara e houve um aumento de interação entre o grupo, passando esse grupo a trocar experiências continuamente.

Márcia – ....eu já percebi...algumas crianças que liam baixinho , nem elas escutavam o que elas estavam falando, já estão lendo mais alto...então ela está aprendendo...

(...)

Elsa – Uma coisa que eu achei interessante, não sei se a Inês percebeu isso...eu não tinha muita paciência com música e estou adorando...estou adorando...eu acho que a partir do momento que eu comecei ver que com ela eu consigo ....

Inês – É, mas eu já trabalhava um pouco...

Elsa – Sim, mas não do jeito que eu estou fazendo agora, vou falar a verdade para você...tinha mas não era... mais do cotidiano talvez...

(...)

Cristiane – Eu tenho um menino de três anos e quando, à s vezes, eu altero a voz com ele, várias vezes ele olhou para mim e “mãe, não precisa gritar”...aquilo dá uma sensação, é horrível! Então às vezes a gente está com tanta coisa na cabeça que acaba gritando sem perceber...

No decorrer das reuniões, muitos foram os depoimentos das professoras que nos permitiam verificar desenvolvimento quanto à capacidade de refletir sobre o cotidiano da sala de aula, sobre a prática pedagógica e as novas aprendizagens suas e de seus alunos, porém os depoimentos acima destacados ilustram nossas considerações a respeito da importância do professor enquanto prático reflexivo. Ao refletir sobre a prática, as professoras pareciam perceber-se melhor como professoras, identificar melhor as potencialidades de seus alunos para desenvolvê-las melhor. Márcia observou mudanças em seus alunos quanto à leitura e expressão oral: alunos que liam com volume de voz muito baixo tiveram mudanças nítidas, passando a se expressar melhor e aprender melhor. Elsa refletiu sobre sua própria postura diante da música e do seu papel em sala de aula,

confessando mudança em suas próprias atitudes a partir de um distanciamento da sua atuação em sala de aula. Cristiane pareceu compreender, ao refletir sobre suas experiências pessoais, que suas atitudes refletem sobre as das demais pessoas com que estabelece contato. Assim, se o filho observou sua alteração de voz, também em sala de aula era possível que seus alunos a considerassem como uma pessoa que “grita”, mesmo que ela não percebesse.

Notamos que o professor, ao refletir na ação e sobre suas ações, aumenta, de fato, as possibilidades de um redirecionamento em sua atuação, transformando não só o espaço de sua sala de aula, como também a escola como um todo. Ao que parece, a oficina de música permitiu o desenvolvimento dos professores quanto à capacidade de reflexão. Paulo Freire (2000), nesse sentido, ao abordar sobre a importância da formação continuada, afirma que não se pode pensar em mudar a “cara”da escola, não se pode pensar em ajudar a escola a ir ficando séria, rigorosa, competente e alegre sem pensar na formação permanente do educador, a qual se fará, preponderantemente, através da reflexão sobre a prática:

“....estou convencido de que uma das mais importantes tarefas que a formação permanente dos educadores deveria centrar seria convidá- los a pensar criticamente sobre o que fazem” (Paulo Freire, 2000:123).

Como encerramento desse capítulo, cabe retomar a questão levantada no início dessa parte de nossas considerações: as expectativas e as impressões em torno da oficina de música. As expectativas foram abordadas por ocasião do questionário, aplicado no início da segunda parte da oficina, e as impressões foram sendo construídas no decorrer do processo (Quadro 4.23).

É possível observar que, de maneira geral, as professoras tinham uma expectativa positiva em relação à inserção e integração da música ao cotidiano da sala de aula: a música auxiliando na alfabetização, no desenvolvimento da leitura e escrita, no desenvolvimento das capacidades de concentração, atenção, memorização e organização dos alunos, na ampliação do repertório musical de professoras e alunos, na autonomia para torná-la mais presente no cotidiano escolar.

Professoras que responderam à questão Expectativas em relação à oficina de música

Elsa – 1a série Expectativa de que as atividades aplicadas fossem um instrumento de auxílio na alfabetização.

Inês – 2a série Expectativa de que as atividades com música ajudassem as crianças nas aulas no processo de aprendizagem da leitura e escrita.

Márcia – 2a série Expectativa de melhora nas capacidades de concentração, aprendizagem, criação, memorização e organização dos alunos.

Cristiane – 3a série Expectativa de aprender novas canções e de como inseri-las no cotidiano da sala de aula.

Luciana – 4a série Expectativa de obter mais autonomia para trabalhar com a música em sala de aula e torná-la mais presente na escola.

Quadro 4.23 – Expectativas das professoras em relação à oficina de música

Relacionando as informações do Quadro 4.23 com as observações e declarações das professoras no decorrer das reuniões, é possível verificar uma certa correspondência entre as expectativas iniciais e as impressões finais.

Elsa – Muito difícil, eu acho, a atenção...segurar a atenção....eu achei que segurou ...Sabe o que eu notei, Keila? Depois que eu comecei com a música eu notei que eles já estão lendo e já estão escrevendo sozinhos! Notei! Verdade! ...E agora, daqui para frente, eu só vou trabalhar com música na 1a série! (...)

Keila – Inês, você sentiu diferença, nos alunos, na questão de concentração, atenção, ou não? Inês – Olha, hoje ... gente eu fiquei de boca aberta vendo eles trabalhar....

(...)

Márcia – Essa semana foi dez! Hoje ... Nossa...eles estavam mansinhos, eu estou com a garganta lisa hoje... Eu acho que eles criaram um senso de responsabilidade...então eles já sabem que quando tem música tem que prestar atenção... Hoje a inspetora veio falar para mim que eles melhoraram bastante do dia que eu peguei a classe até hoje, eles melhoraram bastante...elas vieram falar!

(...)

Cristiane - ... eu achei que eles mudaram totalmente... nem eu acreditei...então eu percebi que a letra melhorou, o capricho do caderno, até aqueles que na hora de virar a folha formam aquelas orelhas... E eles leram o texto depois de uma forma diferente, sabe Keila ? Relaxados, quase não gaguejaram...até eu fui embora super tranqüila...

(...)

Luciana – .... eu acho que deu para eles perceberem que eu me preocupo com eles enquanto pessoas...isso melhorou o meu relacionamento com eles...a confiança que eles tinham em mim mudou... a segurança, sabe?

Como podemos observar, as professoras tiveram, de certa forma, suas expectativas correspondidas. As dificuldades mencionadas no início – falta de atenção, de concentração, de organização, interação no grupo, dificuldades de leitura e escrita, insegurança dos alunos, baixa auto-estima – aos poucos foram sendo minimizadas. As impressões finais das professoras de fato confirmam isso.

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AVALIANDO APRENDIZAGENS E DISCUTINDO