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1. INTRODUCTION

1.1 B ACKGROUND

O Guia do Visitante (GV) foi publicado em 1955, sem autoria (Anexo C, figura 17). Porém, é geralmente atribuído a Gustavo Barroso, então diretor do Museu Histórico Nacional. Já em 1924, dois anos após sua inauguração, esse museu havia publicado um catálogo descritivo de sua coleção, com fotografias de algumas salas144. A demanda pela realização de um guia de divulgação para visitantes, expressa nos relatórios administrativos de Gustavo Barroso, foi postergada por falta de verbas e concretizada apenas no final de sua gestão e de sua vida.

Tal como no MP, a Seção de História foi privilegiada na publicação, embora isso não tenha sido explicitado no guia. Porém, o relatório administrativo de 1932 já mencionava o trabalho, definido como “classificação e estudo de cada peça pacientemente organizado, e de relevância, não só para os fins imediatos a que se destina (guia de visitantes), como para o conhecimento da nossa história”145. A diretoria

observava ainda que pretendia, naquele ano, publicar o guia da Seção de História. Mas somente no relatório de 1951, há menção sobre a organização de um Guia da Seção de Numismática para visitantes, encomendado para figurar em um Guia Geral do Brasil, que parece nunca ter sido publicado.

Ao contrário do bem cuidado volume do MP, o do MHN foi produzido um material de baixa qualidade gráfica, mas em formato de fácil manuseio, o que pode apontar tanto para as dificuldades orçamentárias do museu como para a intenção de um uso e divulgação mais alargados. Composto por 35 páginas, sendo dezoito delas ocupadas inteiramente por fotografias em preto e branco, o guia foi patrocinado pelo Ministério da Educação e Cultura. A intenção era “(...) melhor orientar os visitantes, e para efeito de propaganda (...)”146. É importante destacar que, naquele ano, o MHN

havia sido reaberto, após um longo período de obras e, de acordo com Barroso, o funcionamento era precário, por turnos, pela ausência de funcionários147. Assim, a

144 Na pesquisa dos relatórios administrativos, não foi encontrada menção a esse catálogo, muito embora

justamente o relatório de 1924 estivesse incompleto. Não há também menção sobre ele nos demais, o que pode indicar seu uso restrito ou mesmo interno. O catálogo descritivo de 1924 foi fonte importante de pesquisa para as teses de Chagas (2003) e Magalhães (2010).

145 MHN. Relatório administrativo, p. 15. AI/ MHN, 1932. 146 MHN. Relatório administrativo, p. 8. AI/MNH, 1955.

147 De acordo com os relatórios, o Museu Histórico Nacional ficou fechado para o público no período

compreendido entre 1º de junho de 1954 a 9 de março 1955, quando foi reinaugurado com a presença do presidente da República Café Filho e do embaixador de Portugal, que plantaram, na ocasião, duas palmeiras imperiais descendentes de uma espécie supostamente pertencente a D. João VI.

intenção de divulgar o museu se explicava também pelo difícil mas auspicioso momento institucional, em que era preciso reforçar a visitação.

O texto é fortemente descritivo. Observa-se, ainda, que o guia fornece informações sintéticas sobre os objetos e a exposição, limitando-se, em muitos casos, a fornecer apenas o nome das salas. É possível pensar, sob o ângulo proposto por Gustavo Barroso, na proposta de compartilhar informações mínimas para o leitor. Nesse caso, o público projetado passa a ser não somente o “erudito”, como delineado acima, mas também o desinformado que levaria para a casa um conjunto de informações consideradas imprescindíveis para o aprendizado de história em museus. Em todo o caso, os relatórios fragilizam esta hipótese, pois não é relatada nenhuma prática de distribuição e de uso dos guias entre o público, o que indica uma pequena circulação dos mesmos.

Geralmente, só após a apresentação desses dados mais gerais, os guias focalizavam sua exposição. A descrição seguia a ordenação espacial do museu que, em grande parte, orientava-se por uma organização cronológica da narrativa histórica. O MHN, por exemplo, inicia a sua exposição no Pátio de Minerva e na Arcada dos Descobridores, com uma abordagem sobre a colonização do Brasil, e termina seu relato na Sala Getúlio Vargas, que havia se suicidado um ano antes da publicação do guia. Assim, há um sentido cronológico estrutural na organização da exposição, o que não impede a irrupção de outras temporalidades ao longo da narrativa, já que essa forma de organização espaço-temporal não é a única. Ao contrário, percebem-se diferentes modos de expor as relações entre tempo e espaço. Por exemplo, após as salas dedicadas ao período colonial brasileiro, há a Sala da Música Brasileira, dedicada às relíquias de Carlos Gomes (1836-1896) e a dos padres músicos da época colonial, como José Maurício (1767-1830) e Francisco Braga (sem dados). Logo na sequência, há a Sala 24 de agosto, com o mobiliário de Getúlio Vargas, seguida por salas temáticas (leques e imprensa) e pela Sala Anita Garibaldi, também voltada para uma personalidade. Assim, os séculos XVIII, XIX e XX são superpostos não somente por uma abordagem temática - como no caso da Sala de Música -, mas também nas salas relativas a acontecimentos, em que o suicídio de Vargas (1954) é seguido pela Revolução dos Farrapos. A leitura da planta baixa mostra que são pequenas saletas, o que indica esforço em usufruir ao máximo do espaço físico do museu e, talvez por isso, abandone-se uma macro- abordagem cronológica.

O guia do MHN enumera rapidamente suas salas, algumas em poucas linhas, sem preocupação com qualquer questão teórico-metodológica. O foco é descrever a coleção e não a exposição. Diferentemente do MP e do MI, seu status como edificação é lugar de memória frágil, pois decorre de um uso militar colonial. Não foi, portanto, residência de nenhum personagem histórico importante, muito menos palco de um grande evento nacional. Nesse sentido, lidar com o passado bélico do Forte (e ainda com a coabitação com Ministério da Guerra e outras repartições públicas) é uma questão ignorada pelo narrador do guia, que apenas aponta, sucintamente, tais fatos, dada a dificuldade em exaltá-los. Em relação ao uso das fontes, a eleição das peças importantes é despida de preocupações como a explicitação dos critérios de seleção e de uma abordagem da história das mesmas. Elas são importantes por si só e pela distinção promovida pelo guia, que hierarquiza as peças a serem observadas pelos visitantes.

O guia possui uma estratégia discursiva bem simplificada no que se refere à valoração de seus objetos. A mais utilizada, sem dúvida, é a adjetivação pura e simples: “maravilhoso acervo de móveis” (1955: 27), “rica mobília”, “valioso quadro de Delarive” (1955: 31), sem explicar os critérios de tais avaliações. A comparação é o recurso para distinguir o museu, como, por exemplo, o fato de possuir “uma das maiores coleções sacras da América do Sul” (1955: 27).

O pertencimento é igualmente importante, o que, nesse caso, é ainda mais notável pela necessidade de prestigiar os doadores, fontes principais para a construção do acervo do MHN. Assim, ele teria “relíquias do grande militar” General Osório (1955: 27) e os objetos que pertenceram ao Duque de Caxias (1955: 29). O valor evocativo dos objetos também aparece atrelado às ações militares, como “as bandeiras que tremularam em muitas batalhas” (1955: 29). Essa ênfase notável nos objetos militares pode ser compreendida pelo fato do núcleo original do acervo ter sido recolhido nos museus militares então existentes, mas igualmente por uma interpretação da história do Brasil pautada no heroísmo e no protagonismo das forças armadas, compatíveis com um pensador autoritário, como Gustavo Barroso.

O valor histórico, no guia do MHN, decorre praticamente do critério de pertencimento, a exemplo da caneta de ouro, brilhantes e esmeraldas oferecida à Princesa Isabel para a assinatura da Lei Áurea (1955: 27). Embora o valor material do objeto possa ser mensurado por sua descrição, reforça-se, no texto, o valor histórico/simbólico e a evocatividade da caneta, que remetia ao fim da escravidão. O

guia apresenta uma descrição muito breve dos objetos, muitos sem sua procedência identificada. Há pouca ou nenhuma informação sobre datas, inclusive a das telas. Os objetos são utilizados, de forma geral, para ilustrar a história do Brasil, a ser lida com o coração, como defendia Barroso e não, como no MP, para comprovar um argumento que quer ser “racional”, para além de emocional, e é central na exposição ou projeto do museu.

No Guia do Visitante, à exceção dos personagens relacionados à história desse museu, predomina a listagem de nomes sem a explicação de sua função ou importância, o que parece pressupor o conhecimento do leitor. Ao contrário do GMP, que procura detalhar o papel atribuído a cada personagem, aqui predomina uma escrita pormenorizada da história do Brasil, com nomes advindos principalmente da nobreza portuguesa e brasileira, além dos militares. Esse guia dirige-se, assim, a um visitante capaz de relacionar o nome de suas salas com a interpretação proposta pelo museu e com a sequência temporal construída pela exposição.

Em poucas páginas, são arrolados cerca de cinquenta nomes, sendo que poucos são apresentados ao leitor. Entre eles, estão o Conde de Bobadela, governador que criou o Arsenal de Guerra; Mestre Valentim, fabricante do primeiro bronze no Brasil; Conde de Linhares, que inaugurou a Real Academia Militar; Marechal Hermes da Fonseca, ministro de Guerra de Afonso Pena (não há menção à presidência); o rei D. Manuel, “o Venturoso” e o General Osório, “grande militar que comandou o Exército Imperial na guerra do Paraguai” (1955: 22). Os destaques, no entanto, são para Epitácio Pessoa, presidente da República que criou o museu e foi responsável por sua inauguração e para Gustavo Barroso, “primeiro e atual diretor” (1955: 7). No mais, inúmeros titulares do Império nomeiam as salas, sem menção às suas ações ou doações. Aliás, apenas três doadores são explicitamente citados: Barão de Cotegipe (1955: 21), Miguel Calmon (1955: 25) e ninguém menos que Getúlio Vargas (1955: 35).

O guia do MHN, até por seu caráter descritivo, restringe-se a apontar os feitos heróicos de uma pequena elite. A exposição parece não ter abordado quaisquer objetos e/ou imagens relativas aos indígenas e aos negros, o que pode indicar uma interpretação de que não seriam dignos de figurar em um museu histórico, até porque Gustavo Barroso defendia a criação de um museu ergológico destinado às “culturas populares”. Como exposto anteriormente, houve uma separação teórica e expositiva do acervo e, na Casa do Brasil, apenas uma elite tinha espaço garantido.