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O pensamento de Ibn ‘Arabī insere-se na filosofia neoplatônica, na teosofia especulativa, na metafísica do sufismo, na tradição abraãmica, herdeiro da filosofia antiga, do pensamento grego, do mundo iraniano, da tradição judaico-cristã,

(...) não obstante, é genuinamente árabe, já que está profundamente enraizado na cultura e na língua árabe, e plenamente islâmico, pois suas referências permanentes são os fundamentos das escrituras islâmicas, o Corão e a Sunna. Em virtude desse mesmo fundamento islâmico, sua obra oferece um pensamento de alcance universal que reconhece todos os profetas do ciclo histórico, [assim como] as diversas tradições reveladas (...). Pode-se afirmar que, integrando em seu pensamento razão e revelação, unidade e diversidade, Ibn ‘Arabī foi o primeiro entre os autores da tradição abraãmica a expor de modo compreensível e explícito, tanto em estilo discursivo como em linguagem alusiva, os fundamentos que tornam possível e requerem um diálogo criativo e conciliador entre as diferentes crenças e culturas.69

Ainda que menos da metade dos escritos a ele atribuídos não tenham sobrevivido aos nossos dias, restando cerca de 400 títulos dos quais poucos receberam a primeira publicação impressa e algumas traduções, mesmo assim, podemos assistir um interesse sempre crescente em relação aos estudos, traduções e pesquisas dedicados a sua obra e aos temas por ele tratados.

Abû Bakr Muhammad Ibn 'Ali ibn Muhammad al-Hātimī al-Ta'ī ibn al- ‘Arabī70, a quem se atribui os epítetos Muh'yī al-Dīn, “o vivificador da religião”, Ibn Aflātûn, “filho de Platão” e al-Sayh al-Akbar, “o maior dos mestres”, nasce em 28 de julho em 1165 d.C. /560 H., em Murcia. Aos oito anos (1173 d.C/568 H.), muda-se para Sevilha após a ocupação da Murcia pelos almóadas, onde passa a estudar o Corão, o Hadīth, a Sāri'a, gramática, retórica e recebe uma boa educação literária, jurídica, filosófica e teológica. Seis anos depois, em Córdoba (na Andaluzia), conhece Averróis através de seu pai, muito amigo do filósofo. Em 1185 d.C/581 H., Ibn ‘Arabī torna-se membro de uma confraria (tarīqa), praticando assiduamente os métodos ascéticos a fim de progredir rapidamente na via da perfeição espiritual. Deixa a Espanha e parte para o norte da África, em 1193d.C./509H, estabelecendo-se, primeiramente, em Tunis onde conhece o xeique al- Mahdawī a quem dedica, anos mais tarde, sua obra A epístola do espírito da santidade (Rûh al-quds). Em !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

69 Beneito, Pablo. El viaje interior entre Oriente e Ocidente: la actualidad del pensamiento de Ibn ‘Arabī.

Madrid: Ed. Mandala, 2007, pp.8 e 9.

regresso à Espanha (1195 d.C/592 H.), percorre Murcia, Granada, Almería, Córdoba, Marrakech, Fez, sempre escrevendo, conhecendo filósofos e homens santos, participando de conferências e sessões de discussões. Nessa época, em 1198, em Almería, torna-se amigo de Abû 'Abd Allāh al-Ghazāl, discípulo de Ibn al-Arīf, um dos místicos que mais o influenciou, até que regressa à Tunis, chegando ao Cairo e à Jerusalém em 1201 d. C./598 H. Em Meca, no mesmo ano, conhece Nizhām ‘Ayn Ash-Shams, jovem sufi que inspira Ibn ‘Arabī a escrever os poemas reunidos em O Interprete dos Desejos Ardentes. De 1204 d.C/601 H. a 1206 d.C./603 C. viaja para Bagdá, Mossul, Malatya, Hebron e Cairo, em que, diante da hostilidade da autoridade religiosa oficial, retorna a Meca percorrendo a Palestina. Em Konia (1210 d.C./607 H), encontra Sadr ad-Dīn, um de seus grandes discípulos a quem passa, mais tarde, a autorizar comentários de suas obras. Um ano depois, em Bagdá encontra o Sheikh Shihāb ad- Dī (Umar as-Suhrawadī). A convite do rei Kay Kaus, permanece na Anatolia quase 5 anos, partindo, em 1223 d.C./620 H. para Damasco onde instala-se definitivamente até sua morte em 16 de novembro de 1240 d.C./ 838 H.

O conjunto de escritos de Ibn ‘Arabī constitui uma enciclopédia filosófica, teológica, jurídica, hagiográfica, mística, ascética, literária e poética.71 Os livros e tratados escritos por Ibn ‘Arabī são muito numerosos, ao menos 846 escritos são atribuídos a ele, dos quais 550 chegaram aos dias de hoje e apenas 400 são considerados autênticos72, compreendendo desde o extenso Futūhāt al-makkiyya, com milhares de páginas em árabe, distribuídas em seis grandes partes, 37 volumes e 560 capítulos, até inúmeros tratados de algumas poucas páginas. O trabalho de classificação de suas obras foi realizado por Osman Yahia em 1964, em Histoire et classification de l’oeuvre d'Ibn ‘Arabī, que constitui ainda a primeira e única tentativa de avaliar a extensão de seus escritos.

A seleção dos títulos a seguir foi realizada a partir daqueles que podem ser considerados seus principais trabalhos, com base no que é frequentemente mencionado em seus livros, ordenada em títulos curtos, em ordem cronológica aproximada, embora não contemple a totalidade da sua produção73.

Contemplações dos mistérios sagrados (Masāhid al-asrār al-qudsiyya). Escrito

em 1194-1195 d.C/590 H., na Andaluzia, dedicada aos discípulos do xeique 'Abd al-'Aziz al- Mahdaqī e ao seu primo por parte de pai, 'Ali b. al-'Arabī, em que o autor descreve uma

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71 Hernandez, M. C. Histoire de la pensée en terre d'Islam. Paris: Desjonquères, 2005, pág. 645. 72Fakhry, Majid. Histoire de la philosofie islamique. Paris: Cerf, 2007. p.276.

73Sobre a seleção das principais obras de Ibn ‘Arabī, aqui identificadas, ver também:

www.ibinarabisociety.org/intl/pt/maioresobras.html, que segue classificação das obras fornecida por Osman Yahia.

sucessão de 14 contemplações, em forma de diálogos com Deus e visões divinas.

O governo divino (Al-tadbīrāt al-ilāhiyya). Escrito em quatro dias, esta obra foi

provavelmente composta, pela primeira vez, antes do Masāhid, porém reescrita posteriormente. Enquanto estava hospedado na casa do xeique al-Mawrūrī, na Andaluzia, escreveu esta obra como resposta a um pedido do xeique para que explicasse o real significado da política secular.

Livro da jornada noturna (Kitāb al-Isrā'). Uma das mais importantes de suas

primeiras obras, escrita depois de sua grande experiência visionária em Fez, em 1198 d.C/594 H., descreve, em prosa rimada, seu encontro com as realidades espirituais dos profetas nos sete céus.

O lugar das estrelas (Mawāqi' al-nujūm). Escrito em 11 dias em Almería, em

julho de 1199d.C./595 H., para seu companheiro e discípulo Badr al-Habashī. É tido como o livro que explica o que todos os mestres espirituais precisam para ensinar; descreve os três graus de renúncia (isām), fé ('imān) e verdadeira bondade (isām), de acordo com três níveis de realização. Inclui uma detalhada discussão de como todas as faculdades e membros do homem participam do louvor divino.

O Fabuloso grifo do oeste. Provavelmente a última das obras compostas na

Andaluzia, escrita por volta de 1199 d.C/595 H., durante seu último ano na Espanha. A obra descreve em prosa rimada o significado da estação do Mahdi e do Selo dos Santos, como também o estágio da realidade mu¬ammadiana. Foi feito com a intenção de ser um volume que acompanhasse o Tadbīrāt (O governo divino).

A constituição dos círculos abarcantes (Insā' al-dawā'ir). Escrito em 1201

d.C/598 H., em Túnis para Badr al-Habashī e al-Mahdawī, antes de deixar o Ocidente e ir para Meca. Descreve os fundamentos de sua metafísica, discutindo a existência e a não existência, a manifestação e a não manifestação, como também o estágio do ser humano no mundo, usando diagramas e tabelas.

O nicho das luzes (Miskāt al-anwār). Composto ao longo do ano de 1202/3

d.C/599 H., em Meca. Encerra uma coleção de 101 hadīth qudsī, dizeres divinos.

O adorno dos substitutos (Hilyat al-Abdāl). Escrito em 1203 d.C/599 H., no

espaço de uma hora, durante a visita a Ta'if, para Badr al-Habasī. Descreve os quatro fundamentos da via: reclusão, silêncio, fome e vigília, como eles aparecem em termos físicos, como um tipo de abstinência e como são em sua realidade espiritual como condições do coração do servo.

em Meca, para o xeique al-Mahdawī, é uma das melhores fontes para conhecermos a vida de Ibn 'Arabī na Andaluzia e as pessoas que conheceu. Contém três partes: uma reclamação sobre a falta de compreensão de muitas pessoas que praticam a via sufi, uma série de textos biográficos de mais ou menos cinquenta sufis do Ocidente, e uma discussão das dificuldades e dos obstáculos encontrados na via.

A coroa das epístolas (Tāj al-rasā'il). Escrito em 1203 d.C/600 H., em Meca,

contém oito cartas de amor compostas para a Caaba, cada uma correspondendo a uma teofania do nome divino, observadas por ele durante o ritual dos giros.

A revelação em Mossul (Tanazzulât al-mawsiliyya). Escrito em 1205 d.C/602

H., em Mossul, descreve os segredos esotéricos dos ritos sagrados, ablução e oração, e como cada fase desses ritos diários está repleta de significado.

O livro da majestade e beleza (Kitāb al-Jalal wal-jamāl). Escrito em um dia,

no começo de 1205 d.C/601 H., em Mossul, discute vários versos alcorânicos em termos de dois aspectos, majestade e beleza, aludindo ao terceiro aspecto que os integra, o equilíbrio da perfeição.

O que é essencial para o buscador (Kitāb kunh mā lā budda lil-murīd minhu).

Também escrito no começo de 1205 d.C/601 H., em Mossul, delineia as práticas essenciais para alguém que está abraçando a via espiritual.

Alusões do Alcorão no mundo humano (Isārāt al-qur'ān fī 'alam al-insān).

Escrito na Turquia, na primavera de 1205 d.C./601 H., foi concebido como um volume que acompanhava o A revelação em Mossul (Tanazzulāt al-mawsiliyya). Muito além de uma simples apresentação de passagens alcorânicas, é uma meditação ampliada de cada sura do alcorão.

Epístola das luzes (Risālat al-anwār). Escrito no verão de 1205 d.C/602 H., em

Konia, na Turquia, em resposta ao pedido de um amigo e companheiro para que explicasse a jornada da ascensão a Deus e o retorno às criaturas. Descreve a busca espiritual em termos de uma ascensão contínua pelos vários níveis da existência e da sabedoria.

Kitāb al-alif, Kitāb al-bā', Kitāb al-yā', etc. Uma série de pequenos escritos,

usando um sistema de numeração alfabética, iniciada em Damasco, em 1205 d.C/602 H., composta durante três anos ou um pouco mais, discute uma série de diferentes princípios divinos, tal como a unicidade (ahadiyya), compaixão (rahma) e luz (nūr).

O livro dos dias da obra de Deus (Kitāb ayyām al-sa'n). Composto por volta,

ou um pouco antes de 1207 d.C/603 H., esta obra é uma meditação sobre a estrutura do tempo e os modos pelos quais as horas e os dias da semana se inter-relacionam e tem seu

fundamento no verso alcorânico "Cada dia Deus está em obra".

Livro das teofanias (Kitāb al-tajalliyāt). Escrito um pouco antes de 1209

d.C/606 H., em Alepo (cidade no N.O. da Síria), descreve uma série de visões teofânicas, sobre assuntos como perfeição, generosidade e compaixão, baseadas nos insights da segunda

sura do Alcorão. Estas visões frequentemente envolvem diálogos com santos que já

morreram, tais como Hallāj, Junayd ou Sahl al-Tustarī. O objetivo da obra é instruir o buscador sobre o que pode acontecer em sua jornada espiritual.

Livro da aniquilação em contemplação (Kitāb al-fanā' fī'l-musāhada). Escrito

em Bagdá, provavelmente durante sua segunda estadia lá, em 1212 d.C/608 H.. É uma meditação ampliada sobre a sura 98, descrevendo a experiência da visão mística e a diferença entre as pessoas do real conhecimento e as pessoas do intelecto.

Intérprete dos desejos ardentes (Tarjumān al-aswāq). Compilado em 1215

d.C/611 H., em Meca, embora tenha sido escrito durante um longo período, com um subsequente comentário composto posteriormente, no mesmo ano, em Alepo. Contém 61 poemas de amor, dedicados a uma pessoa, Nizām, aludindo aos segredos reais do amor místico e da herança profética.

Termos técnicos sufis (Istilāhāt al-sūfiyya). Escrito em 1218 d.C/615 H., na

Turquia, em resposta a um pedido de um querido amigo e companheiro. Contém 199 breves definições das mais importantes expressões de uso comum entre as pessoas de Deus.

O desvelamento dos efeitos da jornada (Kitāb al-isfār). O dia e o lugar da

composição não são conhecidos. A obra é uma meditação sobre o significado da jornada espiritual em geral e das jornadas dos profetas, em particular. Estas jornadas não têm fim, nesse mundo e nos próximos e são descritas como "um lembrete do que você esqueceu que está dentro de você e em sua posse".

O livro dos servos de Deus (Kitāb al-'abādila). Escrito antes de 1229 d.C/626

H., provavelmente em Damasco. Contém 117 partes dedicadas a indivíduos chamados 'Abd

Allāh, cada um descrito como sendo o "filho" de um particular nome divino e de um profeta.

Aparentemente a obra tem relação a um hadīt que diz que um homem possui 117 características, e explica a realização destas características em termos dos nomes divinos.

O livro dos engastes das sabedorias (Kitāb fu½ū½ al-¬ikam). Escrito depois de

uma visão que teve durante um sonho com um enviado de Deus, através da qual recebera o conhecimento do Livro dos engastes das sabedorias, em 1229 d.C/627 H., em Damasco. Dedicado ao significado espiritual das sabedorias transmitidas por 27 profetas, começando por Adão e terminando com Muhammad.

Catálogo de obras (Fihrist al-mu'allafāt). Escrito em 1229/1230 d.C/627 H.,

em Damasco, para Sadruddīn al-Qūnawī, este é o próprio catálogo de Ibn 'Arabī das obras que tinha escrito anteriormente a esta data.

Certificado para o rei al-Muzaffar (Ijāza lil-Malik al-Muzaffar). Escrito em

1234 d.C/632 H., em Damasco, para o governante da cidade, rei Ashraf al-Muzaffar, menciona 290 obras de seus mestres.

A linha do manto da iniciação (Kitāb nasab al-khirqa). A data e o lugar de

composição são incertos, mas provavelmente foi em 1236 d.C/633 H., em Damasco. Descreve sua própria filiação espiritual e como chegou à via. Também inclui as iniciações que fez aos outros.

Orações para a semana (Awrād al-usbū'). A data e o lugar de composição não

são conhecidos, embora tenham sido provavelmente compostas durante vários anos. Das muitas diferentes orações atribuídas a Ibn 'Arabī e ainda hoje extensivamente usadas, estas são talvez as mais conhecidas. São organizadas para cada dia e noite da semana, ao todo 14, escritas para recitação privada e para meditação.

O grande diwan (Al-dīwān al-kabīr). Escrito durante um período de muitos

anos, e parece não ter sido completada até 1237 d.C/634 H., em Damasco, esta vasta coleção de poemas tinha aparentemente a intenção de conter toda a poesia que tinha escrito em diferentes manuscritos. Alguns, intitulados Dīwān al-ma'ārif, incluem uma introdução que descreve a visão que o levou a escrever poesia e uma dedicação a Badr al-Habasī. A edição impressa, baseada num diferente manuscrito, parece ser apenas um volume da obra toda.

As iluminações mequenses (Al-futūhāt al-makkiyya). Iniciada em Meca em

1202 d.C depois de uma visão e completada em sua primeira versão de vinte volumes em manuscrito, em dezembro de 1231 d.C/629 H.. Uma segunda versão, em 37 volumes, foi completada em 1238 d.C/636 H.. Contém 560 capítulos, em seis partes e tinha a intenção de ser uma espécie de "epítome espiritual" do Islã, cobrindo o período total de 560 anos, do início da era islâmica até seu próprio nascimento Trata-se de uma exposição detalhada de cada faceta da vida espiritual, incluindo comentários inspirados sobre cada sura do alcorão, explicações de hadīth, jurisprudência, cosmologia e metafísica.

Dentre seus escritos presentes nessa seleção, o Futthāt al-makkiyah (As

iluminações mequenses) e Kitāb fu½ū½ al-¬ikam (O livro dos engastes das sabedorias)

o segundo, objeto do presente estudo74, apresenta-se como um dos pilares de sua metafísica, tendo sido escrita em Damasco, no ano de 1229 d.C/627H., quando Ibn ‘Arabī tinha 64 anos.

O Kitāb fu½ū½ al-¬ikam é a obra que trata da forma mais direta e aprofundada do significado dos profetas e das sabedorias por eles transmitidas, ao teorizar sobre o papel que assumem no cenário da criação e sobre a possibilidade de acesso ao conhecimento da essência divina ou do real. Em verdade, os sentidos de algumas das questões essenciais da filosofia e da mística islâmicas, como a relação entre o criador e a criatura, a possibilidade de conhecer a realidade primeira, a revelação da sabedoria divina, a profecia, a ciência das demais ciências, são apresentados nesse livro através de um pensamento estruturado metafisicamente.