4. Complejos anión-π. Compuestos aromáticos de momento cuadrupolar positivo
4.1. Estudios preliminares
4.1.2. Búsqueda de evidencias experimentales
A partir do estudo da cerâmica coletada nos sítios que prospectou no final da década de 1970, Dias (2006a) relacionou os recintos geométricos aos produtores de cerâmica da Tradição Quinari, localizada na bacia do Purus. A Tradição Quinari englobaria cinco fases cerâmicas: Quinari, Iquiri, Iaco, Xapuri e Jacuru. Dias salienta que apenas a fase Jacuru, situada a oeste, não estava relacionada aos construtores dos recintos geométricos, indicando, portanto, uma variabilidade cultural associada às obras de terra. Os materiais coletados naquelas pesquisas foram enviados para o Instituto de Arqueologia Brasileira – IAB, no Rio de Janeiro, e algumas peças inteiras foram destinadas ao Museu da Borracha, em Rio Branco (Figura 6).
Figura 6 - Vasos da Tradição Quinari coletados na década de 1970. Acervo: Museu da Borracha. Foto: Rui Coelho
Dias (2006a) ensina que a principal semelhança entre as fases Quinari, Iquiri e Iaco, associadas aos recintos geométricos, é o uso predominante do caraipé6 como tempero da pasta cerâmica. Cita como característica desta tradição vasos altos, com formato geral cilíndrico, mas abaolados no centro, onde se encontram feições humanas (Figura 6). Estas formas ficaram conhecidas como “vasos-caretas” (Dias 2006a). Os instrumentos líticos encontrados nestes sítios aparecem em quantidades bem menores; seriam geralmente “machados de diabásio”, que foram consecutivamente retocados e aproveitados até o talão (Dias 2006a).
Fragmentos cerâmicos coletados nas escavações de 1994, no sítio Los Angeles, e em sete novos sítios prospectados Dias (2006a), são utilizados por Rose Latini, doutoranda do Curso de Geoquímica da Universidade Federal Fluminense, com o fim de "contribuir para um melhor entendimento das culturas pré-históricas na Bacia Amazônica" (Latini et al. 2001). Latini utilizou o método de Análise por Ativação Neutrônica (AAN) para analisar 162 fragmentos cerâmicos que haviam sido pré-classificados por Dias em várias fases da Tradição Quinari, sendo 12% dos fragmentos da fase Quinari, 11% dos fragmentos da fase Iquiri, 14% dos fragmentos da fase Iaco, 7% dos fragmentos da fase Jacuru, 10% dos fragmentos da fase Xapuri e 46% dos fragmentos do sítio Los Angeles (sem fase identificada) (Latini et al. 2001:725).
Com base na análise e comparação com a classificação de Dias, Latini concluiu que houve uma concordância de 70% entre a “composição química e a pré-classificação arqueológica”, sendo “as fases arqueológicas Xapuri, Iquiri e Quinari as que
6 Cinzas moídas da casca de uma árvore do gênero Licania. Sobre a nomenclatura "caraipé", ver Carneiro
apresentaram maior concordância, e as fases Iaco e Jacuru as que menos se definiram como um grupo homogêneo” (Latini et al. 2001: 728). Assim, os grupos que menos se definiram como grupo homogêneo deveriam ser reclassificados. Sobre as análises dos fragmentos do sítio Los Angeles, que não haviam sido submetidos à classificação arqueológica, concluiu-se que apenas 54% dos fragmentos “são integrantes de um mesmo grupo”; as demais amostras foram divididas em seis grupos independentes, sendo que três destes grupos independentes eram formados por “amostras da fase Iaco e Jacuru, além de algumas poucas amostras das fases Xapuri e Quinari” (Latini 2001 et al.:728). Dias (2006a) interpreta essas diferenças como ocupações distintas, concêntricas e separadas por momentos de abandono. Uma interpretação alternativa seria a de que o sítio Los Angeles fosse utilizado por diversos grupos de ceramistas, de forma conjunta ou concomitante, o que seria compatível com um uso esporádico e cerimonial, como vem sendo proposto (Saunaluoma e Schaan 2012). De qualquer maneira, a comparação realizada por Latini mostra a fragilidade da classificação em fases e tradições, atualmente abandonada no estado.
Apesar da construção engenhosa destes sítios levarem à conclusão de que foram necessárias muitas pessoas e tempo para erigi-los, as pesquisas posteriores, realizadas pelos arqueólogos brasileiros e finlandeses não lograram encontrar muitos artefatos arqueológicos em superfície ou em escavações. Saunaluoma e Schaan (2012), em um estudo comparativo dos artefatos cerâmicos encontrados em nove sítios (JK, Fazenda Colorada, Jacó Sá, Severino Calazans, Fazenda Atlântica, Balneário Quinauá, Ramal do Capatará, Prohevea e Fazenda São Paulo), do estado Acre, relatam sobre o número pequeno de artefatos encontrados nas escavações e indicam o péssimo estado de conservação dos artefatos (fragmentados, friáveis e erodidos, na maioria dos casos) (Saunaluoma e Schaan 2012:09)7. Schaan e colegas relatam que “nos últimos anos, prospecções terrestres através de caminhamentos e uso de tradagens, assim como a realização de escavações em nove sítios têm revelado a intrigante baixa frequência de artefatos e feições culturais em superfície e subsolo” (Schaan et al. 2012).
7 Traduzido do original: “Moreover, the material culture record indicates hardly any signs of social
A baixa frequência de artefatos pode ser observada na Tabela 1. Comparando-se os 13 sítios escavados8, percebe-se que não há relação entre área do recinto e a densidade de material cultural. Se considerarmos, o tamanho da área escavada em relação a área do total do recinto, notamos que o sítio Tequinho foi o mais escavado e com uma quantidade maior de fragmentos cerâmicos, o que não se traduz, contudo em maior densidade.
Tabela 1 - Densidade de fragmentos coletados em 13 sítios do tipo recinto geométrico
Sítio Área total dos
recintos Quant. m3 escavados N° Frag. coletados Densidade (N° Frag./m³)
Fazenda São Paulo 3,60 ha 2,40 1.398 582,50
Fazenda Atlântica 7,48 ha 8,30 2.807 338,19 Tequinho 2,14 ha 89,41 28.168 315,04 JK 3,61 ha 12,32 2.540 206,16 Prohevea 0,79 ha 5,80 1.093 188,44 Pastor Sapucaia 1,19 ha 35,63 5.191 145,69 Balneário Quinauá 1,05 ha 17,60 1.813 103,01 Fazenda Colorada 7,64 ha 16,20 908 056,04 Jacó Sá 4,52 ha 12,60 579 045,95 Severino Calazans 5,30 ha 16,00 482 030,12 Ramal do Capatará 4,05 ha 59,67 1.133 018,98 Campo Esperança 7,85 ha 10,00 152 015,20 Bujari 6,25 ha 8,64 2 000,23
Figura 7 - Fragmentos cerâmicos escavados no sítio Tequinho em junho/julho de 2013. Fotos: Martti Pärssinen
Durante as escavações foram encontrados diversos materiais culturais (Figuras 7 e 8) como cerâmica, argila queimada, lítico, semente carbonizada, microfragmentos de ossos, entre outros.
Figura 8 - Distribuição quantitativa do material cultural encontrado nos recintos geométricos
Pode-se observar que a quantidade de material cerâmico encontrado nos sítios é bem maior (Figura 8). O material cerâmico, em geral, possui acabamento rústico e friável. Alguns fragmentos apresentam incisões, em linhas retas ou curvas, vestígios de pintura e engobo vermelho. Quantidades maiores de fragmentos pintados e cerâmica melhor acabada foram encontradas no sítio Tequinho (Figura 7), mas este material ainda não foi estudado. Um tipo típico de vasilha pequena, de borda dobrada, corpo carenado e desenhos incisos distribuídos na borda e sobre uma banda ao redor do corpo superior ocorre em alguns sítios, como Tequinho e Fazenda Atlântica. Saunaluoma e Schaan (2012) compararam esta vasilha com estilos do Formativo do alto Amazonas.
Sobre o material lítico (Figura 9), este tem sido encontrado em pouquíssima quantidade. Trata-se de lâminas de machado, batedores e percutores de diabásio, granito e basalto, em geral pequenas e frequentemente fragmentadas, cuja origem provavelmente deverá ser buscada na bacia do rio Madeira, já que não existem afloramentos dessas rochas na região. O material lítico local é formado por arenitos com alta concentração de ferro, que ocorrem frequentemente na forma de placas, nas quais se encontram marcas de uso. Na falta de outros tipos de matérias-primas, estas placas foram utilizadas para polir e servir de suporte para maceramento de sementes, ou mesmo para extrair pigmentos para serem usados na pintura da cerâmica.
Figura 9 - Líticos encontrados no sítio JK. Foto: Denise Schaan
Bolas de argila queimada geralmente são encontradas em todos os sítios escavados, com cor avermelhada e laranjada, sem nenhum tratamento, dura e de diversos tamanhos. Na maioria dos sítios não é encontrado material cultural em superfície, e nas escavações a maior quantidade de material é encontrado em subsolo dentro das valetas. No interior dos recintos, além da baixa quantidade de material coletado nas escavações, o estrato arqueologicamente fértil não ultrapassa os 100 cm de profundidade.
Segundo Schaan (2010) a baixa quantidade de artefatos é um indicativo de que os povos construtores dos recintos geométricos não usavam estes locais para habitação. Os pesquisadores acreditam na multifuncionalidade dos sítios, que serviriam para moradia, encontros, rituais, festas (Schaan et al. 2010). Ou seja, o baixo índice de material cerâmico encontrado nos sítios e uma cerâmica bem diferente de um sítio para outro (em tempero, forma, espessura, decoração), nos leva a acreditar que ainda estamos por descobrir outros locais nos quais estes povos moravam e produziam suas cerâmicas.