Michael Quinn Patton, já citado anteriormente, quando do debate com Carol Weiss, é o autor da teoria da avaliação focada na utilização, cuja primeira edição de sua obra foi em 1978 e, nos dias atuais, encontra-se na sua quarta edição. Ele tem sido uma referência nas
76 pesquisas sobre a utilização, em função da abordagem de sua teoria, que ao longo dos anos foi incorporando novas dimensões de análise, conforme podemos perceber das palavras a seguir, compiladas do prefácio da última edição de seu livro:
O tom e o conteúdo desta nova edição têm sido influenciados pelo fato de que a avaliação focada na utilização tem mais de 30 anos. A primeira edição, publicada em 1978 e baseada na pesquisa iniciada em 1975, tinha o tom de um bebê chorão, porque ninguém parecia estar prestando atenção. A segunda edição, publicada em 1986, estabeleceu intenções de uso para os interessados no uso como regra central da avaliação focada na utilização e adicionou exemplos para esclarecer pontos de incerteza e contenção. A partir da terceira edição, a premissa básica da avaliação focada na utilização passou a ser amplamente aceita pelos avaliadores profissionais. Joe Wholey, Harry Hatry e Kathryn Newcomer (1994) observaram no Handbook of Practical Program Evaluation que “nos anos recentes o lema da avaliação profissional tem sido a avaliação focada na utilização” (p. 5). Nesse contexto, a terceira edição do livro deu mais atenção aos detalhes e nuanças da prática e abriu novo território para o uso no processo, examinando os impactos da avaliação para além dos achados, verificando como os stakeholders foram afetados por estarem envolvidos no processo de avaliação. O conceito de uso no processo chamou a atenção para a observação de que aqueles que se envolviam na avaliação sempre experimentavam mudanças na forma de pensar, agir e se comportar que podem afetar a forma como o programa e as organizações conduzem seus negócios. Na última década, nosso entendimento desses efeitos tem sido aprofundado consistentemente e essa nova edição revisa as últimas evidências e fornece mais diretrizes para fortalecer a capacidade avaliativa nas organizações por meio da introdução do pensamento avaliativo dentro da cultura organizacional. (PATTON, 2008, p. xvi-xvii, tradução nossa).
A avaliação focada na utilização, conforme definida por Patton,
é a avaliação feita para e com vistas a atender intenções específicas dos usuários imediatos, para utilização nesses fins. A avaliação focada na utilização tem como premissa que serão julgadas pela sua utilidade e utilização; portanto, os avaliadores devem facilitar o processo de avaliação e planejar cada avaliação observando cuidadosamente como as coisas são feitas, do início ao fim, e de que forma afetarão a sua utilização. A utilização diz respeito a como as pessoas reais, no mundo real, aplicam os achados das avaliações e experimentam o processo de avaliação. Desta forma, o foco da avaliação voltado para a utilização deve ser nas intenções de uso para os interessados na utilização (intended use by intended users). (PATTON, 2008, p. 37, tradução nossa).
Essa abordagem é pessoal e situacional, na medida em que a avaliação é construída a partir da identificação dos “interessados na utilização”, indivíduo ou grupo de pessoas que tem interesse nos achados produzidos pela avaliação, que serão aplicados para fins específicos, que determinam a seleção do modelo, método e teoria melhor plasmados a uma situação em particular.
Para Patton, existem diferenças entre a avaliação focada na utilização e a avaliação influente de Mark e Henry, considerando que:
a ênfase da abordagem focada na utilização é na intencionalidade e direcionamento que propositalmente favorecem a utilização. Ao contrário, a avaliação influente
77 enfatiza os aspectos indiretos sobre os efeitos da avaliação no tempo e fora do programa avaliado, que estão além do controle do avaliador. Os avaliadores focados na utilização, por outro lado, podem conduzir seus trabalhos de forma a promover a sua utilização, especialmente quando observam os propósitos que deram origem à avaliação. (PATTON, 2008, p. 110, tradução nossa).
Os propósitos estabelecidos para a avaliação direcionam os diferentes tipos de utilização e têm implicações em todos os aspectos da avaliação: desenho, indicadores, análise, interpretação, elaboração do relatório e disseminação, como também com os critérios para julgamento da qualidade. O autor apresenta uma tipologia de utilização segundo as distintas finalidades do uso (QUADRO 15).
Finalidades do Uso Tipos de Uso
Direta Uso Instrumental
Uso Conceitual Uso no Processo Longo prazo - influência incremental Influente
Enlightenment
Político Uso simbólico
Uso para legitimar Uso persuasivo Uso impositivo Uso mecânico
Mau uso Mau uso doloso (mischievous misuse) Mau uso culposo (inadvertent misuse) Abuso
Não uso Não uso por inconsistências na avaliação (nonuse due to misevaluation)
Não uso político (political nonuse) Não uso agressivo (agressive nonuse) Efeitos não-intencionais Uso não-intencional
QUADRO 15 - DISTINÇÕES DE USO
FONTE - PATTON (2008, p. 112-113, tradução nossa)
Patton (2008) estrutura as finalidades do uso a partir das distinções clássicas, indicando aquelas cujos achados das avaliações são utilizados diretamente para subsidiar a tomada de decisão, para o aperfeiçoamento de programas/políticas ou para solução de problemas (uso instrumental); quando são utilizadas para influenciar pessoas tem-se o uso conceitual; e quando promovem o aprendizado e mudanças durante o processo de avaliação, serve ao uso no processo. No entanto, quando se tem a intenção de produzir efeitos para além do período avaliativo e de seu contexto, tem-se a avaliação influente, assim como o enlightenment. Nos casos em que as avaliações objetivam oferecer subsídios para o uso político, tem-se o uso simbólico, assim como o uso para legitimar decisões/posições, que seria uma variação do uso simbólico, e o uso persuasivo. Patton inclui nesta finalidade de utilização, o uso impositivo, apresentado por Weiss; e o uso mecânico ou de conformidade. Nesse tipo de avaliação, a motivação é a regularidade (legalidade) e as medidas corretivas decorrentes dos achados são mecânicas (conformidade legal).
78 Patton insere nas finalidades do uso, por mais contraditórias que possam parecer, aquelas modalidades que poderiam ser consideradas não desejadas e que têm desafiado os pesquisadores a compreendê-las e defini-las. Trata-se do mau uso, o abuso, o não uso e o uso não intencional.