Este trabalho tinha como objetivo retomar o debate entre os filósofos Benjamin e Adorno sobre as contradições e ambiguidades inerentes ao avanço da reprodutibilidade técnica nos anos 30 e demonstrar como mui-
tos dos aspectos levantados por esses autores, na época e depois, nos anos 60, adquirem força e atualidade para pensar o modo como os rappers têm se apropriado dos avanços da tecnologia digital com fins emancipatórios. Inspirado neste debate, propusemos uma leitura contemporânea da função da música e do cinema na produção dos Racionais MC’s, orientada pelas ideias de reversão dialética, de Benjamin e de emancipação da consciência, de Adorno.
Adorno e Benjamin, a despeito de suas divergências sobre o papel emanci- patório do avanço da técnica, parecem estar de acordo com a ideia de que as formas de dominação ideológica mudaram na era da reprodutibilidade técnica e que, portanto, o modo de fazer crítica ideológica também não po- deria mais ser o mesmo, ou seja, por meio do discurso. Mas, o que mais nos chamou a atenção nesse debate foi o papel da arte que, ao deixar de ser au- tônoma em relação ao mundo da produção, perde sua aura, o que colocaria em risco seu potencial de negatividade.
Porém, de acordo com Benjamin, não há apenas o desfecho regressivo, uma vez que no caso do cinema de vanguarda, por exemplo, envolveria a trans- formação antropológica da percepção, dado o caráter de “choc póstumo” provocado pela imagem cinematográfica produzida pelas técnicas de mon- tagem, o que abriria caminho para o que ele chamou de reversão dialética. E à emancipação da consciência, diríamos nós, na medida em que propicia- ria a “reposição objetivadora” da experiência, como reconhecera Adorno a propósito do filme de vanguarda. Algo semelhante é possível identificar nos clipes de rap engajado, como dos Racionais MC’s, que têm propiciado, por meio de seus clipes e músicas, a reposição de uma experiência ancestral en- volvida na formação da consciência da juventude negra em relação aos seus direitos, bem como de afirmação étnicorracial.
Os Racionais MC’s têm empregado os mais diferentes recursos sonoros, bem como cinematográficos, para nos jogar no coração da cena da periferia e provocar justamente uma espécie de aproximação mimética do objeto da crítica, como estratégia de identificação absoluta com uma situação limite –
entre o lícito e o ilícito, entre o dentro e o fora, entre a vida e a morte – como forma de levar, tanto o jovem negro morador da periferia, quanto o conjunto da sociedade à emancipação da consciência. Produzem, assim, uma verda- deira reversão dialética no campo estético, que se traduz pelo modo como enfrentam a situação da realidade marginal e periférica jogando o que está à margem para o centro.
Acreditamos que Adorno e Benjamin forneçam, não apenas as chaves de lei- tura de um fenômeno estético e de afirmação étnico-racial contemporâneo da juventude negra periférica, ou seja, o rap, identificado com o movimento hip-hop contestatório; como também nos apontam, de acordo com a releitu- ra que propomos deste debate filosófico frankfurtiano, que tais expressões estéticas se utilizam das técnicas contemporâneas do meio digital e do ci- nema em seus clipes e músicas, e são capazes de provocar o choc póstumo, mencionado por Benjamin a propósito da poesia de Baudelaire e do cine- ma de vanguarda, resultando em uma verdadeira reversão dialética e uma ruptura de campo5, dos campos do “inconsciente visual” dos espectadores.
Por meio dessas expressões estéticas urbanas, é possível promover uma formação emancipatória da consciência, capaz de suscitar nos sujeitos, in- quietações e indagações para que se abram para o outro, não idêntico, o diferenciado, conforme enfatizara Adorno. Este, embora não estivesse aten- to à questão do negro, tinha em mente a premência de uma formação que nos prevenisse do etnocentrismo e de toda e qualquer forma de intolerância. A arte engajada politicamente promove, como dissera Béthune (2003) a pro- pósito do rap, uma ruptura com a tradição ocidental da arte contemplativa e joga o sujeito no “coração da ação” por meio de “atos de linguagem”. E o faz , recorrendo a uma prática comunicativa real, concreta e performática, que remete a toda uma corporeidade perdida com o advento da escrita e a invenção do alfabeto, além de remeter a uma ancestralidade oral, de ma- triz africana, representada, particularmente, pela figura do Griot, mestre
5. O método de ruptura de campo foi pensado por Herrmann (2001, p. 121) a propósito da“potencialidade do método psicanalítico de fazer com que surja (por ruptura de campo) a ordem lógica [inconsciente] de
na arte de narrar histórias, tornando-se o rapper, o cronista das sociedades periféricas.
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A FORMAÇÃO DO ORADOR CICERONIANO: