O clima bélico suscitado pela “guerra paradigmática” tolhe a criatividade e oblitera o diálogo.
Ana Paula Paes de Paula
Entende-se esta seção como fundamental para a construção da pesquisa. Desde o momento em que se adentra ao curso de mestrado, fazendo aqui um relato específico, exige-se, de diferentes formas, um “posicionamento” quanto à abordagem adotada nas pesquisas e as perspectivas que dão base a uma argumentação. Além de parecer uma cobrança precoce ao jovem ingressante, a decisão fica ainda mais difícil quando a escolha está amparada em apenas quatro possibilidades, como descrito por Burrell e Morgan (1979). No entanto, durante as inúmeras leituras para a construção desta dissertação, encontrou-se uma nova possibilidade em Paes de Paula (2015), sendo que esta leitura permitiu a flexibilidade, a confiança e a coerência tão requeridas. Portanto, a apresentação do posicionamento epistemológico adotado nesta pesquisa ocorrerá da seguinte forma: primeiro, expõe-se uma breve discussão sobre o texto que foi abandonado, e em seguida, adentra-se ao debate que possibilitou o posicionamento, sereno e coerente, e a escrita deste trabalho.
Devido à tese da incomensurabilidade dos paradigmas, Burrel e Morgan (1979) criaram um modelo com quatro possibilidades de posicionamentos epistemológicos totalmente excludentes: o funcionalismo, interpretativismo, estruturalismo radical e o humanismo radical23. A tese em questão, segundo Paes de Paula (2015), foi tomada por empréstimos do livro de Thomas Kuhn, “A estrutura das revoluções científicas”(1962). As constatações feitas neste livro se dirigiam ao âmbito das Ciências Naturais, e não poderiam ter sido tomadas para o campo das Ciências Sociais. Criou-se então um cenário preocupante, uma vez que “a “ciência normal” procura enquadrar os fenômenos nos limites preestabelecidos e relativamente inflexíveis de um paradigma, modelando soluções de acordo com “problemas exemplares”. Tal ciência é conservadora e até mesmo dogmática”, mas assumida por Thomas Kuhn como vital para um dito “progresso científico” (PAES DE PAULA, 2015, p. 49-50).
23 Funcionalismo: muito ligado à Sociologia da regulação, enfatizando a objetividade.Interpretativismo:
enraizado na sociologia da regulação, porém sob a perspectiva subjetiva.Estruturalismo radical: vinculado à Sociologia da mudança radical e a dimensão objetivista.Humanismo radical: fundamentado no ponto de vista subjetivo e na Sociologia da mudança radical (BURRELL; MORGAN, 1979).
Burrel e Morgan (1979), em “Sociological paradigms and organisational analysis”, criaram o diagrama a partir de quatro pressupostos: o debate ontológico (realismo x nominalismo); o debate epistemológico (positivismo x antipositivismo); o debate da natureza humana (determinismo x voluntarismo); e o debate metodológico (teoria nomotética x ideográfica). Dos quatro itens surgiram as “possibilidades” epistemológicas, ainda muito utilizadas por diversos pesquisadores e não deixam de ter seu valor, pois foram durante muito tempo o grande cerne das discussões. No entanto, a incomensurabilidade exige uma escolha única e isso pode ser um grande problema.
Por mais que alguns indivíduos não tenham ressalvas em “se enquadrar” por completo, essa não é uma decisão fácil para todos. Afinal, percebe-se que o exercício da adoção de um único quadrante, além de gerar uma limitação das discussões, contribui para uma “guerra paradigmática” entre os pesquisadores e que nada auxilia no avanço das pesquisas. “Nas ciências sociais e nos estudos organizacionais o que explica a evolução do conhecimento não é a incomensurabilidade, mas a incompletude cognitiva, porque, para contemplar os interesses técnicos, práticos e emancipatórios, buscamos uma unidade do conhecimento” (PAES DE PAULA, 2015, p. 105).
A autora supracitada, em busca de uma opção ao esquema de Burrell e Morgan (1979), afirma que o primeiro passo é propor uma “alternativa imagética” que termine com o aprisionamento polarizado do quadrante, e permita espaço para o diálogo e um processo dinâmico. Assim, no lugar das noções de paradigmas sociológicos, Paes de Paula (2015) apresenta os sistemas de produção do conhecimento, chamados agora de “abordagens sociológicas”, pois buscam uma identidade epistêmica que congreguem metodologias e teorias. Em busca de tais identidades, as abordagens sociológicas passam a se orientar pelo que a autora denomina de matrizes epistêmicas.
Estas derivam do pressuposto de ciência trabalhados por Jürgen Habermas, fazendo alusão a um marco epistemológico, porém considerando que todas também envolvem aspectos ideológicos e axiológicos, movendo-se, portanto, em um domínio que é político e, ao mesmo tempo, um tipo específico de interesse cognitivo. Ao ler “Conhecimento e interesse”, de Jürgen Habermas, a autora constatou que o conhecimento é desenvolvido mediante aos interesses e que existem três deles: o técnico, o prático (compreensão/comunicação) e o
emancipatório. Assim, Paes de Paula (2015) propõe como alternativa ao esquema de Burrell e Morgan (1979), o círculo das matrizes epistêmicas (Figura 2).
Figura 2 – Círculo das matrizes epistêmicas Fonte: Paes de Paula (2015).
As diferenças começam pela forma do esquema. O quadro do desenho anterior está associado a um pensamento cartesiano, mecanicista e analítico, fazendo menção a uma precisão matemática. Os ângulos sugerem uma descontinuidade no fluxo natural, uma rigidez e uma limitação. O círculo, de antemão, indica um pensamento orgânico, fluido, processual, flexível e livre de interrupções. Mesmo quando Paes de Paula (2015) faz a ressalva que o desenho na verdade deveria ser uma animação, já que é algo dinâmico, nota-se claramente a proposta e as distinções entre esse modelo e o proposto por Gibson Burrell e Gareth Morgan.
O círculo das matrizes epistêmicas é um locus a partir do qual as abordagens sociológicas se orientam e no qual as matrizes epistêmicas representam pontos de referência. Assim, as matrizes apresentadas não devem ser tomadas como instâncias que aprisionam as abordagens sociológicas, mas sim como partes constituintes de um todo integrado da produção de conhecimento: elas são guardadoras de lugar do conhecimento e também mediadoras entre filosofia e ciência (PAES DE PAULA, 2015, p. 132).
A matriz possibilita aos pesquisadores que não conseguiam se fixar a um quadrante transitar, com a devida coerência e ciente das limitações cognitivas, em toda a matriz e fazer uso de diferentes abordagens para encontrar respostas que os velhos pressupostos não possibilitavam alcançar. Cada matriz está inspirada em uma lógica de pensamento e Filosofia: Filosofia hermenêutica e lógica interpretativa (matriz hermenêutica); Filosofia negativa e lógica
Matriz Hermenêutica Matriz Crítica Matriz Empírico- Analítica
dialética (matriz crítica); Filosofia positiva e lógica formal (matriz empírico-analítica24). Para a autora, em oposição ao debate da “tese da incomensurabilidade dos paradigmas, seria mais frutífero deixar de lado a ideia de uma incomunicabilidade entre eles e admitir nossa impossibilidade de ter toda a verdade a partir de um determinado “paradigma/abordagem sociológica”, conscientizando-se de que é “preciso dialogar com outras matrizes, pois elas não são rivais, mas maneiras distintas de captar e explicar a realidade, podendo conjugar interesses cognitivos” (PAES DE PAULA, 2015, p. 134).
Nesses termos, após defender a escolha do círculo das matrizes como ponto de partida epistemológico, assumiu-se inicialmente que a presente pesquisa foi construída perpassando pela matriz hermenêutica e pela matriz crítica. O objetivo inicial era transitar por essas duas matrizes com a devida consciência de suas limitações e possibilidades de diálogo. No entanto, no transcorrer do trabalho e após as considerações recebidas durante a banca de qualificação do ainda projeto de dissertação, foi possível evidenciar que o cerne das discussões que foram estabelecidas estava assentado em uma base dialética. Portanto, o recorte teórico, metodológico e epistemológico indicava que esta dissertação estaria diretamente vinculada à matriz crítica.
É importante ponderar que a matriz hermenêutica25 derivou-se da empírico-analítica, pois é fruto dos questionamentos que surgiram sobre o positivismo26. A lógica da hermenêutica é transposta pela compreensão de sentidos, deixando de lado os antigos olhares para as relações
24Neste trabalho, optou-se por não fazer uso da matriz empírico-analítica, porém, ela não está subjugada às
demais. Paes de Paula (2015, p. 122) cita três elementos que caracterizam a matriz empírico-analítica: filosofia positiva, lógica formal e ênfase ao caráter técnico. Por guardar a abordagem funcionalista, o sentido e as contribuições dessa matriz tendem a ser deturpados. Existem, sim, pontos de discordância sobre a extrema via técnica, porém a autora faz uma ressalva importante que merece ser citada. “É impossível separar o interesse técnico dos outros interesses envolvidos, o que me leva a reconhecer que há um viés conservador no positivismo, mas também a indagar se a defesa do interesse técnico em si é conservadora”, discussão essa que ainda parece insolúvel.
25A matriz hermenêutica, como já dito, está alinhada à Filosofia hermenêutica e à lógica interpretativa. Além
disso, tem-se uma preferência pelo interesse prático, pois conforme Habermas, não está separado da práxis. Paes de Paula (2015) cita o texto “Hermenêutica contemporânea”, de Josef Bleicher, para fortalecer a discussão. Segunda ela, o autor assegura que a “filosofia hermenêutica” está baseada na investigação de fato humano ou um ato, devidamente contextualizado histórica e temporalmente. Ao passo que a ciência hermenêutica recorre a um prisma metodológico para realizar tal investigação, que, de antemão, rejeita a perspectiva objetiva, já que posiciona a compreensão em uma dinâmica intersubjetiva. Logo, a lógica interpretativa compreende que as expressões humanas são entendidas por meio de “sistemas de valores e significados” mediados pela dimensão subjetiva, tendo a ciência de que os alvos de análise não são os fatos, mas os símbolos.
26É importante mencionar que “o positivismo que tomou vida nas Ciências Sociais e que até hoje continua
dominando o imaginário das pesquisas científicas nessa área ignorou tudo o que significa produção teórica, ideias modelos e reflexões. Nesse ponto apresentou a recusa de qualquer filosofia, mais do que uma apropriação dela” (GONZÁLEZ REY, 2005, p. 1).
causais e atentando para as simbólicas. Sua atribuição é elucidar a “comunicação perturbada” e tornar possível a compreensão do que soa de modo estranho, bem como as comunicações taxadas como indiretas. Todavia, mesmo considerando a capacidade que essa matriz possui de enfatizar as expressões vivenciais e ações, já que a práxis e a linguagem estão entrelaçadas por completo, seria errôneo classificar este trabalho dentro da hermenêutica, uma vez que há uma relação direta com o estruturalismo e há a presença de uma corrente marxista em todo o referencial teórico.
Nesse sentido, dentre os itens já listados, o trânsito pela matriz crítica se justifica ainda pelos seguintes pontos. Essa matriz pode ser sintetizada em três tópicos principais: o alinhamento aos pressupostos da filosofia negativa, o interesse pela premissa emancipatória e por lançar mão da lógica dialética. A Filosofia negativa possui um grande potencial ao não estar preocupada em atingir um rigor nas proposições a partir de uma lógica formal, afinal, recorrendo à dialética, é possível alcançar o conteúdo das proposições de forma efetiva. Entende-se que “ao invés de se ater o que é dado ao conhecimento e ao certo, a filosofia negativa se interessa pelo que não está evidente e insere a dúvida: o que é positivo para os positivistas é justamente aquilo que deve ser criticado na visão dos dialéticos” (PAES DE PAULA, 2015, p. 127). Portanto, já que não há como pensar a perspectiva crítica deslocada do ideal emancipatório, é basilar enxergar esses debates para além de sua “face utópica”, superando perspectivas teóricas e revigorando o campo. A escolha pela matriz crítica não joga por terra as considerações que foram feitas sobre o anseio por novos diálogos, mas entende-se que devido ao recorte que foi dado ao trabalho, a escolha por tal matriz representa a coerência demandada de um trabalho acadêmico.