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Avslutning og noen rettspolitiske vurderinger

No geral, pode-se dividir o trabalho sobre o rebaixamento em duas grandes partes na análise da obra de Nascimento Rosa. Anteriormente, verificou-se o rebaixamento propriamente dito como um corpo topográfico, ou seja, a maneira como se formaram as imagens grotescas na peça, todas situadas no plano baixo, que permite certo distanciamento da ilusão cênica. Em um segundo momento, como consequência interpretativa do primeiro e para aprofundamento do atrito produzido pelo texto citacional, cabe analisar o conceito de corpo bicorporal. Como quer Bakhtin (2008a), define-se como bicorporal aquele que se prolonga para além do próprio corpo. Culmina-se, então, no rebaixamento ressuscitador que, ao rebaixar as personagens no plano baixo-corporal ultrapassa suas próprias imagens de corpo, fazendo aquilo que foi rebaixado subir, elevando-se em novos sentidos. Para direcionar a análise e exemplificar esse rebaixamento, servimo-nos de Bakhtin (2008a, p. 277-278):

[...] pois interessa-se por tudo que sai, procura sair, ultrapassa o corpo, tudo o que procura escapar-lhe [...] o corpo grotesco é um corpo em movimento. Ele jamais está pronto nem acabado: está sempre em estado de construção, de criação e ele mesmo constrói outro corpo; além disso, esse corpo absorve o mundo e é absorvido por ele [...] Por isso o papel essencial é entregue no

corpo grotesco àquelas partes, e lugares, onde se ultrapassa, atravessa os seus próprios limites, põe em campo um outro (ou segundo) corpo: o ventre

e o falo; essas são as partes do corpo que constituem o objeto predileto de um exagero positivo, de uma hiperbolização [...] Depois do ventre e do membro viril, é a boca que tem o papel mais importante no corpo grotesco, pois ela devora o mundo [...] Todas essas excrescências e orifícios caracterizam-se pelo fato

de que são o lugar onde se ultrapassam as fronteiras entre dois corpos e entre o corpo e o mundo, onde se efetuam as trocas e as orientações

recíprocas [...] o grotesco ignora a superfície sem falha que fecha e limita o corpo, fazendo dele um fenômeno isolado e acabado. Também, a imagem grotesca mostra a fisionomia não apenas externa, mas ainda interna do corpo: sangue, entranhas, corações [...] Muitas vezes, ainda, as fisionomias interna e externa fundem-se numa única imagem [...] as imagens grotescas constroem em corpo bicorporal [...] (grifo nosso).

Se se observar, por exemplo, o rebaixamento da personagem Águia como uma ave maldita, a parte de seu corpo que mais se sobressai é a língua, essa como comedora de cadáver capaz de debicar as vísceras de um alcoólico Prometeu. É a região de sua boca, o bico, que se destaca do restante do corpo, ultrapassa seus limites e faz a ligação com o protagonista. A Águia une-se, nesse momento,à parte interna-baixa do titã, o fígado. A partir daí, passa sua eternidade como esponja de penas, sugando sangue. Não é mais seu corpo como águia que importa, sua parte rebaixada que se destacou do corpo é um novo corpo, é sua nova condição ligada ao sangue de Prometeu, ligada ao destino imposto pelo mito ao mundo: ser o carrasco que absorve o sangue da vingança de Zeus.muito bem observado Esse novo corpo forma uma unicidade corporal com o protagonista: ao mesmo tempo em que sofre parte da ira e castigo da divindade, sua boca constitui um testemunho da atividade sanguinária de que sofre o titã. O que resta desse movimento é seu reclamar, que também é um desejo de libertação. Colocar a boca no mundo, contar o que ela está passando junto a Prometeu é mais uma ação que se originou de sua parte destacada do corpo, a boca .

Não é diferente com Heráclito. Ele uniu-se ao que há de mais baixo, os excrementos animais, e, assim, seu corpo, formando um novo e único corpo com a terra (baixo corporal), consegue deixar a cabeça desenterrada em ligação com o mundo à sua volta. Como quer a personagem, foi feita uma

performance terapêutica: não houve distinção entre o eu (Heráclito) e a lama

onde mergulhou, porém a cara, o rosto, ficou de fora para respirar. Nesse ponto, há uma ligação com as características de Prometeu: nesse respirar, mantêm-se as capacidades elevadas do pensar, do questionar, do recriar, do libertar, tão próprias da filosofia. O rebaixamento pode ser, assim, ressuscitador. Sobre isso, diz Bakhtin (Ibidem, p. 278): “Na cadeia infinita da vida corporal, elas fixam as partes onde um elo se prende ao seguinte, onde a vida de um corpo nasce da morte de um outro mais velho”.

[...] os principais acontecimentos que afetam o corpo grotesco, os atos do drama corporal – o comer, o beber, as necessidades naturais [...], a cópula, a gravidez, o parto, o crescimento, a velhice, as doenças, a morte, a mutilação [...] – efetuam- se nos limites do corpo e do mundo ou nas do corpo antigo e do novo; em todos esses acontecimentos do drama corporal, o começo e o fim da vida são indissoluvelmente imbricados (Ibidem, p. 277).

Vai-se além nesse rebaixar que, ao focar a ferida abdominal do titã (lugar corporal do castigo divino), valoriza a atitude do titã de sofrer pelo outro (no limite do corpo e do mundo): paga claramente o preço de escolher em favor da humanidade e, com isso, ganha algo que é humano, a dor. O que se tem agora é a morte simbólica do titã que não acredita somente nos valores superiores e divinos de onde veio. Nasce um Prometeu humanizado. A chaga do corpo (o baixo) cada vez mais representa a dor valorada dos princípios prometeicos: tornar-se o titã, enfim, e também homem. O confronto entre antigo e atual está posto, as esferas do alto, do sublime, da tradição foram rebaixadas. Com isso, o próprio teatro – na voz das personagens – quebrou a ilusão cênica fazendo aparecerem os próprios mecanismos teatrais criando uma nova ilusão mediante a confluência entre clássico, cristão e contemporâneo.

A função do Rapsodo “não deu certo”, ele lutou a todo o momento para organizar a tradição, o teatro que conhecia, com sua lista de personagens preestabelecida, mas elas, as personagens, ganharam novas características, dialogaram entre si. Não é o mesmo Prometeu de Hesíodo, nem Cassandra de Troia, muito menos o Heráclito da alta filosofia. Todos rebaixados,numa tensão entre novo e velho, só é possível por um riso regenerador que se acompanha a seguir.