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Flávia Preto de Godoy Oliveira

Este trabalho apresenta parte das análises realizadas em um dos capítulos de minha dissertação de mestrado, na qual figuram discussões acerca do processo de apreensão da natureza americana por meio das leituras das crônicas quinhentistas durante os séculos XVI, XVIII e início do século XIX. Em minha pesquisa, Alexander von Humboldt tornou-se uma figura emblemática justamente por recuperar, em suas obras, uma imagem de natureza americana exuberante ao mesmo tempo em que valorizava as crônicas produzidas no início do período moderno sobre o Novo Mundo como fontes de informação e conhecimento. Ao investigar as concepções de História e Natureza na obra de Humboldt, foi possível perceber como tais processos eram intrínsecos, ou seja, como a construção de uma representação do mundo natural do continente americano opulento e não detratado permitiu a retomada de diferentes ideias e elementos discursivos presentes nas crônicas; concomitantemente, a leitura de obras como as de José de Acosta e Oviedo reforçava determinada percepção da natureza americana. Assim, nas páginas a seguir analisarei as relações entre a noção de história formulada por Humboldt e suas leituras das crônicas hispânicas sobre o Novo Mundo1.

Flávia Preto de Godoy Oliveira, Doutoranda em História Social pelo Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na Universidade de São Paulo, USP.

1 O texto integral contendo toda a pesquisa realizada em torno da temática está disponível em minha

dissertação de mestrado intitulada Entre o fabuloso e o verossímil: crônicas e epistemologias no processo de cognição da América. 2010. Dissertação (Mestrado em História)- Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. Disponível em: <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000478338>.

Alexander von Humboldt (1769-1859) foi considerado um dos mais importantes naturalistas da primeira metade do século XIX, conhecido, sobretudo, por sua expedição ao continente americano entre 1799 e 1804. Embora parte considerável de seu trabalho intelectual esteja ligada às ciências naturais, não podemos circunscrever suas obras e ideias somente a esse campo de reflexão. Da mesma forma, não é possível sintetizá-las como relatos ou narrativas de viagem. Humboldt inseria seus trabalhos como parte de uma tradição científica e, assim sendo, considerava-se portador de discurso notadamente científico. Como afirmou Oliver Lubrich (2003), Alexander von Humboldt desafia as definições genéricas, sendo o seu um texto polissêmico, não apenas em relação à autoria, mas no que concerne ao objeto, aos destinatários e à estrutura textual em si. Essa pluralidade talvez esteja associada à pretensão de apreender a realidade em sua totalidade.

Se há dificuldade em categorizar os escritos de Humboldt, como podemos, então, pensar sobre sua concepção de história? Como compreender o que seria seu pensamento histórico, se sua forma de pensar imbricava aspectos que hoje estão segregados do fazer historiográfico? E mais, como analisar sua relação com fontes como as crônicas? Propor algumas respostas a esses questionamentos é o objetivo deste artigo. Em um primeiro momento, apresentarei a concepção de história que permeia algumas obras e passagens de Humboldt, para em seguida analisar suas relações com as crônicas do século XVI.

A bibliografia tradicional sobre Alexander von Humboldt focaliza suas análises nos aspectos que envolvem as viagens, a geografia, a botânica e as ciências físicas, bem como destaca as suas observações das sociedades que visitou durante seu trajeto pela América e outras regiões do mundo (Labastida, 1999 e Flores Torres, 2003). Há ainda poucos estudos voltados a uma investigação do pensamento histórico de Humboldt. Contudo, a história não ocupou um papel coadjuvante em suas reflexões; muito pelo contrário, em momentos inesperados, observa-se a menção a dados referentes ao passado ou ainda considerações e comparações históricas (Lubrich, 2001: 750).

A presença da argumentação histórica em diversas passagens do texto de Humboldt, inclusive quando abordava assuntos ligados às ciências naturais, estava conectada ao surgimento da geologia moderna, bem como aos estudos de fósseis de animais. O início dos estudos geológicos modernos obrigou os pesquisadores do período a considerar o tempo como parte constituinte da natureza, ou seja, o mundo natural

deixou de ser encarado como algo atemporal, fixo e imutável, passando a ser visto como possuidor de sua própria historicidade, independentemente da ação humana que, embora lenta, por ser constante, provocou alterações profundas naquilo que se conhecia como globo ao longo de milênios. Além disso, a fixidez das espécies ruiu frente aos estudos de Georges Cuvier e contemporâneos, tendo eles provado que diversas espécies que já tinham povoado a Terra não mais existiam e que, neste aspecto, a questão do tempo era crucial para compreender a formação do globo.

Partindo dessa nova premissa – o tempo – para compreender a natureza, as descrições de localidades ou tipos de paisagens eram historicizadas por Humboldt; suas formações geológicas, estudadas e suas ocupações, apontadas como meio de caracterizá- las. No entanto, isso não significa que o humano possa ter papel de destaque nessas considerações. As menções às ações humanas, como apontou Luiz Estevam de Oliveira Fernandes, eram feitas mais como meio de entender as alterações na natureza do que pelo seu próprio valor (2009). É o caso, por exemplo, da descrição das estepes americanas presentes nos primeiros capítulos de Quadros da Natureza. Visando a ressaltar o domínio da natureza nessa região, Humboldt apontava os poucos sinais de presença humana e os escassos atrativos à sedentarização humana, bem como o fato de que a atividade pastoril seria, segundo ele, desconhecida dos povos americanos até a chegada dos europeus (Humboldt, 1970: 13-14). Portanto, a história servia como auxílio na caracterização do quadro natural que se tentava narrar, na formação da impressão total da paisagem.

Alexander von Humboldt possuía também um grande interesse pelos vestígios e monumentos construídos por povos americanos antes do século XVI. Escreveu sobre as principais edificações e alguns artefatos americanos, como a Pirâmide de Cholula e a imagem do sol nas rochas dos incas. Em Sites des Cordillères et Monuments des Peuples Indigènes de l’Amérique (1989), Humboldt justapôs, em suas descrições, fragmentos de paisagens e de história, em uma associação não justificada e nem explicitada pelo autor (Taylor, 1989: vii), que, contudo, pode ser entendida a partir da argumentação apresentada acima. A justaposição entre monumentos e lugares se dava justamente porque os primeiros compunham as paisagens que o naturalista tentava relatar; indissociáveis, seu estudo somente ganhava sentido dada esta conexão. Contudo, os monumentos não eram encarados exclusivamente por serem fruto do trabalho humano, mas como elementos daquele cenário, o qual o naturalista tentava descrever para os leitores europeus.

O interesse em relação ao passado americano não estava restrito aos povos ditos pré-colombianos e seus monumentos. Em algumas obras, Humboldt ofereceu passagens nas quais analisa a chegada dos europeus ao continente americano, as conquistas e muitas vezes a sociedade colonial da América espanhola. Entretanto, foi em Examen Critique de l’histoire de la géographie du nouveau continent que pôde ser observada a faceta historiográfica de Humboldt. Nessa obra, tentou esquadrinhar as origens e o desenvolvimento dos conhecimentos geográficos e astronômicos que permitiram as grandes realizações ibéricas no início do período moderno. Para tanto, não se furtou de examinar as fontes às quais tinha acesso.

Contudo, o caráter histórico do pensamento de Alexander von Humboldt não estava restrito a essa obra. Ele também estava presente na forma como encarava o trabalho do naturalista. Em diferentes obras, não eram incomuns as associações, as comparações e as analogias entre os ofícios do historiador e do naturalista, como no trecho a seguir: “[...] Na descrição da natureza, como na crítica histórica, os fatos permanecem isolados durante muito tempo, até que se logra a ventura, à custa de muitos esforços, de os reunir em grupo, constituindo um todo”. (Humboldt, 1970: 35)

Logo, para Alexander von Humboldt, não haveria uma ruptura entre a atividade realizada por aquele que se dedicava ao estudo do passado e o indivíduo que se concentrava no estudo do mundo natural. Embora em diferentes esferas, ambos deveriam nortear-se por métodos racionais; ambos procuravam, pelo estudo de peças isoladas, formar um quadro complexo, dando a ideia do todo, seja esse todo a impressão total de uma paisagem ou ainda o conhecimento de determinado período.

Os fatos isolados, segundo Humboldt, deveriam ser reunidos pelo historiador. Para tanto, o contato com as fontes era fundamental. Comungando dos pressupostos defendidos por grande parte da intelectualidade alemã sobre a história, Humboldt integra o estudo minucioso e crítico dos documentos, os quais, segundo o próprio autor, não se restringiam às obras publicadas, sendo comum o contato com arquivos.

Humboldt também compartilhava de uma ideia de progresso no transcorrer dos séculos, especialmente no que concerne ao desenvolvimento da razão e das ciências. Tal progresso humano seria visível na aplicação constante do pensamento racional para o controle do mundo físico e cultural. Nas passagens e obras em que se dedicava ao estudo do passado, Humboldt deu indícios de que a história não se constituiria a partir de

rupturas ou descontinuidades que definiriam períodos ou eventos. Ao contrário disso, acreditava que os grandes eventos estavam conectados a fatos e esforços das épocas anteriores e concebia a História como um contínuo progresso da razão. Para Alexander von Humboldt, as causas dos acontecimentos não deveriam ser buscadas em fatos próximos, mas nas ações lentas, múltiplas e simultâneas que os precederam.

Muitas vezes não é o curso dos acontecimentos de maneira alguma acidental. Os fatos que em determinadas épocas da história nos revelam inesperado engrandecimento do poder do gênero humano, são produto, como na natureza orgânica, de uma ação lenta e quase sempre de difícil compreensão. (Humboldt, 1914: 7)

Apesar de enfatizar o desenvolvimento da razão enquanto cerne do trabalho historiográfico, Humboldt afastava-se da postura iluminista de desprezo e aversão a determinadas épocas do passado; para ele, as características de cada período deveriam ser descritas e valorizadas, justamente por reconhecer que o passado foi um estágio importante para se alcançar o presente. Além disso, metodologicamente, para Humboldt, era necessário ser cauteloso com as fontes e atestar a veracidade das informações contidas nelas, um rigor com a documentação muito maior que a postura dos iluministas que o precederam. Como afirmou Edmundo O’Gorman (1992: 49-50), o pensamento de Humboldt pode ser ligado à concepção idealista alemã de história; suas ideias estavam pautadas em uma visão teleológica de história, a partir da qual um devir histórico pode ser percebido na articulação dos acontecimentos.

Fugindo de classificações, não pretendo definir Humboldt como um historiador idealista ou mesmo romântico, uma vez que não é o objetivo deste estudo. Como foi apontado anteriormente, há que se considerar o trabalho de Alexander von Humboldt em sua integralidade. Sua concepção de história estava imbricada a suas atividades como naturalista, tornando-a, assim, singular. Para Humboldt, o passado era uma etapa para o desenvolvimento humano que conduziu ao presente. Sendo a América um de seus objetos centrais de investigação, é possível compreender seu interesse pelas origens da chegada dos europeus ao Novo Mundo e sua posterior colonização.

Alguns pesquisadores dedicaram-se ao estudo da relação entre Alexander von Humboldt e as fontes sobre o Novo Mundo produzidas no século XVI. Entre eles, Sandra

Rebok (2001) afirma que Humboldt, além de possuir um vasto conhecimento sobre as fontes espanholas, seria um continuador das ideias dos cronistas devido à sua forma de pensar binominal, isto é, integrando o estudo da natureza e da moral na apreensão da totalidade. Já Mary Louise Pratt (1999) aponta as semelhanças entre as descrições da natureza primitiva e exuberante presente nas crônicas e nas obras do naturalista prussiano. O historiador equatoriano Jorge Cañizares Esguerra (2007) defende que a postura de Alexander von Humboldt marcou uma ruptura frente às práticas anteriores e está associada a uma nova concepção de história e de entendimento dos povos americanos, conectando-a, portanto, a novos pressupostos para constituição do conhecimento sobre o Novo Mundo.

Ainda que os pesquisadores mencionados apresentem pontos fundamentais para compreender a leitura das crônicas realizada por Humboldt e de fato realizem estudos que vão além da simples designação das obras utilizadas, a análise de alguns trechos de Examen Critique de l’histoire de la géographie du nouveau e Quadros da Natureza pode contribuir para um entendimento mais aprofundado do assunto.

Embora Alexander von Humboldt cite com frequência o contato com documentos manuscritos preservados em arquivos, as fontes do início do período moderno mais citadas em suas inúmeras notas foram crônicas, diários e obras impressas, as quais circulavam e estavam à disposição nas bibliotecas europeias. Nessas citações é possível visualizar múltiplas atitudes do autor ante os documentos sobre a América produzidos no início do período moderno; longe de encará-los de maneira imutável do início ao fim da obra, nota-se que o posicionamento (de crítica, valorização, comparação) de Humboldt se transforma conforme o tema tratado.

Com objetivo de tornar mais compreensível o uso que Alexander von Humboldt faz das crônicas, foram agrupadas em quatro conjuntos que correspondem a posturas diversas do naturalista em relação a essas fontes.

A crônica como documento para o estudo do passado comprovando