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Três, em cada quatro pessoas, referem percecionar um sintoma físico pelo menos uma vez por semana e cerca de metade procura os serviços de saúde para os resolver ou minimizar. Comparando com estudos2-5 anteriores, constata-se que a frequência de sintomas físicos, encontrada no nosso estudo, “FREQUÊNCIA DOS SINTOMAS FÍSICOS NA POPULAÇÃO DE UMA

UNIDADE DE SAUDE FAMILIAR PORTUGUESA: estudo transversal”, é

semelhante à encontrada por outros autores com outras populações residentes. Mais de metade da população com sintomas recorreu ao médico pelos seus sintomas, valor idêntico ao encontrado por outros estudos internacionais3,4. Em Portugal, Fabião et al.6 encontraram valores de 63,4% mas numa amostra de população que estava a utilizar os serviços de saúde. Este aumento de procura pode traduzir uma progressiva valorização dos sintomas pela população, eventualmente, consequência dos temas da saúde estarem omnipresentes nas agendas dos média. Segundo o estudo do autor7, em 2001 publicavam-se em média, por dia, nos jornais nacionais, 23 noticias relacionadas com a saúde. Para além da presença constante, acresce que o contexto predominante das notícias relacionadas com a saúde é o da “abordagem médica”. Segundo Karpf8, o contexto noticioso de “abordagem médica” caracteriza-se por celebrar os poderes curativos da medicina. Está centrado e organizado em torno da doença, foca-se nas investigações clínicas e operações. Enfatiza a alta tecnologia e as intervenções de base hospitalar. Os médicos são considerados as únicas autoridades legitimadas sobre o que constitui doença e o modo como deve ser tratada. Esta abordagem parte do pressuposto de que os médicos encontrarão uma cura para a doença e considera a saúde igual a utilização de serviços de saúde. Implicitamente dizem aos doentes e potenciais doentes o que a medicina deve fazer por eles. Nesta perspetiva a população divide-se em doentes e potenciais doentes. Em Portugal, segundo o estudo atrás mencionado7, 79% das notícias relacionadas

127 com a saúde têm uma contextualização que está de acordo com o “abordagem

médica” de Karpf, ficando os restantes contextos muito reduzidos: ambiental

com 15%, “cuide de si” e “de consumidor” com 3%. Portanto, parece haver todo um contexto de comunicação social que condiciona a construção de um comportamento de procura de cuidados de saúde.

Para além disso, aquele aumento de comportamento de procura pode evidenciar maior acessibilidade aos serviços de saúde, tanto mais que a população estudada estava inscrita numa unidade de saúde, cuja característica principal é assegurar o fácil acesso a cuidados de saúde. Muito provavelmente os dois fatores conjugados funcionam de modo sinergético: a comunicação social aumenta a sensibilidade para os problemas da saúde, e aumenta a pressão política para o aumento da acessibilidade aos serviços de saúde. De certo modo esta abordagem predominante, reduz o sentido de autoeficácia da população nos seus autocuidados e, até, da capacidade regeneradora da natureza, instilando-lhe uma ideia de culpabilização se, perante o surgimento do sintoma, não recorrer de imediato aos serviços de saúde, levando-o muitas vezes a tomar a decisão de o fazer para minimizar o arrependimento e não tanto pela intensidade do sintoma.

Estes valores merecem aprofundamento com estudos alargados a populações mais representativas da população portuguesa. Se eles corresponderem à verdade, pode estar em causa o aumento da dependência das populações em relação aos serviços de saúde, sendo, então, importante implementar estudos que possam avaliar do impacto real nos ganhos em saúde para a população. Dos sintomas referidos, os mais frequentes são a fadiga e as dores de costas, dos musculos e de cabeça, todos significativamente mais frequentes no género feminino.

Segundo o estudo, “FREQUÊNCIA DE DOENTES COM SINTOMAS

SOMATOFORMES NA CONSULTA DE MGF”, 8% das consultas efetuadas

neste contexto são com doentes que referem sintomas físicos e que os médicos consideraram como não tendo explicação orgânica. Trata-se de um número baixo quando comparado com a literatura internacional em que se encontram valores que variam de 15 a 39%9-12.Para este baixo valor pode ter contribuído o facto de terem sido consideradas para o denominador as consultas de vigilância de saúde infantil e materna e planeamento familiar

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onde, eventualmente, este tipo de sintomas pode ser referido com menor frequência e, neste contexto, os próprios clínicos podem tender a não os valorizar. Nesta sequência, importa alargar este estudo recorrendo a uma amostra de clínicos com maior representatividade nacional.

Para além disso, a amostra dos clínicos é pequena e dois deles notificaram um número reduzido de casos. O facto de estes dois clínicos serem, dentro do grupo de investigação, os mais jovens na especialidade, leva-nos a colocar a hipótese de à medida que aumenta a maturidade clínica aumenta a aceitação e ou aprende-se a (con)viver com este tipo de doentes. Esta aprendizagem pode facilitar a abordagem terapêutica, sem necessidade de forçar um diagnóstico que pode ser contraproducente para o doente, por lhe reduzir a confiança na recuperação e se transformar em profecia auto-realizadora. No entanto, esta é uma hipótese que carece de demonstração.

O facto de em 95% dos casos o diagnóstico não se ter modificado, ao fim de seis meses, indicia risco reduzido de omissão de doença orgânica. Para além disso, comparando com a generalidade da população, os doentes considerados como tendo sintomas somatoformes tem maior probabilidade de já terem diagnósticos de depressão, ansiedade, cefaleias de tensão e síndrome do cólon irritável.

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