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Avsluttende oppsummering

A teologia existe para prestar à fé e aos seres humanos esse serviço explícito de fazer o discurso da fé sobre o ser humano e de dizê-lo no conjunto de todos os outros discursos.

Adolphe Gesché O lugar próprio do discurso teológico sobre o ser humano, na relação transdisciplinar, se encontra na tarefa de acompanhar o espírito humano e resgatar seu sentido integral que as outras ciências deixaram fragmentado e incompreensível. Mas nem tudo fala do mesmo modo ao ser humano em cada época. Aproximar-se desse novo evento antropológico, que é o pós- humano, é assumir, no mínimo, responsabilidade histórica – como se disse é tarefa transdisciplinar que, para tanto, requer a coragem de rever interpretações e prudência de não extrapolar dados.

Em outras palavras, que a teologia não seja antropologia isto é certo. Mas que fale também do ser humano, em muitas dimensões, mais cabalmente do ser humano em relação com Deus, é fato. Assim, a função do discurso teológico nesta pesquisa se encontra na tarefa de resgatar o sentido integral da condição do humano no pós-humano no contexto de fragmentação das ciências. E ao tratar da relação do humano com Deus, o elemento interativo é direcionado a Jesus Cristo. Dessa forma, cabe-nos particularmente, apresentar uma hermenêutica do humano a partir de Jesus Cristo, como princípio reconstrutor da integralidade humana. Além disso, é vantajoso para o ser humano não correr o risco de uma compreensão de si mesmo apenas por meio da imanência. Por isso, o discurso teológico pode contribuir de modo relevante, repensando os conceitos implicados em diálogo estreito com a filosofia, a antropologia e a fé em Cristo.

Para a teórica política alemã Hannah Arendt a questão do ser humano não é menos teológica que a questão de Deus.144 Pois a teologia, ao lado de outros discursos sobre o ser humano e tanto quanto eles, propõe respostas que podem interessar à antropologia. É por isso que a teologia ousa e pode dar sua contribuição: “certamente seu discurso refere-se antes a Deus. Mas refere-se também ao ser humano, na medida em que a teologia em grande parte pensa Deus para pensar o ser humano”. E logo em seguida continua o teólogo belga Adolphe Gesché, “após a Encarnação, se tornou impossível para a fé expressar-se a não ser vendo Deus e o ser humano intersignificando-se”.145 A teologia deve, falando a partir do seu lugar,

oferecer ao ser humano um discurso específico e que somente ela pode oferecer: o discurso

144 Para melhor compreensão cf. ARENDT, H. Condition de l´homme moderne. 145 GESCHÉ, A. O ser humano, p. 6.

humano sobre Deus e o discurso de Deus sobre o ser humano num intercâmbio de significados. Diz Adolphe Gesché: “a teologia é sempre apresentada não somente como um discurso (do ser humano e/ou de Deus) sobre Deus, mas como um discurso de Deus sobre o ser humano”. E continua a dizer: “Deus é visto como tendo uma idéia sobre o ser humano. Note-se, portanto, que há na teologia um discurso sobre o ser humano, pelo fato de ela falar de um Deus que fala do ser humano”.146

Como toda ciência, a teologia possui uma trajetória metódica, sempre contemporânea de seu período histórico. Mais do que discorrer sobre a história da teologia, que é longa e requer aprofundado estudo,147 se quer mostrar a importância da sua contemporaneidade histórica, através de seu método epistemológico, “pois a eficácia da teologia está em ser contemporânea de seu período histórico”.148

Com a morte das últimas pessoas que foram testemunhas de Jesus Cristo, as questões doutrinais já não podiam ser mais resolvidas apelando para a autoridade apostólica. Aí nasce o momento decisivo para a teologia: refletir a partir da doutrina recebida de Cristo através dos Apóstolos e ser fiel a esta doutrina, enfrentando as situações que inevitavelmente surgiriam com o desenvolvimento do cristianismo pelas diversas regiões e culturas por onde a fé lançaria suas raízes. A literatura apostólica, do início do cristianismo, foi de grande importância para preservar e estabelecer uma teologia sadia. A leitura e os comentários das Sagradas Escrituras, ao mesmo tempo em que se constituíam como método, ofereciam grande riqueza ao mundo cristão.

Consideráveis também são os pensamentos teológicos elaborados pelas teologias primitivas em Alexandria, Cartago e Antioquia, entre outras. Nesse decorrer histórico, conhecida foi sua forte relação com a filosofia – de um lado a teologia como ciência de Deus comunicada pela revelação e de outro a filosofia como aquela ciência humana alcançada pela autonomia do pensamento humano. Esse embate pode ser encontrado ao longo de toda história do cristianismo.

O final do segundo século e início do terceiro representou um momento importante para a teologia especialmente pelo seu deslocamento geográfico mais intenso para o norte da

146 GESCHÉ, A. O ser humano, p. 31.

147 Para um estudo aprofundado cf. MARKUS, Robert A. O fim do cristianismo antigo; COLLINS, Michael.

PRICE, Matthew A. História do cristianismo. GIBELLINI, Rosino. A teologia do século XX; GIBELLINI, Rosino. (Org.) Perspectiva teológica para o século XXI; GONÇALVES, P. S. L. Por uma nova razão

teológica.

África. Ao longo do tempo, o cristianismo teve que enfrentar dificuldades de diversas ordens. Algumas internas e outras externas. Realizaram-se os Concílios, os quais foram primordiais para o desenvolvimento da teologia, pois, neste período, a teologia aprofundou conceitos doutrinais e o magistério definiu formulações de fé que se constituíram a base da fé cristã de todos os tempos.

No período conhecido como baixa Idade Média se desenvolveu a teologia escolástica, como um movimento generalizado e de grande vigor. Seu valor místico e de método peculiar, revelava um caráter universalista da teologia. Em sua plenitude a escolástica evidenciou a importância da relação entre a universidade e a teologia, entronizando numa e noutra grandes pensadores e produzindo grande impacto no ambiente universitário, conseguido uma síntese harmônica entre a filosofia e a revelação. Grandes nomes das gerações na universidade de Paris continuam ainda hoje a colaborar com a teologia enquanto ciência. Posteriormente, conhecidos são os movimentos da reforma protestante e da contrareforma. Eles, por sua vez, exigiram um olhar teológico atento aos conteúdos de fé colocados em questão.

As grandes transformações sociais e políticas que se sucederam do final do século XVIII ao início do século XX exigiram ainda maior atenção por parte da teologia. A crise da época deu lugar a uma ampla discussão teológica que foi denominada de modernismo, condenado posteriormente. Porém, seria injusto identificar o início do século XX apenas com o movimento modernista. Desde os primeiros momentos do século, a vida cristã conheceu uma série de iniciativas e movimentos que contribuíram para a teologia continuar o processo de renovação já iniciado no século XIX. O período entre as duas grandes guerras foi especialmente fecundo na teologia da França e Alemanha. Certamente este florescimento é fruto da recuperação da escolástica e do pensamento cristão levado a cabo pelos neo-tomistas. Outro elemento importante foi a virada antropológica no método teológico, de maneira que, desde o ser humano e a partir dele, se aceda aos conteúdos da revelação cristã apresentados como realidades que correspondem ao que o sujeito já percebeu em si.

No período atual, atendendo aos sinais dos tempos, a teologia tem se deparado com novas realidades. Para considerar a diversidade de vidas no universo e a peculiaridade do ser humano colocada pela fé, a teologia tem tentado se conduzir por um método epistemológico que corresponda à centralidade da vida – a teologia é a ciência da crítica da fé compreendida em sua totalidade histórica. E nesse aspecto, para que “seja efetivamente eficaz no interior do clima intelectual pós-moderno, torna-se necessário enveredar-se pelo caminho da

hermenêutica...”149 A teologia, diante da pluralidade de situações, deverá ser criativa e fiel

para cumprir sua missão de suporte da evangelização. O que lhe confere credibilidade teórica é seu rigor quanto à organização histórica, sistematização teórica e método científico.

Nesse cenário, a reflexão cristológica apontando para além de si mesma revela também o lugar do ser humano na história. O lugar vivencial da cristologia não se resume no discurso sobre a transcendentalidade de Jesus Cristo. Busca, além disso, compreender sua historicidade, permitindo ao ser humano tomar consciência de sua humanidade na comparação com o divino. Nesse sentido, a teologia jamais deixará de ser contemporânea de um determinado período histórico do ser humano – e não diferentemente será do pós-humano. Portanto, o desafio da teologia atual está em “forjar um método epistemológico eficiente para compreender o significado da lógica da razão sensível, necessário ao contexto pós-moderno, capaz de ser complexa, nômade, aberta, transversal, plural e flexível”.150 Com

isso se constituirá em seu propósito transdisciplinar, reforçando a sua identidade como ciência e reflexão da fé, visando a sua contemporaneidade científica.

A verdadeira tarefa da teologia é a de manter viva e atuante a experiência da revelação: “não há dúvida de que as dificuldades são grandes, devido à mudança enorme e revolucionária produzida na cultura. Mas talvez seja justamente a radicalidade da mudança que abre a autêntica possibilidade da solução”,151 mesmo que esta não seja esperada

medianamente unânime e plenamente satisfatória. Nesse sentido, a linguagem científica goza de um forte privilégio, mas em todo caso não é a única que consegue fazer-se ouvir e obter êxitos. Cabe à teologia resgatar o discurso que as outras ciências do ser humano não tornam compreensíveis, ou seja, fugindo de superstição ou alienação e estando atenta aos sinais dos tempos, redizer a importância do significado da condição humana para a atualidade.

Espera-se que o inevitável pós-humano venha a se delinear pela melhor vertente do humano e que nesse caminho acabe fazendo a experiência de Deus como afirmação plena do humano. Nesse sentido é tarefa procurar demarcar a zona de contato entre fé e pós- humanidade, numa dialética do melhor com o melhor.

149 GONÇALVES, P. S. L. Por uma nova razão teológica, p. 27. 150 Ibidem, p. 27.