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O bairro de Alvalade representa o momento da aplicação dos princípios da Carta de Atenas e é, sintomaticamente, uma versão urbana do modelo Radburn projectada por Faria da Costa. «O
bairro foi um estaleiro de inovações técnicas como um exemplo de “mix” social e de actividades e espaços livres generosos, na sua maioria privados, sem procurar a ruptura com os conceitos
de avenida, rua e edificação contínua, de média altura».72 A tentativa de ruptura de sentido
corbusiano virá com os projectos dos discípulos, nos quais a linguagem do estilo internacional se
afirma com a altura dos imóveis, já perpendiculares às principais vias, com o recurso a habitação duplex servidas por galerias e sem privatização do espaço livre entre blocos – por exemplo no
71 António Fonseca Ferreira, A Política de Habitação em Portugal. Porto: Afrontamento, 1975.
projecto de Sebastião Formosinho Sanchez e Ruy d`Athouguia (Ficha 50.50.00), dito das
Estacas, aludindo ao uso dos pilotis, ou estacas.
Os edifícios organizados em bloco são desenvolvidos segundo os cinco pontos para uma nova arquitectura, com a cobertura em laje coberta por chapa ondulada permitindo o desenho puro dos volumes, com grandes vãos em comprimento e varandas corridas moduladamente interrompidas com grelhas de betão protectoras das zonas de serviço, com quebra-luzes verticais colocadas na fachada poente de modo a controlar a incidência solar.
Sebastião Formosinho Sanchez, Blocos de Habitação na célula 8 do Bairro de Alvalade73
Reivindicava-se os valores da topografia, da insolação, do programa, das zonas verdes úteis, da racionalidade e do funcionalismo como novos dados programáticos.
Na década de cinquenta, consolidada a modernidade, os edifícios de habitação colectiva tendem a actualizar-se para atender às transformações do quotidiano da família citadina. Em antítese aos espaços de áreas amplas, como era habitual projectar-se na década de quarenta, os novos espaços de morar passaram a ser condensados e reduzidos.
A cidade crescia ainda no interior do seu concelho, mais afirmativamente ao longo do eixo viário da avenida dos Estados Unidos da América, de vários autores, com evidência para Vasco Croft, João Vasconcelos Esteves e Pedro Cid (Ficha 50.55.00); ou, a seguir, no conjunto da avenida do Brasil, de Jorge Segurado (Ficha 50.58.00).
De facto «os bairros dos últimos anos do Estado Novo (…)», não eram os das excepções cultas, mas sim, por omissão do Estado, os «(…) das extensas urbanizações periféricas nascidas na
sua maioria como loteamentos ilegais».74 De facto, estas sub - urbanizações em extensão só
eram possíveis num regime autoritário, porque eram tudo menos clandestinas, mas ofereciam às classes populares da capital ou mesmo às poupanças das camadas médias, a oportunidade de construírem casa própria, de ampliar ou melhorar, ou de instalarem actividades produtivas mais ou menos marginais que a cidade planeada ou regulamentada já não podia integrar. Arquitecturas populares, em parte auto - construídas ou construídas pelos pequenos
73 Sebastião Formosinho Sanchez, Blocos de Habitação na célula 8 do Bairro de Alvalade. Revista Arquitectura, N.º 53, Nov./Dez. 1954.
74 Bairros Construídos ao Abrigo do Decreto-Lei n.º 42454 no Período de 1961 a 1969. Boletim Gabinete Técnico de Habitação, N.º 20, 1971.
construtores para vender e/ou alugar, já que, também eles, tinham perdido o seu papel no centro urbano ao vingarem os blocos em altura e a iniciativa do capital financeiro. E assim, Lisboa, no início da segunda metade do século, é uma cidade metrópole urbanisticamente dualista. Apesar deste défice quantitativo, os últimos bairros das décadas de cinquenta e sessenta, novos em Lisboa – Olivais e Chelas – são concebidos como nova cidade dentro da cidade e construídos entre 1959 e 1970; juntaram mais uma vez os arquitectos portugueses modernos. O resultado mostra a diversidade das atitudes e vicissitudes da polémica cultural, que no exterior levariam à «(…) crítica interna dos Congressos Internacionais da Arquitectura Moderna e logo à sua
dissolvência».75 Na verdade, o plano do bairro dos Olivais partia da organização em células,
corrente nas novas cidades nórdicas, que logo foram interpretadas por equipas de arquitectos, na sua maioria jovens, de acordo com ideias de arquitectura habitacional e urbana já então muito diversificadas, quando não opostas. Foi o segundo laboratório, após o do bairro de Alvalade, esse caracterizado pela coerência entre o traçado urbanístico e a relativa unidade tipológica. Olivais, como Chelas, de forma ainda mais acentuada, «(…) é o primeiro “grand-ensemble”
português de e por arquitectos (…)», reflectindo mais «(…) o experimentalismo das linguagens
particulares»76 do que uma matriz urbana unificadora que num e noutro caso tinham sido
propostas mas não resistiram à pulverização tipológica e compositiva. Em Chelas, tal como se sucedeu nos bairros italianos da primeira geração e à arquitectura standard nórdica, ou mesmo em algumas tentativas de grande escala, como Toulouse-le-Mirail, Sheffield ou Gallaratese, os episódios discordantes sucederam-se ou alternam-se, deixando entre si mais ou menos espaços intersticiais incapazes sequer de articular os pedaços de autor em que se decompunham. 77
Avultam grande variedade de soluções de qualidade de edificação para habitação colectiva nos Olivais e em Chelas; destaque entre os muitos exemplares ao conjunto habitacional dos arquitectos Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo. (Ficha 60.60.00) O projecto expunha o conceito moderno de espaço doméstico flexível, onde as áreas de convívio e quartos de dormir deveriam ser determinadas através de divisórias e armários leves, de acordo com cada grupo de usuários.
75 Eric Mumford, The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960. Cambridge, Mass.: MIT Press, 2000. Nossa tradução do ingles.
76 Hélder Tércio Guimarães e Elias Cachado Rodrigues, Olivais e Chelas, um percurso. Boletim GTH, N.º 50-51, 1986.
77Fernando Gonçalves, A Propósito do Plano de Chelas, Urbanizar e Construir para Quem? Porto: Afrontamento, 1972.
As dificuldades no plano dos Olivais como de Chelas foram decerto a grande dimensão – « (…)
as ambiguidades suscitadas pela vontade de criar espaços mais opostos à cidade tradicional
(…)», e o arrastamento no desenvolvimento do plano e da construção; «(…) criaram espaços
sem relação (…)»78 onde se salientam, apenas pelas qualidades próprias, alguns edifícios e
conjuntos. É o caso do conjunto projectado por José Pacheco e Raul Cerejeiro (Ficha 60.66.00).