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O texto que saúda o Ceará-Mirim numa manhã cinzenta e fria atravessa ainda algumas décadas e se transforma numa das páginas de um romance que surge no início dos anos 1980. Nas décadas de 1930 e 1940, o vale de Nilo Pereira vai se construindo nas crônicas e nos artigos que eram publicados em jornais natalenses e recifenses. No final da década de 1950, veio o primeiro livro. Dez anos depois, as memórias que se confessam memórias... Em 1982, Nilo Pereira se aventura novamente pelos caminhos do Vale. Não se tratava mais de uma viagem física, corpórea, mas de uma incursão pela escrita, uma viagem que o autor realizou através da imaginação e que o levou de volta às terras do Ceará-Mirim. Não era um discurso de exaltação ou um livro de memórias que o autor oferecia à sua cidade natal. Tratava-se de um romance. Na verdade, um discurso de exaltação e um livro de memórias sob a máscara da ficção. Do novo percurso do memorialista pelo Vale surgia A rosa verde, a escrita já velha, como Nilo, e rebatizada, mais um fruto das viagens do menino que sempre voltava. Para ele, “Volta- se também pelo sonho, como quem viaja nas asas da imaginação”, e faz-se “um poema interior” 25, um romance no qual o menino faz sua viagem de volta, pois “Ninguém pode viver sem a poesia da infância, que é o tempo restituído ao homem” 26.

Escrevendo sobre a vida que passou, ele reencontra o tempo que se foi, pois o momento da escrita, para quem rememora, significa se libertar do presente e viajar para o lugar onde se quer estar, ser novamente aquele que já não somos mais, revisitar a infância, ter de volta o passado, iludir-se com a promessa de eternidade. Alba Olmi nos ajuda a compreender que, ao escrever, “encontramos a libertação e a durabilidade”, o

      

24OLMI, Alba. Memória e memórias: dimensões e perspectivas da literatura memorialista. Santa Cruz do Sul:

EDUNISC, 2006, p. 35.

25 PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 19. 26 Idem.

que significa “Salvar as palavras de sua existência transitória e conduzi-las para o que é durável”, “tarefa de quem escreve”. Fechando o raciocínio, a crítica literária consegue tocar a questão essencial da escrita confessional, que aponta para a íntima relação entre memória e poesia: “quando o homem se lança à conquista de sua própria história, então a poesia o acompanha 27.

A trama do livro A rosa verde se desenvolve em torno dos acontecimentos vividos pelo cearamirinense na infância, algo já familiar ao leitor de Nilo Pereira. Novamente os personagens e paisagens de sua infância se encontram. Eles são reunidos mais uma vez pelo autor. No entanto, o menino do vale carrega agora o nome de Lauro, personagem principal da novela, e vai narrar novamente a chegada da luz elétrica à cidade, os episódios das cheias descendo pela Rua de São José, assistir mais uma vez aos efeitos da crise do açúcar de 191028, quando iniciou de vez o processo de decadência da indústria açucareira do Ceará-Mirim e, como conseqüência disso, da cidade também.

Para Nilo Pereira, o Vale merecia um pintor de sua paisagem social, como foi José Lins do Rego para o Nordeste açucareiro: “Não temos ainda romancistas que, à semelhança de José Lins do Rego, fixassem o nosso ciclo da cana de açúcar” 29. Nas palavras do memorialista, o Ceará-Mirim não teve o seu José Lins para mostrar suas paisagens sociológicas. É mesmo provável que a insistência dessa afirmação, desse clamor que se repete em seus livros, seja uma maneira de dizer que ele, o próprio Nilo, tomara para si essa missão, que ele realiza ao escrever sobre a cidade e a trajetória da indústria açucareira que se desenvolveu por lá.

O escritor regionalista tão aclamado pelo cearamirinense para contar a história social do vale, o romancista paraibano nascido no engenho Corredor, escolheu para tema de seus primeiros romances a decadência do engenho de açúcar no Nordeste. Os seus romances regionalistas chegaram a público como literatura ficcional. Ao poucos, a cada novo livro publicado sobre o tema, descobria-se que essa era uma estratégia para encobrir o memorialismo que habitava em seus textos. O primeiro título desse ciclo histórico-literário do escritor foi Menino de engenho. E, só depois de publicados todos

      

27 OLMI, Alba. Memória e memórias: dimensões e perspectivas da literatura memorialista, p. 12.

28 Para compreender a significação desses acontecimentos na obra de Nilo Pereira ver: MORAIS, Helicarla N. B. de.

Três rios dentro de um homem: Nilo Pereira em Imagens do Ceará-Mirim. Natal: EDUFRN, Sebo Vermelho, 2009.

os livros do ciclo do açúcar, apareceram Meus verdes anos, livro de memórias no qual são reveladas as origens das histórias contadas nos romances das décadas de 1930 e 1950. Em Meus verdes anos, o autor vai revelando que a riqueza de detalhes e cores do mundo dos engenhos e, principalmente, do período de transição para as usinas, apresentada em sua escrita, provém, não de uma rica imaginação literária, não somente, mas da sua vivência nesse mundo como menino de engenho que foi.

Nilo Pereira também buscou disfarçar a natureza confessional do romance que publicou em 1982. No caso do autor cearamirinense, há uma inversão: primeiro vieram as memórias e, para fechar o ciclo memorialístico sobre o vale do Ceará-Mirim, ele escreveu o seu primeiro romance, no qual surge mais um elemento da simbologia mítica que ele construiu em torno da cidade: A rosa verde que floresce no canavial. O artifício do narrador-personagem que transforma Nilo Pereira no menino Lauro no seu romance, é muito recorrente na obra dos escritores regionalistas, principalmente, daqueles que escrevem na primeira metade do século XX, quando se produz uma literatura preocupada em relatar a dissolução de uma certa realidade social da região Nordeste. Ao se tornarem eles mesmos personagens de seus romances, esses escritores transformavam suas memórias em memórias de um período, de um tempo.

Os três livros do cearamirinense mencionados aqui mais detidamente, Imagens

do Ceará-Mirim, Evocação do Ceará-Mirim e a A rosa verde resultam do

memorialismo do autor. São textos centrados no indivíduo, estabelecendo uma relação direta entre a vida e obra do sujeito, mas que também buscam retratar uma realidade que circunda o autor, um período histórico no qual ele e o grupo do qual fazia parte estavam inseridos. Podemos perceber nos três livros comentados que o autor estabelece uma relação literária que se assemelha àquilo que Pierre Lejeune denomina de “pacto autobiográfico”, colocando-se como autor-narrador-personagem, confirmando a aproximação da sua escrita com a escrita autobiográfica. Podemos afirmar então que a escrita de Nilo Pereira guarda elementos autobiográficos e memorialísticos, privilegiando, em sua narrativa, o indivíduo e aquilo que foi testemunhado por ele, constituindo-se em uma escrita confessional.

No campo literário, as fronteiras entre o discurso autobiográfico e o memorialismo não são bem definidas. Na verdade, as linhas que separam esses dois

       29 PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 47.

gêneros literários são muito tênues, permitindo mesmo que essas duas dimensões da escrita dialoguem de forma muito íntima. Para o crítico literário Wander Melo Miranda, “A distinção entre memorialismo e autobiografia pode ser buscada no fato de que o tema tratado pelos textos memorialistas não é o da vida individual, o da história de uma personalidade, características essenciais da autobiografia”. Nas memórias, “a narrativa da vida do autor é contaminada pela dos acontecimentos testemunhados que passam a ser privilegiados”. No entanto, “Mesmo se se consideram as memórias como a narrativa do que foi visto ou escutado, feito ou dito, e a autobiografia como o relato do que o indivíduo foi, a distinção entre ambos não se mantém muito nítida. O mais comum é a interpenetração dessas duas esferas” 30 – como percebemos nos textos de Nilo Pereira.

Os personagens criados pelos autores que escreveram romance-memória, como Carlinhos, o menino de engenho de José Lins, carregavam muito de seus autores, das histórias vividas por eles. Oromance-memória institucionalizava uma determinada visão sobre o período, o lugar, a sociedade materializada no Nordeste patriarcal. Nas palavras de Luciano Trigo, “o romance volta ao coração da realidade após a aventura do primeiro modernismo” 31 para refletir a perda de valores, sentimento que marca os livros do açúcar, que têm como discussão central a destruição de uma paisagem embotada pelo tempo. Esses romances, nos quais encontramos, em grande medida, um pensamento saudosista, abordam uma problemática individual e também regional, descrevem um mundo perdido e irrecuperável, a não ser pela via da memória. Esse ciclo histórico- literário que relata a transição do engenho para a usina é incentivado, no Nordeste da primeira metade do século XX, por Gilberto Freyre, o grande nome do regionalismo- tradicionalista.

Quando Nilo assinala que a riqueza social do Vale poderia servir de tela para um grande observador da vida nos engenhos, como foi o escritor José Lins do Rego, o faz com o objetivo de chamar a atenção para as semelhanças entre o mundo retratado pelo romancista e aquele que ele pretendia retratar. Ao assumir o papel de pintor social daquela realidade, Nilo Pereira buscava fixar as belezas de uma paisagem dizível apenas pelos traços de um pincel que descrevesse os contornos de lugar tão elevado como aquele que surgia de sua escrita. Fica muito claro em seus textos que a pintura que ele

      

30 MIRANDA, Wander Melo. Corpos escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago. São Paulo: EDUSP; Belo

Horizonte: Editora da UFMG, 1992, p. 36.

31 TRIGO, Luciano. Engenho e memória: o Nordeste do açúcar na ficção de José Lins do Rego. Rio de Janeiro:

desejava não deveria retratar somente o vale, onde se plantava cana de açúcar na cidade de Ceará-Mirim, mas o vale do Ceará-Mirim visto e escrito por ele, transformado em imagens literárias e pinturescas. Esse lugar que parece ter sido todo o horizonte da infância de Nilo Pereira surge em sua escrita sempre em cenas que impressionam os olhos. Quando escreve sobre o vale, escreve para os olhos, como podemos perceber no trecho que segue: “O vale todo reverdece, espraia-se quase preguiçosamente, lento e vasto como um antigo deus protetor vindo da mitologia da terra. A visão é a do paraíso”

32.

Diante de tal visão, ele então se perguntava: “Cadê os pintores que não vêm pintar?” 33. Encontramos num artigo publicado por Gilberto Freyre em 1924, no Diário

de Pernambuco, um questionamento muito semelhante em relação ao Nordeste

açucareiro, o Nordeste brasileiro. Para o antropólogo, faltava “no velho Nordeste a sumir-se”, onde “ha cousas a gritarem por um grande pintor que as pinte antes de morrer”,“Um grande pintor capaz de identificar-se com ellas” 34. Freyre conclui o artigo

com a seguinte pergunta: “‘Qu´é dos pintores do meu país estranho, Onde estão elles que não veem pintar?’” 35. Nesse artigo, ele assinala a riqueza da paisagem cultural de um recorte específico, “o velho Nordeste”, merecedor do pincel eternizador dos pintores/poetas. O mote dos pintores que não vêm pintar a terra é da poesia portuguesa, especificamente, de Antonio Nobre, que “morreu sem saber onde estavam os pintores de seu paiz” 36. Como fez com os memorialistas, Freyre se esforçava para arregimentar os pintores das paisagens humanas e das tradições do Nordeste: Manoel Bandeira, Lula Cardoso Ayres, Luis Jardim e Cícero Dias atenderiam ao chamado do antropólogo, o que permite chamá-los também de pintores-memorialistas, pois pintaram não somente aquilo que ainda podia ser visto no Nordeste, mas, principalmente, aquilo que gostariam de ver ainda e que estava inscrito na memória social do lugar.

Nilo, assim como Freyre, também encontrou quem atendesse ao seu chamado: “o pincel de Newton Navarro fixou o Guaporé em tela impressionista” 37. O pintor norte-rio-grandenseveio transformar de vez o vale de Nilo Pereira em obra de arte. Na cena retratada por ele, no meio da paisagem paradisíaca está encravado um dos

      

32 PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 36. 33 Idem, p. 36.

34 FREYRE, Gilberto. 54. Diário de Pernambuco. Recife, fev. 1924. 35 Idem.

símbolos da sociedade que constituía o velho Nordeste que Freyre buscava fixar: uma antiga casa de engenho, o Guaporé. A paisagem etérea de Nilo era composta pelo vale e pelas marcas que a sociedade do açúcar havia deixado ali. A poesia e a pintura foram as linguagens escolhidas para apreender essa realidade. A tela que o próprio Nilo Pereira pinta do Vale, por meio da escrita, leva as tintas de outros pintores – é moldada a partir do olhar desses outros que o guiaram na construção da sua escrita – pintores que escrevem poesia com o pincel e escritores que pintam paisagens comas letras.

Explicando a apropriação que faz dos versos do poeta português Antonio Nobre, seguindo o modelo adotado por Freyre, Nilo revela ainda a sua relação emocional com o Vale: “É o que me acode, o verso de Antônio Nobre. Sim, o verso de Nobre e só. Porque palavras não há que digam tudo” 38. O desejo por um pintor para as coisas do Vale traz em sua origem o saudosismo de Nobre apropriado por Freyre em seu esforço de transformar o Nordeste açucareiro em símbolo de tradição e originalidade da sociedade brasileira. O esforço de reunir paisagens e escritos sobre o Nordeste se explicam na seguinte relação: as memórias desses escritores e pintores de paisagens ameaçadas pelo esquecimento acabaram se tornando também as memórias de um período, de um lugar, de uma sociedade que eles buscavam reconstituir.