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Tal como já mencionado na seção “Cinema, ruptura de tradição e experiência”, lembramos que no artigo Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas,

45 Segundo informações encontradas em http://www.boxofficemojo.com/movies/?id=hobbit2.htm, acessado

Adorno e Horkheimer criticam o uso da técnica para conferir ao cinema um aspecto de realidade. Segundo afirmam os autores, “quanto maior a perfeição com que suas técnicas duplicam os objetos empíricos, mais fácil se torna hoje obter a ilusão de que o mundo exterior é o prolongamento sem ruptura do que se descobre no filme” (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p.118). Tal semelhança com o mundo percebido fora das telas seria, para os autores, um empecilho para o desenvolvimento da imaginação e do raciocínio do espectador, tornando-o mais propenso à assimilação de ideologias, que prejudicam a formação do pensamento crítico.O artigo foi publicado pela primeira vez em 1944, e atualmente há disponibilidade de recursos que temos analisado ao longo desse trabalho que permitem criar cenas, personagens e cenários com uma precisão realista que ainda era inimaginável naquela época.

Durante a elaboração do questionário tivemos a preocupação de incluir perguntas que permitissem aos espectadores apresentar suas impressões a respeito de efeitos ou personagens e cenários, levando em consideração se estes lhes pareceram realistas ou artificiais a fim de observar como o uso dos recursos digitais aqui estudados impactaram sua experiência e identificação com esses elementos. Em outra questão, houve espaço para que os espectadores discorressem a respeito de possíveis reflexões e questionamento que tivessem surgido a partir de sua experiência com o filme em questão. Por meio das perguntas elaboradas, não houve qualquer sugestão de que as reflexões pudessem estar condicionadas ao grau de realismo do filme, a fim de reduzir o risco de sugestionar as respostas dos espectadores.

Dentre os sete espectadores de Gravidade, seis acharam os cenários realistas e não relataram nenhum incômodo que tenha surgido a partir de um efeito ou cenário de aparência artificial, embora dois desses espectadores tenham enfatizado que acharam o cenário bastante realista de acordo com aquilo que imaginam que veriam a partir do espaço, revelando que têm consciência de que aquilo que o filme apresenta é apenas a reprodução de um ambiente que eles não conhecem de fato, tendo apenas visto imagens oferecidas pelos meios de comunicação, que podem ou não ser fiéis àquilo que veriam caso tivessem a possibilidade de ir ao espaço.

Desses seis espectadores, quatro afirmaram que o filme suscitou a alguma reflexão de seu interesse. Um deles indicou o desenvolvimento de reflexões de natureza prática, bem amarradas ao enredo do filme, a partir de uma preocupação sobre possíveis danos causados por destroços de satélites em órbita.

Outros espectadores indicaram que o filme convida à reflexões a respeito de formas como lidar com a solidão, ou sobre superação pessoal em situações extremas, ou ainda sobre as sensações produzidadas pelos filmes. Embora a maior parte dos espectadores tenha afirmado que o filme oferece elementos que convidam a reflexões de seus interesses, a maior parte das respostas não incluíram o desenvolvimento das mesmas, havendo apenas comentários sobre elementos que teriam levado a reflexões sobre determinados temas, não sendo possível conhecer precisamente o teor e tampouco o aprofundamento das mesmas.

Nos questionários de O Hobbit – a desolação de Smaug, oito espectadores afirmaram que os cenários e personagens são convincentemente realistas, o que chamou nossa atenção, uma vez que trata-se de um filme que conta com seres vivos e ambientes que não existem realmente, sendo frutos da imaginação do escritor J.R.R. Tolkien, posteriormente criados de forma adequada à linguagem cinematográfica. Dentre esses espectadores, encontravam-se os cinco que haviam respondido que o filme não proporcionou uma experiência diferente das alcançadas no dia a dia, e quatro apontaram reflexões desenvolvidas a partir de sua experiência com o filme.

Um deles, encontrando-se entre aqueles que não acreditaram que o filme trouxesse uma experiência diferente, levantou reflexões voltadas à determinados valores que identificou ao longo do desenvolvimento do enredo do filme. Dois outros espectadores, ambos estudantes de letras, disseram que o filme os levou a refletir sobre adaptações de livros para o cinema. O outro espectador que levantou reflexões, deixou claro em sua resposta que tem plena consciência de que trata-se de imagens de aspecto real, mas que só poderiam existir em uma história de fantasia, e diferente do que ocorreu com os outros espectadores que acharam as imagens realistas, esse último lembra-se da tecnologia por traz do trabalho de criação de imagens, que permite que se tenha esses resultados no cinema, como pode-se observar na transcrição da resposta:

“Acredito que o Hobbit, mesmo trazendo as criaturas mais “impossíveis” no mundo real – como orcs e dragões – consegue trazer esses seres para o filme de forma bastante real, então não senti que pareceram artificiais. Acho que com a tecnologia que as superproduções de cinema possuem hoje é possível fazer isso, e como amo histórias fantásticas como essa, não fico me atentando ao que não é real. Se pensarmos no dragão Smaug, por exemplo, acredito que se pararmos para reparar em cada detalhe seria possível pensar que é algo artificial, mas para mim ele pareceu muito real e em nenhum momento algo nele me incomodou.”.

Os outros sete espectadores entrevistados a respeito do filme O Hobbit – a desolação de Smaug indicaram por meio de suas respostas alguns elementos do filme que lhes pareceram artificiais. Entretanto, observando seus relatos sobre as experiências que tiveram com o filme e as reflexões desenvolvidas, acreditamos que a presença de personagens ou cenários que não tenham mantido um aspecto realista, não tenha implicado necessariamente na quebra do envolvimento com o filme.

É o que pudemos observar por meio de respostas apresentadas, como por exemplo: “Grande parte dos cenários e personagens me pareceram artificiais. Mas uma vez “dentro” do filme, esta informação é absorvida como fato ou condição para proporcionar a “fantasia” e não me causa incômodo”, ou, “Apesar da boa qualidade, a animação de Smaug não me convence totalmente. Porém, essa artificialidade não influenciou em nada a experiência”. E mais uma vez, houve respostas cuja análise nos permite identificar o perfil de um espectador consciente de que há um trabalho que foi desenvolvido por traz de cada imagem presente no filme, identificando que não são imagens que simplesmente existem, mas que foram construídas por meio da técnica e trabalho de profissionais, e essa consciência não impede o espectador de apreciar o filme, como observamos na seguinte resposta: “Alguns (personagens ou cenários) pareceram ser artificiais, pela questão do mundo fantasioso e das criaturas que não existem na nossa realidade, mas isso não causou incômodo algum, pelo contrário. Mesmo sendo artificiais, foram muito bem feitos e produzidos.”

A partir da análise das respostas obtidas pelo questionário, bem como da observação do filme, confirmamos mais uma vez aquilo que já foi observado por Santos (2014): As técnicas digitais que têm sido aplicadas ao cinema, permitem construir uma narrativa em filmes de ação livre que era antes tipicamente observada no cinema de animação, que segundo o autor, apresentaria uma maior facilidade de conviver com o irrealismo.

Notamos que, por um lado o espectador tem contato com filmes, que graças aos recursos digitais, contam com um aspecto de realidade nunca alcançado anteriormente, e que pode contribuir para intensificar as sensações que os espectador tem a partir do filme, como vimos nas respostas de pessoas que destacaram a experiência de terem se sentido no espaço diegético do filme Gravidade. Por outro lado, esses mesmos recursos podem favorecer a ampliação certos limites do cinema de ação livre, amplificando a possibilidade de criações que exijam um maior

grau de abstração do espectador. Assim, vemos espectadores que tem contato com uma estética cinematográfica cada vez mais realista, e contudo, não consideram que o realismo seja um critério fundamental para a apreciação dos filmes e tampouco para a imersão no enredo.

E tendo observado as respostas apresentadas para os dois filmes, acreditamos que nem sempre essa imersão seja algo negativo, como um impedimento ao raciocínio crítico e à capacidade de questionamento, como identificado por Adorno e Horkheimer (1985), mas pode também permitir que o espectador aceite abrir sua imaginação para uma fantasia, e elaborar a partir dessa experiência, questionamentos e reflexões que traz para a realidade. Como mencionado anteriormente, isso não garante propriamente a superação do senso comum ou o exercício do pensamento crítico, no entanto, permite o reconhecimento de que cada espectador leve parte de suas próprias experiências para a interpretações dos filmes.