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Avslutning og konklusjon

In document Ny offentlig tjenestepensjon (sider 69-74)

Era uma noite de chuva e de tempestade. A cidade imensa repousava, no sono, do seu febril trabalho diurno. A hora avançava; os quarteirões aristocráticos, mais demorados no adormecer, porque menos sedentos de repouso, descansavam em silêncio.

Ao longo de uma avenida arborizada — duas filas de residências de luxo — um homem esgueirava-se como sombra que, no andar desenvolto, sabia esconder, pelo hábito, intenções suspeitas. Vemo-lo agora junto ao ponto desejado. Não é a porta principal do jardim, mas uma outra, para serviço, junto à parede lateral, que se encontra aberta. Ele a transpõe e entra com desembaraço, como se estivesse regressando à sua casa. Fecha-a e atravessa o jardim.

Uma outra pequena entrada de serviço, no lado posterior da casa, está aberta: ele passa por ela. Conhece a habitação onde já estivera trabalhando para os antigos proprietários, há muitos anos atrás. Com a cumplicidade de um dos empregados atuais que viera a conhecer posteriormente, organizara um golpe.

Como se vê, não existe aqui nenhum mistério policial, nenhum delito macabro,nem caçada para apanhar um criminoso. Fugimos da difusíssima psicologia de criminosos malogrados, e por isso apresentamos o fato como simples e banalíssima tentativa de furto, arquitetado com as costumeiras astúcias, muito conhecidas através dos cinemas e dos jornais. Ao viciado leitor moderno, amante das emoções fortes e intoxicantes dos romances amarelos,isto parecerá qualquer coisa de insignificante e cansativo pelo seu trivial que não excita a curiosidade malsã com psico- páticas complicações e cerebralismos criminalóides. Provavelmente acharão estúpida uma história que não proporciona o arrepio do delito. Aqui,entretanto, conforme veremos, desejamos focalizar outros fatores psicológicos, de muito maior valor, não pertencentes a parte menos evoluída da sociedade humana. Para satisfazer ao seu orgulho de parecer civilizada, enverniza, todavia, os instintos bestiais com a psicanálise, os complexos freudianos, o subconsciente e vários ismos científicos, diabolicamente faminta de destruição. A isso é obrigada até o fundo, até a alma, pela chamada civilização, em busca de psicopatias e de todas as perversões. A sã moral não é criação artificial de uma religião, mas está escrita, para todos, nas leis da vida. Uma imprensa traidora, com finalidade de lucro, desfruta e alimenta tais aberrações; oferece aos instintos bestiais uma satisfação psicológica ideal. Desta forma tudo vai sendo abalado, loucamente. Prossigamos, contudo, a nossa história.

Aquele homem não somente conhecia a casa, onde penetrara com a ajuda do criado, senão também os hábitos do seu proprietário, que era um homem estranho. Vivia solitário naquela rica mansão, desfrutando uma renda que possuía por direito de herança.

Revelava costumes exóticos este homem que, em ótimas condições de saúde e de riqueza, poderia gozar a vida. Pela manhã, passeava pensativo pelo jardim. Fazia as refeições sozinho. Consumia a tarde e a noite escrevendo. Parecia procurar qualquer coisa inatingível no seu mundo, imensamente distante. O seu olhar mergulhava nos outros olhares buscando a alma e se retraía com tristeza. Existia entre ele e os seus semelhantes uma espécie de barreira de incompreensão. No seu meio era julgado como maníaco e tolerado por inofensivo.

O ladrão, ali presente, considerava as coisas sob um ponto de vista inteiramente utilitário. Aquela casa e aquele homem se prestavam a um furto — meio rápido para ganhar sem trabalhar. Verdadeiro tipo de involuído, agradava-lhe o risco, a aventura audaz, o golpe do aventureiro, não o trabalho ordenado do homem acostumado a integrar-se no organismo social. Era um retardatário,

mais adaptado a viver com os selvagens, em guerra, entre as feras. Nada sabia fazer senão roubar. Ninguém o educara ou lhe ensinara a realizar algo melhor. A civilização, todavia, proporcionou-lhe alguma coisa, exceto a bondade evangélica do ama ao teu próximo,princípio para ele situado no inconcebível. Havia apenas polido os seus instintos, refinando-os como as feras apuram os sentidos para melhor atacar e vencer na luta pela vida. Era artista do crime. Amava saquear, sem causar danos físicos a vítima, alcançando o útil com o menor aborrecimento e o menor perigo possível. Esta era a única modalidade de civilização que a sua natureza atrasada soubera captar. Na guerra que as nações civis fazem entre si, ele se encontraria bem a vontade e seria talvez glorificado como herói. Mas a guerra não existia para que pudesse explorá-la. Numa revolução seria alguém, e faria boa carreira. Contudo, não havia revolução. Dadas as circunstâncias muito pacificas que o ambiente lhe oferecia, fazia aquilo que podia.

Estes dois homens encontravam-se agora debaixo do mesmo teto, estavam prestes a encontrar-se com a sua psicologia, os seus julgamentos, os seus métodos de vida. O ladrão subia as escadas,cautelosamente. Conhecia todos os recantos. Sabia que,no dormitório, à direita, no patamar superior, o patrão dormia, e que, à esquerda, estava o quarto onde encontraria o dinheiro. O criado deixara as portas abertas, saindo para o seu dia de folga. Sabia, também, por ter verificado da rua, que a luz do dormitório, onde o dono freqüentemente ficava acordado até o amanhecer, estava acesa. Sabia, ainda, que aquele homem era sereno e, por conseguinte, não o intimidava. Agia com segurança absoluta.

Uma vez no patamar superior, entrou no quarto visado, sendo os seus passos abafados pelos tapetes macios. Silêncio. Viu-se num escritório e reconheceu a escrivaninha iluminada pela luz débil da rua, suficiente para o seu trabalho. Aproximou-se e observou. Possuía as chaves das gavetas. Devia ser a terceira ou a quarta, a esquerda, a promissora. Experimentou uma, e depois a outra, revolvendo o conteúdo. Não encontrava nada. Revistou ainda Começou a sentir-se nervoso porque ambicionava a fuga sem ser observado. Mas não encontrava nada. Tentou as do lado direito, abrindo a segunda gaveta, revistando-a. Num gesto precipitado, derruba qualquer coisa que cai no tapete com um baque surdo. O ladrão imobilizou-se, espantado. Estaria, realmente, dormindo o patrão? Teria ouvido?

No aposento a direita, outro homem estava em outras lidas. Apagara, havia pouco, as luzes e procurava em vão adormecer, enquanto, num estado de meio sono, o seu espírito continuava a desenvolver a ordem dos conceitos sobre os quais escrevera até aquela hora da noite. Preso aos seus pensamentos, não prestou atenção ao ruído que viera do quarto vizinho. Tinha em mente outras preocupações. De improviso, surgira a solução lógica de um problema que o angustiava havia dias — contraste de conceitos que parecia sem saída. E, agora, repentinamente, da profundeza de si mesmo, quando se ia abandonando ao sono e já não a buscava mais, eis a solução imprevista, como se outro houvera respondido. Sentia-se pasmo e ao mesmo tempo entusiasmado pela beleza e logicidade da solução. Acabou despertando-se, acendeu a luz e levantou-se para ir logo registrar no seu escritório a concepção maravilhosa antes que ela se dissipasse, materializando-a, agora que estava bem clara em sua mente, nas suas particularidades. Sabia que se não a fixasse logo, ela se desvaneceria, reaparecendo depois deformada e estranha. Entrou no aposento contíguo e acendeu a luz. O ladrão ficou em pé, gelado, em plena luz. Os dois homens se defrontaram.

Olharam-se, mas com que olhar diferente! Cada um projetou nele a sua alma. O ladrão, aterrorizado pelo perigo iminente e o golpe fracassado, pensava agredir ou ser agredido. Esta era e lei do seu plano e do seu espírito. O dono, perplexo pela presença de um estranho, e aborrecido com o fato imprevisto, pensava no tesouro dos seus conceitos já em fuga, agora perdidos com o incidente. Habituado ao autodomínio, rapidamente se refaz para enfrentar a nova situação. Olhou para o ladrão com piedade e este, que esperava uma agressão, desarmado por aquele olhar, não agrediu.

sociais, dois extremos opostos, econômica e espiritualmente, dois mundos. Aquele cruzamento de olhares já havia estabelecido uma ponte entre os dois. O proprietário foi o primeiro a dirigir a palavra:

"Amigo, não te atemorizes, compreendi tudo. Afirmo, não temas. Serás hóspede em meu lar, porque és meu semelhante e meu irmão. Não tenho outro desejo senão o de te fazer o bem. Não penses portanto em lutas e agressões. Poderás sair quando desejares, livre, protegido por mim".

"Uma outra coisa porém me impele para te ajudar. Tu te arriscaste muito para vir buscar este dinheiro. É um trabalho errado, mas é também um trabalho. Quanto a mim, não arrisquei nada, não lutei para ganhar dinheiro, porque o herdei. Perante Deus estamos, talvez, nas mesmas condições, se bem que eu esteja protegido pelas leis e tu não. Dá-me a tua mão e dize-me no que te posso auxiliar".

E estendeu a mão ao visitante que a aperta automaticamente, procurando compreender, enquanto escutava. O dono da casa continuou: “Dize-me no que posso auxiliar-te, porque me escravizo a deveres que não possuís. Junto de Deus estamos exatamente nas mesmas condições. Diante de ti tenho uma agravante: é que não me encontro em necessidade. Talvez seja por isso que nunca fui tentado a roubar, enquanto que a ti muitas coisas te faltavam a ponto de te arriscares desta maneira. Todos nós temos, não só o direito, mas também o dever de viver. Sou eu, portanto, que estou em débito contigo e desejo saldá-lo agora”.

O ladrão começava a compreender e não conseguia se refazer da surpresa. No seu primitivismo, encerrado na estreita psicologia do egoísmo, suspeitou, a princípio, que tais incríveis palavras poderiam esconder uma trama e aguardava o aparecimento de uma arma ou um movimento de assalto. Mas, nada disso surgia. Como não se sentia ameaçado, foi esporeado pela curiosidade e pela esperança de poder receber dinheiro daquele louco, não obstante a sua triste posição; continuou escutando, divertindo-se com a cena, mas sempre atento ao seu desenvolvimento.

Sentaram-se. O dono da casa prosseguiu: "Amigo! suponho que sejas comunista ou pelo menos simpatizante. Não imaginas que eu também o sou; como vês, de forma diversa da tua e que não entendes. Desejo que saibas: a justiça social é a grande idéia para a qual o mundo caminha. Quem usa a espada morrerá pela espada, e quem usa a violência será destruído. Os nossos dois comunismos são antípodas. O teu parte dos direitos; o meu, dos deveres, de que não cogitas. Usas a violência e por isto estás aqui; eu uso a bondade. É verdade que nem todos os homens da minha classe social são como eu. Nisto crês, isto autoriza-te a violência. Verdade é que tens também deveres,mas não pensas senão nos direitos. Como é possível uma sociedade que só alegue os seus direitos? Não seria um organismo, seria um bando de lobos que se entredevorariam. Por que não pensaste no dever de trabalhar; de dar qualquer coisa a sociedade da qual exiges o necessário? Por que, antes de roubar ou exigir com a violência, não pensaste em ganhar com o trabalho? Eu mesmo trabalho, no campo do pensamento, mas trabalho. A minha vida dá fruto à sociedade. Tu. és um parasita. Por que não aprendeste a: respeitar o fruto do trabalho e da inteligência dos outros? Quem possui nem sempre é parasita; às vezes um centro de atividade fecunda para muitos. E tão bestial este ódio de classe,indiscriminado, agressivo, buscando conquistar a riqueza sem o trabalho e sem a inteligência, mas pelas vias da violência! Não sabendo respeitar o fruto das atividades alheias, como poderá esperar que, em idênticas condições, fosse respeitado o fruto do teu trabalho?"

O larápio, sem se interessar em absoluto por tudo que estava ouvindo, aguardava a conclusão do discurso. O dono da casa compreendeu que havia ido muito longe nas suas explicações teóricas e regressou aos limites psicológicos do seu interlocutor, isto é, ao problema próximo e pessoal e disse-lhe: "Concluindo, amigo, a ti não interessa se eu trabalho e se neste momento me libertarei das riquezas para mim supérfluas, ou se as conservarei para que frutifiquem, sobretudo para o bem dos outros. Este é um assunto meu. Interessa-te somente resolver o problema da tua vida. Quem possui mais meios, mais inteligência e cultura, tem mais deveres. Sou eu,

portanto, quem deve ir ao teu encontro. Desejavas apoderar-te do dinheiro que se guardava nesta gaveta. Não o encontraste, porque estava sobre a escrivaninha onde eu o deixara, depois de ter dado uma parte a outrem. Este já se destinava aos pobres. Portanto, é teu.. Estava diante dos teus olhos e procuravas em outro lugar. Ei-lo, e que te ajude a viver. Emprega-o bem, para que possas subir. Podes ir, és livre. Ninguém saberá que estiveste aqui."

Enquanto assim falava, colocou o pacote de dinheiro em suas mãos, o mesmo que o ladrão queria roubar. Desta maneira, o furto que poderia perder um homem, transformou-se em auxilio capaz de redimi-lo. Foi assim que o padre Myriel salvou o forçado Jean Valjean em Os Miseráveis, de Vitor Hugo. O ladrão apanhou o dinheiro, obtido por uma via tão estranha e imprevista. De qualquer modo tinha alcançado o seu objetivo. E isto era para ele a coisa principal. Se o outro era louco, não lhe importava: o dinheiro estava em seu bolso.

O dono da casa o examinou por um instante, pôs uma das mãos sobre o seu ombro, e assim concluiu suavemente: "Agora vai, amigo. Quem sabe quantas más lições recebestes? Utiliza esta advertência; que ela te acompanhe e te auxilie a redimir-te. Vai, mas lembra-te de que estou aqui para continuar a auxiliar-te e assim completar a obra. Não esqueças o teu novo amigo. A minha casa está aberta. Volta quando desejares. Este dinheiro não durará sempre. Entretanto, procura lembrar tudo que te falei, mudando de vida. Se desejas fazê-lo, volta e ensinar-te-ei como viver honestamente do seu trabalho. Somente quem não pode trabalhar tem direito à esmola. O teu direito de homem sadio está somente no trabalho. Vai, amigo. Estarei sempre às tuas ordens, quando desejares vir espontaneamente".

O ladrão compreendeu que desta vez passara sem castigo e que, embolsado dinheiro, não tinha nada mais a fazer naquela casa. Balbuciou confuso qualquer coisa. Vendo o caminho livre, ganhou rápido as escadas; pelas mesmas portas abertas, alcançou a rua, num átimo. Ali, a passos rápidos, deslizou, como uma sombra, na noite.

Passaram-se meses e anos. Aquele senhor esperou. Mas o ladrão jamais voltou.

II

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