Para Freud (1977) [1905], é possível chegar ao inconsciente por meio da análise dos mecanismos expressivos da linguagem dos sonhos e dos chistes. Em suas palavras:
O trabalho de condensação nos sonhos produz, não estruturas compostas, mas quadros que nos recordam com exatidão uma coisa ou uma pessoa, exceto por um acréscimo ou por uma alteração
derivada de alguma fonte: modificação precisamente do mesmo tipo encontrado nos chistes. [...] Não podemos pôr em dúvida que em ambos os casos somos confrontados com o mesmo processo psíquico, ao qual podemos reconhecer devido a seus resultados idênticos. Uma analogia tão abrangente entre a técnica do chiste e a elaboração onírica sem dúvida aumentará nosso interesse na primeira e suscitará em nós uma expectativa de que uma comparação dos chistes com os sonhos ajudará a lançar luz sobre os chistes. (FREUD, 1977, p. 43)
A piada, a anedota e o gracejo são definidos por Freud como chistes, entendendo-se o chiste como o cômico que se utiliza da palavra e do dizer. Para o autor, a realização do chiste ocorre a partir de situações que envolvem desejos reprimidos, sendo o riso um escape para a energia psíquica. Ao discutir as técnicas de elaboração dos chistes, Freud dá relevância ao prazer que essa elaboração causa e o quanto isso se relaciona com o inconsciente. O autor afirma que quem ouve um chiste e compreende seu significado, ri, libera a energia recalcada de um conteúdo inconsciente. Não só o ouvinte/leitor da piada, como também seu produtor/emissor beneficia-se psicologicamente da piada que lhe serve como uma válvula de escape.
Para Freud, portanto, a comicidade é uma descoberta que causa prazer. O cômico faz referência a eventos ou objetos lúdicos, estando o humor, por sua vez, ligado ao comportamento individual, à medida que o indivíduo encobre seus próprios infortúnios e vê neles o aspecto engraçado.
Para esse psicanalista, o humor é uma questão de “economia de gasto psíquico.”. Ao classificar os chistes em maliciosos e inocentes, Freud considera que os primeiros conduzem ao prazer por abrandarem os controles morais. Assim, as piadas que tematizam o sexo permitiriam ao indivíduo a liberação das ansiedades reprimidas sobre esse tema. Os chistes inocentes, por seu turno, dizem respeito ao afrouxamento dos nossos controles e estão relacionados à fase inicial de aquisição da linguagem, quando a criança produz a troca de sons e se confunde na aquisição de sentidos, fazendo com que o adulto ache graça.
No dizer de Rosas:
No chiste tendencioso sempre está em vigor uma finalidade substitutiva da ação – a realização de um desejo recalcado, seja agressivo, seja sexual – que opera no sentido de acrescentar ao prazer da técnica do chiste, o prazer de fugir a um recalque. Porém,
ao lado do chiste tendencioso (ou “carregado”, por assim dizer), Freud reconhece a existência do que denominou “chiste inocente”: aquele que não visando substituir a ação, contém em si mesmo seu fim, ou seja, não tem que ocultar um conteúdo recalcado, um tabu ou interdito. (ROSAS, 2002, p. 28)
Quanto à forma dos chistes, Freud propõe uma tipologia que contempla três grupos: condensação, múltiplo uso do mesmo material
linguístico e duplo sentido. Nesses três grupos, Freud reforça sua teoria da
obtenção do prazer por meio da economia psíquica.
O primeiro grupo, o da condensação, tem como base a integração de duas palavras na construção de novo termo, com significação própria, como no clássico exemplo do autor, em que se associam as expressões “familiar” e “milionário”, na expressão “familionarmente”, num chiste em que um pobre agente da loteria ao gabar-se por ter tido um contato breve com o rico Barão Rothschild diz: [...] Doutor, sentei-me ao lado de Salomon Rothschild e ele me
tratou como um seu igual – bastante familionariamente. (FREUD, 1977, p. 29).
No segundo grupo, do múltiplo uso do mesmo material
linguístico, não há fusão de palavras para a construção do elemento novo,
mas há o aproveitamento do mesmo material linguístico com valor semântico diferente. O aproveitamento pode ser observado quanto à alteração da forma e quanto à alteração do conteúdo. Para Freud, quanto mais sutil essa alteração, melhor é o chiste, pois maior é a impressão de que algo está sendo dito de modo diferente pelas mesmas palavras.
Por fim, o grupo do duplo sentido é apontado por Freud como o mais produtivo e ocorre quando as mesmas palavras prestam-se a múltiplos usos, sendo as anedotas eróticas exemplos abundantes dessa modalidade.
Possenti (2008) observa que Freud fez, mesmo que intuitivamente, análises dos chistes que podem ser vistas como discursivas. Entre diversos exemplos de chistes a que Freud aduz em sua análise, citaremos um, a título de justificarmos a observação de Possenti:
O médico a cujos cuidados se confiou a Baronesa em sua gravidez, anunciou que ainda não chegara o momento de dar à luz e sugeriu ao barão que enquanto esperavam jogassem cartas no cômodo vizinho. Após um momento um grito de dor da Baronesa feriu os ouvidos dos dois homens: “Ah, mon Dieu, que je souffre!”. Seu marido levantou-se de um salto mas o médico fez lhe sinal que se assentasse: “Não é
nada. Vamos continuar com o jogo!” Pouco depois, novos brados da mulher grávida: “Mein Gott, was für Schmerzen!”. “Não vai entrar professor?”, perguntou o Barão. “Não, não, não. Ainda não é a hora” Finalmente chegou da porta próxima um inconfundível grito de “Ai, ai, ai”. O doutor largou as cartas e exclamou: “Agora é a hora”. (FREUD, 1977).
Nessa exemplificação, Freud mostra a consciência que o falante tem na utilização da língua. A baronesa sabe que seu comportamento “diz” coisas sobre ela, portanto, ao interpretar a dor que ainda, de fato, não sentia, utilizou-se dos gritos à maneira de sua posição social. Sua encenação, no entanto, não perdura, visto que o sentimento real de dor foi capaz de desnudar-lhe o comportamento. A reação do médico mostra que ele foi capaz de inferir, por seu conhecimento de mundo, o momento propício à intervenção, compreendendo que o sentido do primeiro e do segundo apelos da baronesa eram diferentes do segundo. Freud, ao fazer a análise do chiste, faz a seguinte observação:
Este bem sucedido chiste demonstra duas coisas pela modificação gradual do caráter dos gritos de dor emitidos por uma aristocrática dama na hora do parto. Mostra também como a dor faz com que a natureza primitiva irrompa entre as diversas camadas de verniz de educação e como uma decisão importante pode ser adequadamente tomada na dependência de um fenômeno aparentemente trivial. (FREUD, 1977).
Observamos, pelo comentário de Freud, que o autor considera apenas como relevante o fato de que a dor faz com que a natureza irrompa entre as diversas camadas de verniz de educação. Comentário coerente, haja vista seus objetivos de estudo, voltados à área da psicanálise.