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Em consonância com os objetivos desta tese, o foco destinado para a notícia da Folha de S. Paulo estará na segunda parte de sua bifurcação: a ‘notícia 2’, que se relaciona a brasileiros/as em situação de rua. A abordagem intertextual da análise desta seção privilegia também as ‘vozes’ relacionadas ao texto.

Para tratar brevemente da ‘notícia 1’, título e lides, chamo a atenção para os relatos de vozes. No título ‘Lula critica delegado da PF e defende Mercadante’, dois processos verbais (criticar e defender) centralizam um ‘relato narrativo’ sem relatar o seu conteúdo (Fairclough, 2003, p. 49). No corpo do texto, os relatos narrativos reaparecem, porém, um de cada vez e seguido respectivamente por um relato direto que apresenta o conteúdo da fala. O título, de forma sintética, apresenta parte da ‘notícia 1’ (a qual provavelmente tem maior ‘valor de notícia’ – o que também merece reflexão), remetendo o/a leitor/a para o que o/a espera na sequência textual. Como é possível perceber no texto, a opção de responsáveis pela notícia em utilizar os processos verbais ‘criticar’ e ‘defender’ tem relação semântica com as falas do presidente, contudo, é preciso destacar essa posição. Os relatos diretos, indiretos e narrativos de ato de fala poderiam estar presentes de maneira menos avaliativa, ao utilizar o processo verbal ‘dizer’, por exemplo. Observe o primeiro lide:

Presidente diz que senador é inocente e que não entende por que ele foi indiciado

Por meio do relato indireto, o lide conjuga duas falas do presidente relatadas de maneira direta (com aspas) no corpo do texto e apresentadas a quem ler por meio de ‘dizer’.

Dentre tantas formas de representar o que foi dito por Lula, a notícia (tanto no título quanto no corpo do texto) o compromete com ‘crítica’ e ‘defesa’ – percebe-se que o primeiro lide, menos marcado em termos de avaliação221, colabora com a interpretação presente no título. Acrescente-se também o processo verbal ‘esquivar(-se)’, que é utilizado para introduzir o último pronunciamento que relata de maneira direta o que o presidente ‘disse’. Questão linguística importante a notar é que a suposta neutralidade do que é conhecido como ‘discurso direto’ recebe uma grande subjetivação por meio do processo verbal que o ‘comenta’. Tem-se, nessa ‘primeira parte’ do texto, a ‘voz’ do presidente da República e a ‘voz’ do veículo de comunicação.

Algumas outras marcas intertextuais da ‘notícia 1’ são: o indiciamento policial, a entrevista, o relatório. Na ‘notícia 2’, registra-se a renovação de uma Medida Provisória que beneficia pessoas em situação de rua. Além disso, os espaços destinados a ‘voz’ são demarcadamente de Lula e de pessoas presentes no encontro (que reunia profissionais de reciclagem, cidadãos/cidadãs que estavam habitando nas ruas e seus respectivos representantes). Os registros orais presentes na ‘notícia 2’ aparecem apenas em dois momentos: quando o presidente tem sua fala relatada de maneira indireta e apresentada como uma promessa:

Lula prometeu, em discursar, "conversar" sobre o assunto com o prefeito Gilberto Kassab (PFL) e o governador eleito, José Serra (PSDB).

e quando dá voz a pessoas presentes no encontro, destacando os aplausos ao presidente e também os ‘gritos’222:

Foi recebido com aplausos e gritos de "muito obrigado".

A intertextualidade com documentos escritos, provenientes de representação de movimentos sociais223 é mais intensa. Segundo o jornal, relatando de forma direta, o MNCMR (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis):

diz que "não houve grandes avanços no ano de 2006 com relação ao crédito de moradia para os catadores e a população em situação de rua".

denuncia "o processo de trabalho escravo que vem sendo praticado no Brasil por intermediários e atravessadores de material reciclável, inclusive com diversos casos de assassinatos de catadores".

221

É válido lembrar que o que foi extraído para ser publicado da entrevista de Lula para os jornalistas e a forma de apresentação e ordenamento dos relatos também passam por processos decisórios e que não há neutralidade nisso – o ‘simplesmente noticiar’.

222

Poderia ser registrado que eles e elas disseram obrigado em voz alta. Preferiu-se representar a fala daquelas pessoas e sua manifestação como ‘gritos’.

223

pediu a "garantia de que o catador tenha direito à cidade, isto é, circular pelas cidades, que as suas carroças não sejam apreendidas nem haja violência dos guardas civis metropolitanos para retirar o catador de seu trabalho enquanto trafega pelas ruas".

Com relato indireto de documento, a ‘notícia 2’ registra que o Movimento Nacional de Luta e de Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua:

cobrou de Lula melhorias na saúde, no trabalho (sugeriu que empresas ganhadoras de licitações públicas se comprometam a contratar moradores de rua), habitação (que prédios abandonados pela União possam ser usados para população de baixa renda e sem renda) e justiça, além do início das atividades de um recém-criado comitê interministerial de inclusão social da população em situação de rua.

Os processos verbais que precedem o ‘dito’ são de diferentes níveis de envolvimento (não neutralidade): ‘dizer’, ‘denunciar’, ‘pedir’224 e ‘cobrar’. No último excerto, ainda há a inclusão interna de ‘sugerir’. Algo que merece observação nessa segunda parte da notícia é que pessoas minorizadas tiveram espaço, tiveram voz. É verdade que receberam o segundo plano na ordem de importância daquilo que é dito (a denúncia policial / eleitoral foi considerada mais relevante), bem como praticamente não são ouvidos por jornalistas. É preciso perceber, então, dois elementos (sociais e linguísticos) que promoveram essas cidadãs e esses cidadãos para que pudessem ‘falar’: o agrupamento, o fortalecimento – os movimentos sociais dos quais fazem parte; e a linguagem formal escrita – o documento que entregaram ao presidente da República (um gênero relevante nas relações de poder).

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