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A análise buscou apreender algumas características gerais da cobertura tanto em sua forma quanto em seu conteúdo. Para tal, as reportagens da amostra foram classificadas e tabuladas no SPSS afim de formar um banco de dados com o perfil da cobertura de Veja e

CartaCapital ao longo do período analisado.

A classificação das peças jornalísticas selecionadas está disponível em mais detalhes na metodologia e no Formulário de Codificação (Apêndice I). De modo geral, foram incorporados elementos de conteúdo e de forma na análise. Portanto, a amostra será caracterizada segundo os tipos de ocorrência e também pelo padrão temático e de conteúdo tratado em cada uma das revistas.

4.2.1 Caracterização da amostra

Como esperado, foi possível perceber diferenças na cobertura de Veja e CartaCapital sobre o tema mudança climática. As duas revistas se distinguem não apenas pelo perfil do jornalismo (com estruturas e tipos de abordagens distintas), mas também pelo conteúdo, que por vezes, se apresenta de maneira diametralmente oposta.

A primeira triagem buscou identificar todas as matérias que fizeram qualquer menção à mudança climática. Para identificar a frequência com que o tema aparece, foi considerada como unidade de análise a reportagem, artigo de opinião ou nota em que há menção à mudança climática, seja como tema principal ou não. A revista Veja conta com 41 recorrências e CartaCapital com 101, totalizando, na primeira triagem, uma amostra 142 casos em que o tema fora mencionado. Percebe-se que grande parte dessas incidências acontece de modo muito pontual, por vezes como um comentário descontextualizado ou mesmo como um recurso de humor para tratar do “aquecimento” do cenário político. Tendo em vista tal característica, foram consideradas apenas as incidências em que o tema mudança climática foi o eixo central da discussão. Feita a segunda triagem, mais de metade dos casos foram desconsiderados, restando apenas 56 dentre os 142 casos. Neste ponto, ambas as revistas tiveram um comportamento similar, com 43,9% dos casos da Veja tendo mudança climática como tema central e 37,6% dos casos da CartaCapital (Tabela 3). Dentre os 56 casos, cabe ressaltar que a revista CartaCapital apresentou um número maior de recorrências, com pouco mais do que o dobro de casos do que a revista Veja (38 e 18, respectivamente).

Em relação ao perfil visual, as revistas também se assemelham. Mais de 90% das ocorrências (exceto notas e colunas semanais), é marcada pela presença de figuras, gráficos ou fotos tanto em Veja quanto em CartaCapital.

A análise a seguir será sempre feita de acordo com o total de cada revista, com duas amostras distintas para cada revista. Portanto, para tratar de Veja, os dados serão calculados a partir das 18 incidências e de CartaCapital, das 38.

Tabela 3 - Recorrência do tema MC como elemento principal

Sim Não Total

Veja Valor absoluto 18 23 41

% na Revista 43,90% 56,10% 100,00%

Cartacapital Valor absoluto 38 63 101

% na Revista 37,60% 62,40% 100,00%

Fonte: elaboração própria

Além da incidência do tema, um ponto importante a ser considerado é o tipo de espaço destinado a cada caso (peça jornalística), já que a importância de cada unidade de análise pode variar. Uma reportagem de cinco páginas ou uma nota de poucas linhas contam como um caso, mas claramente têm importância distinta. Para considerar a relevância de cada unidade de análise pode-se avaliar o espaço que ocupa na revista e o tipo de matéria (se é uma reportagem, uma carta de leitor ou apenas uma nota, por exemplo). Para tal, pode-se utilizar o espaço métrico de cada caso, o número de palavras ou caracteres, a localização/seção da revista, dentre outros. Nesta pesquisa, foram considerados: o número de páginas ou espaço da fração na página (para aquelas de menos de uma página), o tipo (nota/reportagem/opinião) e a seção em que se encontra cada um dos 56 casos.

Verifica-se uma cobertura consideravelmente mais aprofundada por parte da revista

CartaCapital. Além de ter uma incidência maior (compondo 68% da amostra de 56 casos),

em sua cobertura predominam reportagens mais longas e com análise mais detida.

Em CartaCapital, quase metade dos casos (47,37%) ocupam mais de duas páginas. Distintamente, em Veja prevalece uma cobertura mais pontual, como menor espaço para discussão. Em Veja, verifica-se 13 das 18 ocorrências como frações de página, o que equivale a 72,2% da amostra da revista. Cabe ainda ressaltar que neste grupo de 13 casos, a maior parte (84,6%) é composta por pequenas frações que ocupam menos do que 10% do espaço de uma página.

O diminuto espaço destinado ao tema é reforçado também pelos tipos de recorrência em cada uma das revistas. Conforme demonstrado no Gráfico 2, abaixo, as revistas têm tipos de recorrência bastante distintos. Enquanto, em CartaCapital predominam as peças jornalísticas classificadas como reportagens, em Veja uma parcela significativa dos casos (38,9%) são notas, cuja principal característica é o pequeno espaço para qualquer discussão ou análise do tema.

Gráfico 2- Tipo da peça jornalística por revista Fonte: Elaboração própria

Quanto à composição da cobertura, a revista CartaCapital apresentou uma tendência a uma cobertura mais aprofundada, marcada por reportagens mais analíticas e longas do que as da revista Veja. Além das diferenças do espaço destinado ao tema, as revistas adotam também abordagens e conteúdos marcadamente distintos, que serão discutidos a seguir.

4.2.2 Sobre o conteúdo

Para tratar do conteúdo veiculado pelas revistas, esta pesquisa considera os enquadramentos dados ao tema mudança climática, o debate sobre a existência do fenômeno e a discussão de temas como mitigação e adaptação.

O perfil da cobertura das revistas varia bastante e o enquadramento dado ao tema mudança climática é um exemplo disso (Gráfico 3). É possível perceber uma orientação para uma cobertura mais de acordo com seu público leitor. Ao compararmos os enquadramentos com os interesses do público leitor de cada uma das revistas, percebermos uma forte consonância entre estes fatores.

Gráfico 3- Enquadramento temático da amostra em Veja e CartaCapital Fonte: Elaboração própria

Legenda: MA (meio ambiente) e DS (desenvolvimento sustentável)

38,9%# 27,8%# 33,3%# 15,8%# 63,2%# 21,1%# Nota# Reportagem## Opinião#

Tipo%de%recorrência%

%(%%por%revista)%

CartaCapital# Veja## ciência# 11%# MA# 6%# economia# 6%# políEca# 33%# geopolíEca# 22%# social# 11%# amplo#(DS)# 11%#

Veja

%

ciência# 10%# MA# 3%# economia# 29%# políEca# 8%# geopolíEca# 21%# social# 5%# amplo#(DS)# 24%#

CartaCapital%

Em CartaCapital, por exemplo, uma parte significativa dos casos estão inseridos em um enquadramento econômico, viés minoritário na cobertura de Veja. Uma possível explicação para isso é o fato do público leitor de CartaCapital ter seu interesse mais voltado para o tema economia, conforme demonstrado anteriormente (Tabela 2).

Há uma predominância em Veja da discussão da política interna (inserida no enquadramento intitulado política). Contudo, cabe ressaltar que uma parcela significativa dos casos enquadrados em política é composta por notas, nas quais são noticiadas a possível ausência do então presidente Lula no encontro em Copenhague, a ida de José Serra ao evento e outras notícias pontuais. Um dos possíveis fatores de influência foi o período pré- eleitoral no Brasil, que acabou orientando parte da cobertura sobre a COP-15. Algumas reportagens, portanto, se situam (explícita ou implicitamente) na disputa entre os então possíveis candidatos à presidência: Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva. Ademais, a presença ou ausência desses atores foi discutida de forma personalista, na tendência das normas jornalísticas apontadas por Bennett (1996; 1995) e Boykoff e Boykoff (2007).

Outro elemento que merece ser analisado é a baixa incidência de reportagens ou comentários com orientação predominantemente ambiental. Os 6% em Veja e 3% em

CartaCapital correspondem, na realidade, a apenas uma recorrência de cada revista que foi

centrada na esfera ambiental da mudança climática (uma carta de leitor em Veja e uma reportagem em CartaCapital). A questão ambiental, portanto, está quase sempre situada em outras discussões (política, tecnológica, econômica) em abordagens mais voltadas para outras esferas. Os impactos da mudança climática, por exemplo, são raramente citados em termos de distúrbios ecossistêmicos. Os distúrbios ambientais advindos do problema climático são tratados sob um viés antropocêntrico, em termos de prejuízo às funções ambientais relevantes à humanidade. O equilíbrio ambiental, não considerado em seu valor intrínseco, é representado por ambas as revistas de forma secundária, satélite às questões sociais.

4.2.2.1 COP-15

É possível perceber que o evento COP-15 marcou a cobertura no período analisado, influenciando uma postura mais atenta ao tema mudança climática por parte da mídia. Na amostra selecionada, a maior parte das discussões sobre mudança climática menciona o evento em Copenhague (66,7% em Veja e 65,8% em CartaCapital).

Há relação entre a incidência de matérias e menções ao tema mudança climática no período da COP-15 em ambas as revistas. Conforme demonstra o Gráfico 4, abaixo, a maior parte das ocorrências acontece antes ou durante o período do evento, com uma tendência à queda da cobertura após o evento.

Gráfico 4- Ocorrências de menções ao tema MC em relação ao período da COP-15 Fonte: Elaboração própria

Um elemento interessante é a diferença na cobertura de CartaCapital e Veja no que tange a COP em si. Dentre as matérias que mencionam a COP-15 (12 em Veja e 25 em

CartaCapital), a Conferência aparece como tema principal na maior parte das recorrências

em Veja (91,7% dos casos), mas não em CartaCapital (com apenas 32% dos casos). Essa característica expressa uma tendência que a CartaCapital demonstrou em tratar a questão climática de forma mais ampla, aproveitando a janela de oportunidade trazida pela COP-15 para discutir de forma mais vasta a questão climática e ambiental. A cobertura de Veja, por sua vez, foi visivelmente influenciada pelo acontecimento COP-15 e o tema mudança climática foi tratado majoritariamente em reportagens específicas sobre o encontro em Copenhague.

Apesar da COP-15 não ser o tema mais tratado por CartaCapital, não se pode negar a influência do encontro na cobertura da referida revista. A primeira edição da CartaVerde 56 foi dedicada justamente à discussão do aquecimento global e da reunião de Copenhague, com a seguinte chamada: “A hora de AGIR. As previsões sobre o aquecimento global estão

mais sombrias. A reunião de Copenhague exige resultados urgentes e concretos.” Foram

discutidos variados temas, envolvendo questões ambientais, econômicas, sociais e geopolíticas, mas os tópicos centrais foram a COP-15, os diferentes interesses entre países e a importância de se adotar as medidas de adaptação e mitigação.

Pode-se dizer que, conforme esperado, a COP-15 influenciou a cobertura das duas revistas sobre o tema mudança climática. O encontro em Copenhague se mostrou uma janela de oportunidade para debater o tema na esfera pública, principalmente em virtude do seu destaque nos veículos de imprensa tanto nacionais quanto internacionais (ABRANCHES, 2010).

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56 A CartaCapital dispõe de uma edição especificamente voltada para a questão ambiental: a CartaVerde. Esse

suplemento trimestral é uma associação entre a revista e a agência de notícias Envolverde, com primeira edição em 14 de outubro de 2009. 55,6%# 11,1%# 33,3%# 50,0%# 28,9%# 21,1%#

antes# durante# depois#

Ocorrências%em%relação%ao%período%da% COP15%

4.2.2.2 Mudança climática

Sobre a mudança climática, de modo mais geral, dois aspectos se destacam na cobertura das revistas: a) o debate sobre a existência ou não do fenômeno e b) a ênfase dada à mitigação em detrimento da adaptação.

Em relação à postura dos céticos, é interessante comparar CartaCapital e Veja, principalmente porque neste quesito houve a maior dissonância entre as revistas. Enquanto

CartaCapital reafirma constantemente a existência do fenômeno, Veja dedica um espaço

considerável de sua cobertura levantando dúvidas e se aproximando do discurso dos céticos. Nas edições de 24 de fevereiro de 2010, por exemplo, as revistas trazem matérias diametralmente opostas sobre o tema. A revista Veja (edição 2153) traz a matéria “O dogma derrete antes das geleiras” argumentando que “os céticos devem ser levados a sério” tendo em vista “manipulações e fraudes nos relatórios climáticos” fazendo inferência ao caso dos polêmicos e-mails de alguns cientistas integrantes do IPCC (pesquisadores da Universidade de East Anglia) que foram interceptados e divulgados na internet.57 Nesta matéria a tese sobre a existência da mudança climática é contestada de forma veemente, com expressões como “fervor fanático e doutrinário pelas conclusões pessimistas do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC)”, “doutrina do aquecimento global” e “sumo sacerdote do dogma da mudança climática” para se referir ao climatologista Phil Jones. Em contrapartida, na mesma semana, em sua edição 584, a revista CartaCapital traz a matéria “O aquecimento global é fato”, na qual reafirma-se a existência do fenômeno, suas causas antropogênicas e expõe os interesses subjacentes na negação do fenômeno, como o lobby do petróleo.

No universo amostral de Veja, 27,8% das suas 18 recorrências corrobora a postura dos céticos, colocando explicitamente em xeque a existência da mudança climática e/ou de suas causas antropogênicas. Já CartaCapital não tem nenhum caso em que essa contestação tenha sido feita. Em apenas um caso se aventou incertezas sobre o fenômeno, contudo, sem negá-lo. Mais do que isso, CartaCapital adotou uma postura ativa na contestação dos argumentos dos céticos.

O tema existência da mudança climática foi pauta explícita de 7 casos em CartaCapital e de 7 casos em Veja. Em 6 dos 7 casos de CartaCapital o intuito foi justamente contrapor argumentos céticos, reafirmando a existência do fenômeno. Em Veja testemunha-se justamente o contrário, com 5 dos 7 casos reafirmando a postura cética. A Tabela 4 ilustra o perfil da amostra no referente à negação ou afirmação da existência da mudança climática naquelas recorrências em que esse tema foi pauta explicitamente.

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57

Para mais informações sobre esse evento, ver Abranches (2010), onde o autor faz um retrospecto sobre esse acontecimento, discutindo mais em detalhes o conteúdo dos e-mails e os atores envolvidos no caso.

Tabela 4 - Casos que discutiram a existência da MC e/ou papel antropogênico

Nega Levanta

incertezas Afirma TOTAL

Veja valores absolutos 5 2 0 7 valores percentuais 71,4% 28,6% 0,0% 100,0%

CartaCapital valores absolutos 0 1 6 7 valores percentuais 0,0% 14,3% 85,7% 100,0%

Fonte: Elaboração própria

Ao analisar o tipo de tais recorrências, percebe-se a mesma dissonância entre as revistas. Em Veja, a maior parte das ocorrências negando a mudança climática pode ser atribuída a outros autores, com predominância de textos opinativos. É importante diferenciar os textos opinativos das demais peças jornalísticas. Afinal, apresentar um tema mais polêmico a partir de textos opinativos (como carta de leitores) assegura à revista uma posição estrategicamente mais neutra.

Das 5 ocorrências em Veja, 4 são textos opinativos (3 cartas de leitores e 1 colunista). Apenas um corresponde a uma reportagem, que é a matéria acima mencionada: “O dogma derrete antes das geleiras”. Em CartaCapital, as 6 recorrências que contestam os argumentos dos céticos são compostas em sua maioria por reportagens (4), uma nota (1) e uma passagem no editorial (1), considerado aqui como artigo de opinião.

A revista CartaCapital conduz a discussão desse tema de forma mais explícita, em seu editorial e em reportagens. Já a revista Veja expõe o tema de forma mais incerta, evitando em suas reportagens afirmações categóricas sobre a existência ou não do fenômeno. O emprego de aspas para se referir ao aquecimento global ou de expressões como “aparentemente” para se referir à interferência humana no sistema climático expressam a postura reticente de Veja.

É perceptível que a revista CartaCapital adota uma postura mais clara e direta nessa questão, modo coerente com sua proposta jornalística engajada e de não-neutralidade. Em contrapartida, a revista Veja não nega nem afirma seu posicionamento, postura também de acordo com sua pretensa neutralidade jornalística.

Apesar das diferenças, ambas revistas têm um ponto em comum: a ênfase dada à mitigação em detrimento da discussão sobre a adaptação à mudança climática. Para avaliar esse aspectos, dividiu-se os casos nas seguintes categorias: a) mitigação, para aqueles casos com enfoque nas causas da mudança climática, mencionando apenas perspectivas de emissões; b) adaptação, para aqueles casos em que se apresentou de modo prioritário a perspectiva dos impactos e ações para lidar com os efeitos da mudança climática; c) ambos, quando se mencionava tanto elementos de adaptações e mitigação e d) nenhum, quando por alguma razão nenhuma das perspectivas acima foi mencionada, ou por enquadramentos diferentes ou simplesmente por falta de espaço, muito comum nas recorrências classificadas como Nota.

Em praticamente a totalidade dos 38 casos de CartaCapital (92,1%) houve menção aos temas adaptação e/ou mitigação. Em Veja apenas a metade (50%) dos casos pode ser enquadrada segundo os critérios acima. O elevado número de casos não classificados em

Veja pode ser explicado pelo perfil das recorrências da revista. Conforme já discutido

anteriormente, na cobertura de Veja predominam notas, nas quais não há qualquer espaço de debate que torne possível a classificação de temas tais como adaptação ou mitigação.

De todo modo, dentre os casos classificados, é possível perceber um padrão próximo entre as duas revistas no que tange a mitigação. O perfil dos casos classificados é ilustrado na Tabela 5 e Gráfico 5, abaixo:

Tabela 5 - Casos classificados como mitigação e/ou adaptação

Fonte: Elaboração própria

Gráfico 5- Casos classificados como mitigação e/ou adaptação Fonte: Elaboração própria

Em ambas revistas predomina o enfoque sob a mitigação, entretanto, CartaCapital se destaca por discutir o tema adaptação mais a fundo a adaptação. Nos dois casos de Veja em que a adaptação foi citada, pode-se dizer que o foi de forma secundária. Já em CartaCapital, houve reportagens com enfoque exclusivo nos impactos da mudança climática, principalmente considerando as diferentes capacidades adaptativas entre países.58

Essa tendência de predomínio do tema adaptação em CartaCapital é uma das hipóteses que foi confirmada. Tendo em vista que o tema adaptação está mais diretamente relacionado com problemas de justiça social e pobreza, esperava-se uma cobertura mais atenta a estes aspectos por parte desta revista. É notória a orientação política mais à esquerda, de CartaCapital, com prevalência de temas críticos à pobreza e desigualdades

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58 As quarto reportagens de CartaCapital em que se discutiu mais a fundo a adaptação foram: “As maiores

vítimas” (Ed.565), “A fatura não é só dos ricos” (Ed.567), “Os ricos têm grana, os pobres, pressa” (Ed.576) e “O aquecimento global é fato” (Ed. 584)

77,8%# 0,0%# 22,2%# 77,1%# 11,4%# 11,4%# MiEgação# Adaptação# Ambos#

Casos%classificados%como%mi@gação%

%e/ou%adaptação%%%

CartaCapital# Veja#

Mitigação Adaptação Ambos TOTAL

Veja valor absoluto 7 0 2 9

valor percentual 77,8% 0% 22,2% 100%

CartaCapital valor absoluto 27 4 4 35

sociais. As quatro reportagens que trataram de adaptação estão em consonância com tal perfil. Duas delas (“As maiores vítimas” e “Os ricos têm grana, os pobres, pressa”) tiveram o enquadramento predominantemente social, discutindo, sobretudo, a diferença de vulnerabilidade entre países e o problema da pobreza no contexto da mudança climática.

Cabe lembrar que a prevalência da mitigação à adaptação é um padrão recorrente não apenas na mídia ou nos veículos de comunicação escolhidos, mas também nas discussões científicas e (geo)políticas sobre o tema (HUQ; REID, 2004; SCHIPPER, 2006). Conforme exposto no Capítulo 1, apesar de mitigação e adaptação estarem conectadas, ambas as respostas tendem a ser tratadas separadamente. Inicialmente, o próprio IPCC não tinha o GT-II, voltado para adaptação, sendo este criado somente a partir do segundo relatório, em 1995. No ano de 2001 o tema ganha destaque, com o 3º Relatório (TAR). Este documento conceitua adaptação e também chama atenção para o fato de que, a despeito das reduções de emissão, alguns graus de impactos seriam inevitáveis (SCHIPPER, 2006).

No cenário político a adaptação também passa ao largo na preocupação e implementação de políticas públicas. O caso brasileiro é um bom exemplo. O decreto que regulamenta a Política Nacional de Mudança do Clima (PNMC) em nenhum momento tece considerações sobre medidas adaptativas, sendo as metas exclusivamente de redução de emissões.59 Apesar de ser mencionada na PNMC e no Decreto 7.390, a adaptação é claramente um elemento em segundo plano, se não tacitamente negligenciada. No decreto, a palavra adaptação aparece uma única vez no Artigo 2º e apenas para fazer menção aos Artigos 6º e 11º da PNMC. Os referidos artigos da Política tratam dos instrumentos da PNMC e dos Planos Setoriais, nos quais a mitigação aparece de forma evidente em primeiro plano.

Torna-se cada vez mais evidente à cientistas e políticos que algum grau de impacto é inevitável e a adaptação se faz necessária. A insistência sobre tal importância vem, sobretudo, por parte de agências de desenvolvimento e por parte de países mais vulneráveis (como as pequenas ilhas), que estão dentre os mais afetados pelo problema (HUQ; REID, 2004) .

Por fim, é importante perceber que a predominância da mitigação frente à adaptação de certo modo obscurece um ponto importante no âmbito da mudança climática: a desigualdade entre países. O debate sobre adaptação passa necessariamente pela discussão de elementos como impactos, vulnerabilidades e capacidades adaptativas. Esses elementos, por sua vez, não podem ser dissociados de um debate sobre a pobreza, haja vista sua centralidade na constituição da vulnerabilidade de países e comunidades.

Esse debate, associado à discussão da justiça climática, será tratado a partir das