Como supramencionado a complexidade do conceito de indisciplina também advém das inúmeras causas que a podem desencadear (Carita & Fernandes, 1997; Rego & Caldeira, 1998; Amado & Freire, 2009) e quanto maior a sua conjugação maior a probabilidade de elas ocorrerem. Citando Amado (2001, p. 317) “(…) não se sabe onde começam e acabam as causas e os efeitos, a responsabilidade deste ou daquele agente, deste ou daquele fator, devido às múltiplas implicações (…)”.
Segundo Rudolf Dreikurs (citado por Nelsen, 2002, p. 55), “Uma criança malcomportada é uma criança desalentada”. No seu trabalho Dreikurs concluiu que as crianças utilizam a indisciplina por quatro razões a que chamou “finalidades incorretas”: atenção (sentimento de pertença se estiver constantemente a ter atenção), poder (valorização quando manda ou pelo menos o adulto não ganha), vingança (se não pertenço ao grupo e não sou valorizado também posso fazer sentir o mesmo) e incapacidade assumida (desisto, deixem-me em paz). Todas com o elo comum de encontrarem um sentido de pertença e valor pessoal, porque defende que estamos perante uma criança desencorajada, com sentimentos de não pertença e sem autovalorizarão. Estas crenças podem ser irreais, mas para a criança são verdade e é isso que rege o seu comportamento (Nelsen, 2002), e vão influenciar e acompanhar as fases seguintes do seu desenvolvimento.
A fase da adolescência é geralmente definida como a transição entre a infância e a idade adulta, situando-se entre os doze e os dezoito anos, é caraterizada por um conjunto significativo de alterações físicas e psicológicas. Provavelmente a mais significativa por ser muito externalizada pelos adolescentes é a sua pretensão de “liberdade” e construção de autonomia relativamente aos adultos, levando-os ao desafio permanente da autoridade e das regras. Sendo que, a gravidade dos atos de indisciplina vai sendo desvalorizada ao longo da adolescência (Amado & Freire, 2002), é tida como normal, passageira e parte integrante da fase que atravessam.
Similarmente do ponto de vista educacional verifica-se uma predominância da incidência deste tipo de comportamentos ao nível da adolescência, idade de frequência escolar no 3º ciclo, e referida por diversos autores como Estrela (2002), Lopes (2001) e Amado e Freire (2002).
Considerando as três fases da adolescência, as idades que coincidem por norma ao 3º ciclo abrangem o fim da primeira fase, a pré-adolescência e o início da segunda. A primeira carateriza-se fisicamente pelas alterações hormonais que levam à fisionomia de “adulto” que os induz a pensar que assim devem ser tratados, sendo aqui que surgem, habitualmente, as primeiras manifestações de indisciplina na escola, bem como a formação de grupos e de
adolescência conduz igualmente a comportamentos inaceitáveis para os adultos, mas valorizados pelos seus pares. Esses comportamentos são determinados pelos subgrupos que se criam no meio turma e cuja integração o aluno pretende. A segunda fase é mais marcada pela procura da sua identidade, ocorre através da descoberta de coisas novas, de diferentes grupos, mas sempre com os seus pares que têm sobre eles uma influência absoluta e determinam o correto, agindo sempre sob a proteção e apoio do seu grupo (Silva, 2013) sentindo-se muitas vezes as famílias impotentes.
Surge, assim, regularmente, a família referenciada como uma das causas principais de indisciplina, pois é no seu seio que se espera que ocorra a primeira transmissão de valores e onde devem surgir as primeiras regras. Porém, assoma aqui uma área de conflito entre a escola e a família, onde a troca de acusações e responsabilidades é comum e não a procura de um trabalho em parceria na busca de soluções. Contudo, estudos revelam que os professores e pais continuam a ter um papel mais importante para o envolvimento na escola do que os pares (Veiga et al., 2014).
Outro fator, que consideramos mais recente e, provavelmente, fruto de uma vida profissional cada vez mais exigente em termos de horário, é o “despejo” dos adolescentes na escola. Mas, quando pedagogicamente se discute o excesso de tempo de permanência na escola, simultaneamente se procura soluções políticas para ainda o prolongar mais, satisfazendo o desejo dos pais que esperam que a escola “tome conta” dos seus filhos e resolva os problemas que eles não conseguem. Esta permanência prolongada reflete-se em fatores como ser a última aula do dia, ou a anterior à hora de almoço que são tidos com correlação direta com a indisciplina em contexto escolar (Amado & Freire, 2002).
Não podemos descurar a imaturidade e leviandade com que os alunos vêm o seu futuro como causa de comportamentos indisciplinados. Os adolescentes não têm noção das consequências dos seus comportamentos na sua aprendizagem e consequentemente no seu futuro, na falta de formação académica para o seu estatuto e situação socioeconómica.
Por fim temos que abordar um fator incontornável da realidade escolar portuguesa, a escolaridade obrigatória, de currículo rígido em que os alunos não são convidados a participar pode criar frustrações que se refletem na motivação e consequentemente no comportamento. A escolaridade obrigatória veio definir o que temos de aprender sem ter em consideração o seu desejo, perspetivas ou necessidades e exige sucesso. Na escola não há espaço para “intercâmbios pessoais, para uma vida coletiva e relacional, (…) Todas as coisas essenciais são, pois, reprimidas durante horas de aula ou só existem clandestinamente, em infração às regras (…)” (Perrenoud, 1995, p. 35).
Na mesma linha dos autores anteriormente referidos no artigo elaborado por J. A. Lopes (2013), cerca de dez anos depois, o autor enumera os fatores explicativos da indisciplina, e
reforça os já referidos e a pouca evolução que tem ocorrido na nossa sociedade e sistema educativo para a sua mitigação:
• Alteração das relações entre adultos e crianças – de uma família tradicional cuja autoridade estava centrada na figura paternal passamos a uma família cujo poder se distribui por todos os membros ou mesmo se centra nos filhos que impõem as suas vontades aos pais. Esta alteração de relações traspôs -se para a escola perdendo os professores poder na sala de aula e os alunos a verem o professor como um par.
• Escolaridade obrigatória – é suposto que alunos da mesma idade adquiram as competências e ensinamentos impostos pelos programas curriculares da mesma forma e ao mesmo ritmo, o que obviamente é impossível. Apenas resulta em alunos que não sendo capazes de acompanhar a aula se desmotivem e canalizem as suas energias para perturbá-la, dando assim voz à sua revolta.
Este último ponto referido, é considerado pelo autor e outros por ele referidos como por exemplo Hinshaw ou Kauffman o fator principal justificativo da indisciplina em contexto de sala de aula.
• Gestão escolar – a autonomia das escolas não inclui liberdade curricular nem poder decisivo real, aplicam o que lhes é imposto pela administração central, desresponsabilizando a direção, professores e alunos e criando espaço para a indisciplina.
• Impreparação dos professores na área da organização e gestão de sala de aula – entenda-se gestão de sala de aula como o conjunto de ações da responsabilidade do professor que lhe permite ensinar, como por exemplo a gestão do tempo, o ritmo de trabalho a organização da sala e disposição dos alunos. Se a gestão de aula for eficaz não há espaço para a indisciplina esta não se proporciona numa aula onde os alunos estão ocupados e organizados, aqui o desafio prende-se com a diversidade e número de alunos na mesma turma o que torna a sua gestão muito complexa.
• Rendimento académico - qualquer professor afirma que um bom aluno dificilmente é um aluno perturbador, este facto leva-nos ao já anteriormente referido, um aluno que deixa de conseguir acompanhar a aula perde o interesse na mesma, e entra numa espiral de indisciplina e insucesso académico.
Os professores têm de compreender que a resolução do problema da indisciplina passa por eles. Se os aspetos anteriormente descritos estão fora da sua alçada há dois aspetos fundamentais que depende da ação dos professores, e estes têm de compreender que se eles não atuam ninguém pode ou virá atuar por eles.
Estes dois pontos segundo J. A. Lopes (2013, p. 59) são:
• "Erigir a promoção das competências académicas, acima de todas as outras, a tarefa de interesse vital e estratégico nas salas de aula." (p. 59) - A capacidade de ler e escrever é determinante pois é essencial ao acesso aos livros e ao conhecimento que eles contem.
• "Capacidade de organização e gestão de sala de aula" (p. 59) - Os bons professores não lidam melhor como a indisciplina do que outros conseguem é preveni-la criando sistemas de trabalho, processos que não abram espaço a comportamentos disruptivos.
De uma forma generalizada estes fatores incluem-se na classificação dos fatores de risco de Amado e Freire (2002) que os classificam em: individuais, onde se incluem o autoconceito, insucesso escolar, ausência de um projeto de vida, distúrbios de comportamento e dificuldades de aprendizagem; familiares, ausência de um dos progenitores, por divórcio ou abandono, maus tratos, alcoolismo, a postura dos pais perante o castigo, mais compreensivos menos indisciplina, autoritários ou permissivos mais indisciplina, não há grande significado no estatuto socioeconómico por si só; fatores sociais, vítimas de segregação cultural, desemprego, imigrantes mais vulneráveis; pedagógicos , a aula é uma interação entre pares e professor/aluno, logo recheada de fenómenos subjetivos, como interpretações e expetativas do comportamento dos outros, é aqui que encaixam os sentimentos de injustiça comuns nestes alunos e criados pelos professores incapazes de terem em conta as diferenças de cada um e de mecanicamente rotularem alunos indisciplinados, automaticamente falando para eles logo de forma mais severa.
Apesar de aqui procurarmos apresentar, através da revisão de literatura os fatores que consideramos contribuírem mais significativamente para o fenómeno da indisciplina, dificilmente podemos enumerar todos, pois a própria evolução da sociedade e paralelamente do sistema educativo torna mutante as suas causas.