4.3 Resultater og analyse
4.3.4 Avsluttende oppsummering
Segundo Coutinho (1998), outra característica, que difere, definitivamente, a arquitetura das demais artes: Arquitetura é realidade e não representação. Para ele, “enquanto portadora de autonomia, encerrando no vazio do espaço a matéria que lhe é própria, [a arquitetura] conta com um requisito que não corresponde aos critérios e formalidades com que atua a crítica habitual: em sua essência é realidade e não representação” (COUTINHO, 1998:17).
Para Coutinho (1998), a arquitetura é realidade e não representação fundamentado na idéia de arquitetura como produtora de espaço passível de interação sujeito/objeto pela quebra
de fronteira estética. O conceito de fronteira estética é definido como uma barreira
intransponível, pois a obra não se deixa penetrar por ninguém. A pintura é um dos exemplos
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usados por Coutinho (1998:38) para ilustrar a definição de fronteira estética: “Na pintura de paisagem marinha, o expectador não passa além da moldura, não vai dentro da tela a fim de molhar as mãos, isso porque tem diante de si um caso de representação e não de realidade.”Na contraposição entre arquitetura e demais artes (pintura, escultura, cinema), quanto à existência ou não de fronteira estética que as difere, Coutinho nos leva à compreensão de “representação” como imagem ou expressão de uma determinada realidade, não da realidade mesma. Além de volume palpável, como na escultura, a arquitetura é espaço vivenciado e não somente uma representação de um espaço, como seria, por exemplo, a pintura. Nesta última, o espaço representado não afeta fisicamente o observador por seus atributos (temperatura, luz, ruídos, aromas), mas apenas o atinge no nível intelectivo/emocional.
A discussão sobre realidade e representação deve, no entanto, ser aprofundada em arquitetura porque existe um componente de representação na obra e no fazer arquitetônico. Por exemplo, os riscos ou gráficos no papel32 extrapolam sua condição de ferramenta ou simples meio para que o espaço tridimensional possa existir. Nesta discussão, é importante recorrer, mesmo que brevemente, às reflexões sobre a teoria das representações em outras disciplinas como um caminho para defini-las em arquitetura, o que é, também, o enfoque deste trabalho.
Para alguns filósofos, seguindo as concepções de Hegel, a discussão entre realidade e representação passa pela impossibilidade de acesso ao mundo real (LEFEBVRE, 2006). Por esta razão, alguns teóricos defendem que o que existe é uma representação do real. Portanto, só é possível uma aproximação ou uma leitura parcial da realidade, pois ela é inatingível. Essa leitura seria, então, permeada apenas por sentidos, por valores culturais e simbólicos. No entanto, a perspectiva adotada nesta tese é um pouco diferente, uma vez que a arquitetura, como realidade, é atingida.
Serge Moscovici, a partir de Durkheim33, formulou o conceito de representações sociais,
enfatizando o papel ativo do sujeito. Ele conceitua a representação social como uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos (MOSCOVICI, 1978:26). Para Moscovici, o estudo deve ser feito 32 Os riscos ou gráficos no papel são expressões da criação de lugares; momento de elaboração em que o arquiteto representa as imaginadas paredes que conformam o espaço. Coutinho chegou a chamar de “arquitetura indicada no papel”, mas entendendo os gráficos como “cenário de componentes simultâneos” (COUTINHO, 1998:30-31). 33O conceito de representação nasceu na sociologia e na antropologia com Lévi-Bruhl e Durkheim e se constitui em um instrumento de análise de fenômenos sociais. Durkheim cunhou o conceito de Representações Coletivas, que são categorias de pensamento vinculadas aos fatos sociais, pelas quais determinada sociedade elabora e expressa sua realidade. As representações coletivas são “objeto de estudo tanto quanto as estruturas e as instituições: são todas maneiras de agir, pensar e sentir, exteriores ao indivíduo e dotadas de um poder coercitivo em virtude do qual se lhes impõe” (DURKHEIM, 1978:88).
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na perspectiva psicossocial, assumindo um conflito ou tensão permanente entre a especificidade do sujeito e os processos sociais. De acordo com ele, “não existe sujeito sem sistema e nem sistema sem sujeito. O papel das representações partilhadas é o de assegurar que sua coexistência é possível” (MOSCOVICI, 1998:12). Sendo assim, as representações sociais se diferenciam de outras formas de conhecimento, intelectual ou sensorial, porque implicam uma relação específica entre o sujeito e o mundo, permitindo a passagem de um objeto da esfera sensorial à esfera cognitiva e a sua incorporação nos valores e práticas sociais (SAUER, 2002).A utilização do conceito de representação de Moscovici foi aplicada em estudos na arquitetura34. Monteiro (1996), por exemplo, trabalhou com esta noção de representação para
estudar a cidade. Seguindo a lógica de Moscovici, Monteiro (1996) afirma que a imagem que as pessoas possuem de determinados lugares da cidade é importante para a sua interpretação. A estas imagens estão “atreladas não somente qualidades icônicas de uma idéia imprecisa como também valores que permitem compreender e se situar em relação à mesma” (MONTEIRO, 1996:908)35.
A Arquitetura é produtora de espaço real, sobre isto não há dúvida e as reflexões de Coutinho demonstram isso muito bem. A questão é que a oposição entre realidade e representação está calcada em um conceito que entende a representação apenas como uma construção mental, uma imagem ou cópia que simula a realidade, como é geralmente entendida nas teorias ditas pós-modernas. Parte significativa das oposições a essa perspectiva está fundamentada na noção de que a representação substitui a realidade, conseqüentemente, toda realidade não passa de representação.
É a partir da negação dessa interpretação como simulação da realidade que Lefebvre (2006) contribui substancialmente para a discussão sobre o conceito ou compreensão de representação. Apesar de ser crítico à teoria das representações, enfatizando que ela não é suficiente para explicar todos os fatos da vida, Lefebvre ressalta que as representações são parte necessária da análise para que a obra (ação humana) seja entendida. Elas são necessárias e inevitáveis, pois não é possível “viver e compreender uma situação [ou realidade] sem representá-la” (Lefebvre citado por LUFTI et al, 1996:96).
34 Para Moscovici, “o espaço urbano considerado a matéria bruta de vida cotidiana é basicamente percebido, compreendido e determinado pelas representações mentais” (MOSCOVICI, 1984:60 citado por Monteiro, 1995). 35 Em arquitetura outros estudos utilizaram as representações dos lugares, o uso da “imagem mental” de Lynch (1964) por Kolhsdorf (1996). Entretanto, essa é uma concepção diferente de representação em Moscovici. Segundo ele, as representações sociais não podem ser confundidas nem com opiniões nem com imagens, pois esses termos são demasiadamente estáticos e descritivos. A imagem é um reflexo interno (uma construção mental) de um objeto externo; é uma construção passiva de um dado imediato como uma “cópia fiel no espírito” do que se encontra fora dele (MOSCOVICI, 1978:46).
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Segundo Lefebvre (2006), as representações são mais do que simples cópias ou simulações da realidade. Elas expressam e interpretam e, ao mesmo tempo, interferem na prática social; fazem parte da vida e da realidade. Para ele, as representações são mediações para entender a realidade, pois sua compreensão permite desvendar as formas de substituição e deslocamento, de simulações e dissimulações. Conseqüentemente, o pensamento dialético de Lefebvre (2006) não exclui a representação da análise da realidade, mas a toma como elemento que interage na construção social da realidade.Lefebvre (2006:26) entende a representação como fato, realidade concreta, ou como fenômeno da consciência, individual ou coletiva, que acompanha uma palavra ou um objeto ou um conjunto de palavras ou de objetos. Segundo ele, as representações se formam entre o concebido (que se constitui do ideário e do discurso teórico dos sujeitos sobre o saber a ser criado e divulgado) e o vivido (que é formado pela vivência singular de cada sujeito e pela vivência coletiva e social dos sujeitos envolvidos num contexto específico). As representações ocupam os intervalos e os interstícios entre o sujeito e o objeto, entre a presença e a ausência, entre o vivido e o concebido (LEFEBVRE, 2006:106). Lefebvre (2006:30) acredita que “A ação humana esclarece as representações porque as atravessa, as utiliza e a supera. A representação esclarece a ação humana porque é necessária e não suficiente, superficial, é definida por si e sobre uma superfície, remetendo a uma prática, a uma produção, a uma criação”36.
O pensamento dialético de Lefebvre, que tem a representação como parte e mediação para entender a realidade (SEABRA, 1996), corrobora o entendimento das representações em arquitetura, conforme adotado neste trabalho. Da mesma forma que Monteiro defende a importância das representações sociais para entender a cidade, o projeto (autoria de arquiteto) e o desenho (feitos pelos moradores) são mais que instrumentais técnicos ou meios para expressar uma idéia. São também representações de uma concepção de espaço, resultante de interações sociais, em que estão atreladas percepções do mundo. A partir deste entendimento, os riscos no papel (COUTINHO, 1998) serão denominados de Representação Socioespacial
Assim como as representações sociais –, definidas por Moscovici como o meio para se compreender as relações entre indivíduo e sociedade, e de acordo com Lefebvre, como mediações para entender a realidade – as representações socioespaciais são parte inerente da
36No original: “la obra esclarece las representaciones porque las atraviesa, las utiliza y la supera. La representación esclarece la obra porque es necessaria e no suficiente, superficial, es decir definida sobre y por uma superfície, remitiendo a la práctica, a la producción, a la creación” (LEFEBVRE, 2006:30, minha tradução).
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arquitetura e do fazer arquitetônico. Essas Representações – expressas em projetos ou croquis – são mediações para entender o espaço concreto e a arquitetura como realidade.A “choupana rústica” de Laugier37 é um dos exemplos de que em arquitetura, uma idéia,
um princípio ou uma concepção de espaço arquitetônico pode ser elaborado, projetado, apresentado e difundido por meio de sua representação. Summerson (1994) descreve a casa primitiva como representação para discutir o conceito de beleza arquitetônica, pois esta não existia fisicamente.
era uma imagem bastante ingênua – uma estrutura sem paredes formadas apenas por quatro caibros. Podemos assumir que tal construção – obviamente inútil para qualquer um, independente de seu grau de primitivismo – nunca existiu, exceto na imaginação de Laugier. Sua sanção arqueológica era semelhante à sanção antropológica do Nobre Selvagem de Rousseau, que apareceria na cena literária alguns anos depois. Na verdade, tratava-se de uma representação simbólica, cujo sentido era indicar a existência, por trás de Roma e da Grécia, de um princípio que seria como que a essência da arquitetura (SUMMERSON, 1994:110– grifos meus).
O projeto como representação socioespacial também é evidente na obra de Le Corbusier. Vários de seus projetos não foram construídos, nem por isso inexistiram do ponto de vista da construção de uma concepção de espaço arquitetônico. Talvez nem precisasse edificar a Ville Savoye para que os cinco pontos da arquitetura moderna fossem apreendidos e seguidos por toda uma geração de arquitetos. O mesmo pode-se dizer de Tony Garnier, pois a Cidade Industrial (1918) foi projetada como representação de uma proposta de cidade utópica que preconizava princípios urbanísticos como a setorização.
Nesse sentido, as propostas em arquitetura não necessariamente deixam de existir porque não foram construídas, elas projetam uma realidade em termos de elaboração e construção de conhecimento em arquitetura. Conseqüentemente, o conceito de representação em arquitetura deve ser entendido além do uso como simulação da realidade porque abarca, por um lado, uma noção de um conhecimento da realidade socialmente construída e, por outro, porque expressa valores, idéias, estilos e projeções do espaço arquitetônico.
37 Laugier apresentou a “choupana rústica”, a qual foi considerada a fonte de toda a beleza arquitetônica (SUMMERSON, 1994).
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Em outras palavras, representar um espaço em arquitetura significa criá-lo ou apropriar- se dele, mas não substituir ou simular este espaço. Segundo Lefebvre (2006), a representação é necessária, mas não suficiente. Em termos matemáticos, isso significa que ela é importante e inevitável, mas não se esgota em si mesma, portanto, não é necessária e suficiente.A arquitetura enquanto arte é um símbolo que transmite ou representa visões de mundo. No entanto, não se restringe à expressão do mundo das idéias ou dos sentidos, pois não é cenário, mas é espaço concreto e vivido. Neste sentido, não é apenas um signo38 como um
objeto que representa algo distinto de si mesmo, mas é mediação através do projeto, do espaço real39 ou uma formulação de conceitos arquitetônicos.
Os gráficos no papel (Coutinho, 1998) são uma mediação no sentido que representam a
expectativa do autor e até um conceito de espaço (projeto) ou expressam as percepções ou apreensões das pessoas ao desenhar o espaço que habitam (croquis da planta-baixa). Nos termos de Lefebvre, isso é representação, uma ante-sala do que virá a ser o espaço arquitetônico edificado ou existente, pois “o poder das representações está também em seu anúncio do porvir” (Lefebvre, citado por LUFTI et al, 1996:96). As figuras 1.1 e 1.2 mostram dois gráficos no papel (o projeto original e o croqui dos moradores) fundamentais, do ponto de vista metodológico, para que o espaço concreto fosse atingido sob os aspectos abordados nesta pesquisa.
38 Signo é todo objeto, forma ou fenômeno que representa algo distinto de si mesmo: a cruz significando “cristianismo”; a cor vermelha significando “pare” (código de trânsito); uma pegada indicando a “passagem” de alguém; as palavras designando “coisas” (ou classes de coisas) do mundo real. (Novo Dicionário Aurélio da Língua
Portuguesa, p. 1584).
39 Lefebvre, em uma crítica severa a fetichização da linguagem por parte de Saussure, afirma: “El signo y la significación a nivel de la palabra se desprenden de las cosas y del conocer em general, para volverse autônomos. El signo no es sino la representación de una representacioón. Cuando se mira um objeto como representado a otro, ese objeto se llama signo y tiene función de signo” (LEFEBVRE, 2006:25).
Figura 1.1 – Projeto Original – SQSW 102 – Bloco F
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Figura 1.2 –SQSW 102 – Bloco F – Desenho do(a) morador (a)
Conseqüentemente, as Representações Socioespaciais, conforme identificadas neste trabalho, são mais que mero instrumental técnico, pois expressam conceitos, idéias de espaço e representam os espaços habitados, apropriado pelos moradores. Por não serem suficientes (LEFEBVRE, 2006) são mediações para entender uma proposta de jeito de morar e, portanto, são necessárias para entender a relação sujeito, espaço e sociedade.
As representações socioespaciais são parte inerente da arquitetura, não apenas como ferramenta, mas como expressão de um discurso ou de uma concepção de espaço arquitetônico (mediação). Hanson (1998) afirma que casas devem ser entendidas como sistemas e que elas “são sensíveis a relações sociais somente quando constroem e contêm interfaces entre diferentes tipos de habitantes e diferentes categorias de visitantes”40. Se a moradia pode ser
entendida como um sistema socioespacial (HANSON, 1998), então sua representação (o projeto ou croqui) é uma representação socioespacial da moradia. Portanto, a arquitetura é realidade (Coutinho) e o projeto, como mediador para entender a realidade, é também representação (Lefebvre).
40 No original: “Houses are sensitive to social relations only insofar as they construct and constrain interfaces between different kinds of inhabitant, and different categories of visitor.” Hanson, 1998, pág. 77. (minha tradução).
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