Essa atividade aconteceu logo após o período de adaptação das crianças ao espaço escolar (mais ou menos duas semanas após o início das aulas) quando o grupo foi convidado a conversar sobre portfólio.
Na verdade, o tema surgiu a partir de uma pergunta: o que é um portfólio? Sentados em roda, as crianças passaram a falar aquilo que acreditavam ser um portfólio, depois a professora mostrou alguns modelos e, ao final, registrou algumas das considerações do grupo sobre o tema abordado.
Como o portfólio foi tratado, durante toda a conversa, como um objeto coletivo pertencente ao grupo, algumas problematizações também ocorreram, uma vez que não seria possível que todas as crianças participassem ao mesmo tempo da produção, por exemplo, de uma das páginas do caderno. A partir de questionamentos, a professora e os alunos chegaram a um acordo, no qual a cada atividade escolhida para o portfólio seriam selecionadas, por meio de sorteio, as crianças que seriam responsáveis pela produção de cada página e que a professora faria um controle com os nomes dos alunos que participaram para garantir que todos o fizessem, inclusive mais de uma vez.
Essa proposta foi realizada em dois dias distintos. O primeiro, descrito nos parágrafos anteriores, revela como o acordo e a discussão ocorreram oralmente e,
no dia posterior, o segundo refere-se ao momento em que a professora traz os textos digitados e, então, solicitou às crianças sorteadas, que ilustrassem a página.
No momento da ilustração, a professora sugeriu que as crianças fizessem seus desenhos em uma folha branca, para depois recortá-los e colá-los na página do portfólio. Ao final, ela fez o “acabamento” no recorte das crianças e lhes explicou que a página precisava de um título, entregando-lhes uma tira colorida de papel. Depois, explicou-lhes que deveriam dispor os desenhos e os textos em uma ordem. Dessa forma, eles conversaram sobre o nome que poderiam dar àquela atividade. Uma das crianças escreveu no espaço delimitado, perguntando para a professora algumas dúvidas em relação às letras que usaria para escrever as palavras. Depois, organizaram os elementos da página e a professora os colou, cada um no lugar escolhido.
Quando a página ficou pronta, ela foi mostrada e compartilhada com as outras crianças, mas apenas em um movimento de apreciação.
Figura 12: Atividade Nossa Hestória
Para representar esse momento, a professora e o grupo usaram duas páginas, frente e verso. Na primeira página, à esquerda, aparece, na parte superior centralizada, uma tira de papel colorida com um retângulo branco dentro, aparentemente, uma caixa de texto, na qual está escrito NOSSA HESTÓRIA40. Essa
40
A concepção de alfabetização usada pelo colégio é baseada nos conceitos teóricos de Emília Ferreiro e de Ana Teberosky e parte do princípio de que não é um processo abstrato, mas que ocorre em contextos culturais e sociais determinados. Em um sentido amplo, a criança recebe informações
tira foi produzida pela professora, como o lugar determinado por ela para se escrever o título da página. Logo abaixo, também centralizado, mas agora no meio da página, um texto digitado com bordas pretas, colado sobre um quadrado de papel colorido vermelho. Mais abaixo, no canto inferior esquerdo, está um desenho recortado de uma menina com uma flor na mão e, no canto inferior direito, outro desenho recortado de uma árvore com um “chão” verde, imitando aparentemente a grama.
Na segunda página, aparece centralizado na parte superior um desenho de um sol com nuvens recortado. Logo abaixo, mais à direita, um texto digitado com bordas pretas. Do seu lado esquerdo um desenho recortado de uma criança e abaixo, no canto inferior esquerdo da página, um desenho de uma árvore recortada com grama a sua frente, no meio da página, ainda na parte inferior, um desenho recortado de uma menina de cabelos compridos e, à direita, também recortado, um desenho de uma árvore, de uma flor e de uma suposta grama.
Observa-se na composição da página que os desenhos estão soltos, que não existe uma unidade na composição, um enquadramento, ficando claro que foram deslocados de outro espaço para o portfólio. Além disso, quando se lê os textos produzidos, os desenhos não estabelecem relação com seus conteúdos, pois as crianças fizeram um desenho, que poderia ser qualquer desenho, uma vez que a professora não retomou a leitura dos textos com eles, nem os relacionou àquilo que estava escrito naquelas páginas.
Não há como dizer que houve, nesse caso, uma produção de significado conjunto, já que os sentidos das crianças não foram realmente explicitados e debatidos para a produção da atividade, já que é pela prática da discussão, das diferentes formas de argumentar, que se articula o ato de raciocinar, gerando diferentes formas de pensar.
O desenhar é mais uma reprodução passiva de um pedido da professora do que uma apropriação decorrente de uma compreensão, ou seja, pode ser considerado mais uma Atividade reprodutora do que criativa. Portanto, observa-se que a partir do uso desses recursos argumentativos não houve desenvolvimento e sobre as funções, os usos, as convenções, a estrutura e o significado da escrita e da linguagem escrita. Ao mesmo tempo, elabora e reelabora conhecimentos sobre os princípios organizativos, as formas de representação, os procedimentos e os conceitos linguísticos e metalinguísticos implícitos na linguagem escrita, criando hipóteses a respeito desses conhecimentos até chegar ao registro escrito convencional (TEBEROSKY, 2003).
pertinência, uma vez que não existe coerência de raciocínio entre os interlocutores, nem a introdução de novos elementos para deixar mais clara a questão proposta, que se referiria à ilustração da página do que é um portfólio para o grupo.
Por outro lado, a professora ao escrever os textos, a partir da conversa que tivera com as crianças, demonstra uma preocupação em ressaltar a participação delas durante o processo, o que se verifica em algumas marcas linguísticas.
Figura 13: Transcrição do texto produzido pela professora do Pré C
Entre elas, pode-se destacar o uso dos pronomes na primeira pessoa do plural, ou seja, o nós, o nosso, sustenta que as ações são do grupo, que assume a responsabilidade pelo trabalho. Isso aparece tanto na escrita da professora como na transcrição das falas dos alunos ao usarem expressões como da gente e a gente.
A escolha dos temas pelas crianças fica marcada no texto da segunda página, no qual a professora registra o que foi discutido e decidido pelo grupo, pois os verbos marcam temporalmente as ações realizadas pela professora e seu grupo de alunos. A maioria desses verbos está na primeira pessoa do plural, o que demonstra que vários interlocutores estão incluídos nesse discurso. Mesmo quando aparece o verbo na primeira pessoa do singular, marcando a voz da professora, subsequentemente, a utilização do pronome nós sustenta que as ações são decididas pelo grupo e não apenas por ela.