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Kapittel 8: Konklusjon og oppsummering

8.2 Avsluttende kommentar

Sem sombra de dúvidas um dos fenômenos sociopolíticos e culturais mais relevantes na América Latina nos últimos trinta anos tem sido o que Bengoa (2007) classifica como “emergência indígena”, isto é, a conscientização e empoderamento de novos atores sociais cujas demandas políticas se amparam na afirmação de identidades coletivas de fundo étnico.

A hipótese trabalhada pelo autor é a de que nesse período, na América Latina, muitas pessoas que se reconheciam – ou que se deixavam reconhecer - como camponeses, caboclos ou paisanos, começaram a se auto definirem como indígenas, indicando assim um processo de

Ramon Maíz (2007, p.411), quando afirma que esse processo representa uma estratégia identitária que privilegia a dimensão econômica, política e cultural das comunidades indígenas como grupos étnicos dotados de uma identidade coletiva, frente à imposição de uma identidade classista e liberal de corte camponês e/ou mestiço.

De maneira geral, é correto dizer que a reafirmação dessas identidades étnicas no período aqui discutido foi diferenciada daquelas ocorridas em outro momentos da história. No processo atual, os movimentos indígenas tenderam a se apropriar de técnicas, discursos, instrumentos e instituições típicas da modernidade (incluindo aí, em certos casos, o próprio Estado) não mais para se retraírem às suas comunidades originárias, em uma espécie de isolamento ou “auto apartheid”, mas sim para impulsionarem um projeto diferenciado de modernidade e de Nação (BENGOA, 2009, p.7).

Como aponta Chapoy (2007, p.95), as organizações indígenas que foram criadas dentro desse processo social não ressurgiram, despertaram ou foram resgatadas de um passado ancestral. Pelo contrário, são reflexo de processos tipicamente modernos, tal qual a liberalização fundiária e as tentativas de objetivação das comunidades via políticas integracionistas. Como salienta Ivon Le Bot:

Lo que hace ejemplares y expresivos los movimientos indígenas modernos es la combinación de una voluntad de emancipación y de un proyecto de construcción de un sujeto, individual y colectivo. Son sublevaciones contra las fuerzas de objetivación – externas e internas de la comunidad - y tentativas para constituirse en actores y sujetos a partir de la diferencia étnica. Son luchas por deshacerse de la indianidad negativa (el indio como producto colonial y neocolonial) y convertirla en indianidad positiva, luchas por el reconocimiento, por la identidad, que articulan reivindicaciones socioeconómicas y políticas con la movilización de recursos culturales (LE BOT, 1998, p.203).

É interessante comentar que parte do êxito logrado na articulação dessas organizações se deu, em grande medida, justamente pela apropriação de técnicas modernas de comunicação, o que permitiu ampliar consideravelmente a interação e o intercâmbio entre as diversas comunidades ou regiões, além, é claro, de facilitar a divulgação de relatos, demandas e processos pelos próprios atores indígenas. Mais uma vez podemos nos remeter ao EZLN, que logrou já em 1994, ainda no começo da era virtual, difundir seus comunicados e declarações via Internet, tornando o movimento mundialmente conhecido - fator importantíssimo aos desenlaces políticos e militares posteriores. Desnecessário afirmarmos que a apropriação de tais ferramentas não os fazem menos indígenas, como querem alguns

essencialistas da cultura.

Outro elemento importante para a conformação destas organizações foi o fator educativo, no sentido da apropriação da racionalidade dita ocidental por parte de jovens indígenas, que passaram a se apropriar de tais discursos em prol do fortalecimento da própria alteridade:

Conforme más y más jóvenes indígenas pasan por el sistema educativo formal y logran obtener posiciones profesionales como agrónomos, maestros, médicos, abogados etc., ha surgido una elite intelectual indígena en varios países latinoamericanos que se está transformando en la fibra vital de las nuevas organizaciones. Los intelectuales indígenas están involucrados activamente en desarrollar el “nuevo discurso indígena” que otorga a estas organizaciones su legitimidad y sus identidades distintivas. No solamente se ocupan de formular la agenda política de sus movimientos, también redescubren sus raíces históricas, se preocupan por la lengua, la cultura y la cosmología, y se involucran activamente en “inventar tradiciones” y construir nuevas “comunidades imaginadas”. En la medida en que la nueva intelligentsia indígena participa en redes nacionales e internacionales y logra difundir su mensaje hacia otros sectores de la población, y en la medida en que es capaz de movilizar recursos y obtener cierta cantidad de “bienes colectivos” (recursos materiales y políticos, reconocimiento público y legal, etc.), los intelectuales indígenas se han transformado en vínculos indispensables en el proceso de organización y movilización (STAVENHAGEN, 2002).

Tais fatores permitiram o surgimento de organizações indígenas de diversos tipos e escalas de atuação, das quais poderíamos citar ao menos três. Primeiramente estão aquelas reunidas em torno a uma identidade étnica específica, como, por exemplo, a confederação Mapuche, no Chile. Em segundo lugar estão aquelas cujo elemento unificador é uma região geográfica, sendo estas, em geral, pluriétnicas, tal qual a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira. Em terceiro lugar, em um feito praticamente inédito na história dos movimentos indígenas latino-americanos, estão as organizações que buscam uma articulação ao nível nacional, o que apesar de apresentar dificuldades no que toca à representatividade, seguramente lhes permite uma maior força política frente ao Estado (DÍAZ-POLANCO, 1997, p.154)31. No mapa a seguir podemos ter um panorama das

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Henri Favre (1999, p. 137) possui certa razão quando afirma que boa parte da população indígena, especialmente aquela que vive em zonas rurais ou afastadas dos centros urbanos, não está concretamente afiliada a essas organizações, fato que acaba por questionar sua representatividade nacional. Entretanto,

organizações deste terceiro tipo, além de seu ano de surgimento e a porcentagem da população indígena dos respectivos países (Mapa 2).

Tais movimentos passaram a atuar com uma forte crítica aos fundamentos do indigenismo e, em alguns casos, à própria ideia de Nação adotada pelas Repúblicas Latino- americanas ao longo de sua história. Tal crítica ocorre não no sentido da negação do pertencimento, mas, pelo contrário, na busca de formas de participação mais efetivas e democráticas mediante a formulação de projetos nacionais alternativos e não homogeneizantes32 (SÁNCHEZ, 1999).

Apesar de muitas semelhanças não é possível entendermos tais organizações de forma estritamente homogênea, pois, de acordo com as particularidades de cada contexto nacional, elas elaboraram demandas específicas e formas próprias de atuação (SÁNCHEZ, 1999, p.16).

Nesse sentido, Christian Gross (1998) afirma que, apesar de praticamente todas estas organizações terem surgido no contexto da crescente deterioração material resultado do esgotamento dos “projetos nacionais-populistas” (iniciados após a crise de 1929), distintos fatores estruturais as impulsionaram politicamente. Segundo o autor, uma análise acurada deve distinguir os movimentos das chamadas “terras altas” daqueles das “terras baixas”. Não obstante tais elementos nem sempre estejam presentes de forma nítida como Gross expõe, a distinção realizada pelo antropólogo nos parece bastante útil.

Nas populações indígenas das terras altas - categorização que apresenta características da população chiapaneca -, as organizações se apresentam como uma resistência à marginalização em um contexto de crescimento demográfico, falta de terras, crise da pequena produção e alta competitividade do mercado e do livre comércio. “Aquí”, diz Gross, “la población indígena no es sino un caso particular en el seno de la producción agrícola familiar abocada a modernizarse o desaparecer. Un sector que sufre más que los otros de lo exiguo de sus territorios, de la debilidad de sus recursos y del abandono del Estado” (GROSS, 1998, p.185).

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Este é um ponto importante, pois desconstrói os argumentos que vinculam tais movimentos a projetos separatistas no sentido de reclamarem a criação de um outro Estado-nação estritamente indígena. Como no caso zapatista, onde a bandeira mexicana e a do EZLN sempre aparecem lado a lado, ou então a dos indígenas da região colombiana do Cauca, onde a bandeira guambiana ondeia ao lado da colombiana, a grande maioria destes movimentos reafirma o pertencimento à nação em questão, enfatizando que lutam justamente pela democratização da mesma.

A “EMERGÊNCIA INDÍGENA” NA AMÉRICA LATINA