Na direção de se construir o espaço de discussão sobre o trabalho, pode-se agregar a este processo a questão da significação do trabalho para quem o realiza. Watson (1995) faz uma análise sobre a orientação para o trabalho, do ponto de vista daqueles que o realizam, como forma de se investigar as várias maneiras nas quais diferentes indivíduos e grupos abordam seu trabalho. Esta análise parte da significação vinculada pelos indivíduos ao seu
trabalho e no qual este se predispôs a pensar e agir de forma particular em vista daquele trabalho, tendo por base pesquisas realizadas como trabalhadores braçais.
Na análise desenvolvida, esse autor toma como ponto de partida uma distinção fundamental entre o significado do trabalho no qual o trabalho oferece satisfações intrínsecas para as pessoas e significados nos quais se reconhece somente satisfações extrínsecas. Esta dicotomia permite estabelecer dois tipos extremos de significação do trabalho e sugere um
continuum ao longo do qual a posição atual dos indivíduos pode ser alocada como sugerido na
Figura 4.
Trabalho o qual dá
SATISFAÇÃO INTRÍNSECA
SATISFAÇÃO EXTRÍNSECA
Trabalho é uma experiência enriquecedora Rendimento do trabalho sem valor em si mesmo
Trabalho prove desafios para o individuo O trabalho torna um meio e um fim
O indivíduo se desenvolve e se completa no trabalho
A satisfação humana ou realização é requerida fora do trabalho
O trabalho tem um
SIGNIFICADO EXPRESSIVO O trabalho tem um SIGNIFICADO INSTRUMENTAL
FIGURA 4. Significados do trabalho: um continuum.
Fonte: Watson (1995, p. 119).
Watson (1995) observa que, infelizmente, esta essência binária na forma de olhar o significado do trabalho para os indivíduos tem encorajado um debate do tipo “ou um ou outro”. Muitas discussões das atitudes e motivação no trabalho têm-se centrado sobre a questão se, de um modo geral, as pessoas genericamente estão intrinsecamente ou extrinsecamente orientadas para o trabalho. Por esta razão, é frequentemente debatido, por um lado, se as pessoas geralmente trabalham “somente pelo dinheiro” ou “basicamente por companhia” ou, de outro lado, se elas primariamente querem “satisfação no trabalho” ou realização.
Na realidade, a forma como as pessoas tipicamente abordam seu trabalho é uma mistura destas duas inclinações e o conceito é empregado para explicar os fatores, individual e estrutural, que influenciam as atitudes e comportamentos das pessoas em relação a seu trabalho. A partir desta abordagem, esse mesmo autor considera que existem algumas orientações para o trabalho. A instrumental, cujo significado primário do trabalho é visto como uma forma de rendimento salarial e não uma fonte de autorrealização e a solidária que
tem um viés econômico, mas é limitada pela lealdade de grupo para com os companheiros ou firma e na qual fortes relações sociais no trabalho são recompensas.
Complementando este continuun, Watson (1995) apresenta um modelo que identifica os vários fatores que influenciam como os indivíduos abordam o trabalho, considerando fatores objetivos e subjetivos. Objetivamente, o indivíduo tem certos recursos como dinheiro, experiência, conhecimento ou compleição física. Subjetivamente, o indivíduo tem certos motivos, interesses e expectativas tais como construir a vida, poder ou ganhar satisfação do trabalho. Ambos os conjuntos de fatores são, por sua vez, influenciados por fatores estruturais que são formados, por um lado pela configuração estrutural da família, da classe social, da etnia e da base educacional dos indivíduos, e de outro lado, a estrutura ocupacional, a prevalência do mercado de trabalho. Todos estes fatores estão inter- relacionados como apresentado na Figura 5, tendo a estrutura de oportunidades agindo com uma influência ao longo de várias influências de não trabalho sobre as abordagens individuais para o trabalho. FATORES ESTRUTURAIS DE NÃO TRABALHO ABORDAGEM INDIVIDUAL DO TRABALHO FATORES ESTRUTURAIS DA ESFERA DO TRABALHO Classe Família Educação Raça Gênero Influência da mídia ou pares Recursos de dinheiro, experiência, conhecimento e compleição física. Motivos, expectativas, interesses e aspirações. Estrutura ocupacional e prevalência do mercado de trabalho (número e tipo das vagas de emprego)
FIGURA 5. Fatores influentes da abordagem dos indivíduos para o trabalho
Fonte: Watson (1995, p. 134).
Para Watson (1995), na sociedade capitalista a relação empregador-empregado é o espaço onde o conflito capital-trabalho se estabelece em termos de antagonismo estruturado. Cada lado da relação de emprego depende do outro enquanto também tem divergência do que quer. Isto significa que o conflito é entrelaçado com a cooperação e os dois ocorrendo conjuntamente dentro de uma forma particular de processo de organização do trabalho.
Esta relação entre empregador e empregado centra-se sobre um contrato implícito que é um acordo entre partes desiguais na qual o empregado, com base em seus motivos particulares, expectativas e interesses, tenta fazer o melhor acordo possível, dados seus recursos pessoais (experiência, conhecimento, compleição física, prosperidade etc.).
A barganha realizada envolve uma certa relação (em parte explícita, mas largamente, devido a esta indeterminação, implícita) entre os “inputs” do empregado como esforço, deterioração e entrega da autonomia e a recompensa do empregado como pagamento de salário e benefícios adicionais, satisfação do trabalho, recompensa social, segurança, status de poder, potencial de carreira.
Esta barganha6 é essencialmente instável, especialmente como um resultado do contexto do mercado no qual ele é realizado. A viabilidade de mercado sobre a parte do empregador cria uma constante pressão para minimizar os custos – isto por sua vez leva a uma pressão para que se cortem as remunerações ou incremente os esforços dos empregados – sendo um caminho para a desvantagem do empregado. Entretanto, os empregados são determinados em defender-se, especialmente, porque eles compram bens e serviços no mesmo mercado.
Paradoxalmente, a propaganda e os esforços de marketing das organizações empregadoras criam uma pressão sobre seus empregados para incrementar suas remunerações (empregados e clientes sendo em último caso as mesmas pessoas). As pressões contraditórias que operam sobre as relações de emprego estão representadas na Figura 6.
Estas significações para o trabalho, os fatores influentes da abordagem dos indivíduos para o trabalho e o contrato implícito entre o empregador e empregado, emergem ainda mais a complexidade da relação empregador-empregado. Relação que, por sua vez, reflete na relação gestor e operador já que, a figura do administrador surge em função do indivíduo empregador não dar conta sozinho da estrutura montada para o funcionamento da empresa.