Uma das funções cognitivas mais centrais em todo o comportamento hu- mano é a capacidade de memória, de aprendizagem e do acesso intencional ao conhecimento armazenado. Os sistemas de memória podem ser analisa- dos do ponto de vista de sistemas de armazenamento e de evocação de longo termo de uma forma dual: um sistema declarativo ou explícito, que lida com os acontecimentos de uma forma consciente e um sistema não declarativo ou implícito, cujo acesso é feito de forma não consciente (Squire, Knowlton, 2000). Tulving (1972) divide a memória declarativa em semântica (memória de factos) e episódica (memória autobiográfica) e a memória não declarativa em memória implícita específica e memória de procedimentos. Estamos as- sim perante quatro sistemas de memória de longo termo, a que tem de se acrescentar o sistema de memória de curto termo ou também chamada de trabalho (Lezak et al., 2004).
A aquisição e retenção de informação resultam da interacção de várias redes de distribuição que actuam no tempo e no espaço. Várias teorias de conso- lidação da memória propõem a transferência gradual da informação a reter através do hipocampo e lobo temporal médio até ao neocórtex (Kapur, Bro- oks, 1999).
Apesar da aprendizagem implicar esforço por parte da pessoa, há a possi- bilidade de alguma informação ser adquirida de forma incidental (Kimball, Holyoak, 2000).
A informação guardada através do sistema de longo termo parece estar or- ganizada com base nos significados e associações enquanto a informação de curto termo se organiza em termos de contiguidade ou propriedades sen- soriais (Bower, 2000).
É muito comum verificarem-se diminuições na capacidade de memória de curto-termo e de span, que se vão reflectir em dificuldades de manutenção de informação fonológica. As dificuldades de manutenção de informação se- mântica reflectem-se em alterações de compreensão e de produção.
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A memória explícita ou declarativa lida com o conhecimento factual de coi- sas, pessoas, locais, eventos e do que eles próprios significam. É muitíssimo flexível e envolve a associação de múltiplas informações. A sua evocação é deliberada e consciente.
A memória episódica é autobiográfica, em que os acontecimentos estão en- quadrados num determinado espaço e tempo e com uma grande valência afectiva.
O papel na evocação, manutenção e manipulação de representações de sig- nificados, factos e do conhecimento do mundo em geral encontra-se intima- mente relacionado com a memória semântica, sendo crucial para o proces- samento da linguagem. A sua existência é independente do contexto espa- cial/temporal no qual é adquirida. Alterações na memória semântica podem ocorrer como resultado de uma multiplicidade de condições neurológicas: demência semântica, AVC, encefalite viral e doença de Alzheimer e podem provocar danos catastróficos na linguagem.
Podemos acrescentar que a relação linguagem e memória encontra-se espe- lhada no caso paradigmático da perda progressiva de conhecimento semâ- ntico observada em doentes com degenerescência seletiva do lobo temporal. A Demência semântica consiste num subtipo de demência frontotemporal e resulta da atrofia dos lobos temporais anteriores (Mummery, Patterson, Price, et al., 2000). Na demência semântica os doentes começam normal- mente por perder as características mais finas dos conceitos, que incluem os detalhes mais característicos desses conceitos. Isto verifica-se quer no discurso quer no desenho, o que demonstra que a perda do conhecimento semântico é multimodal e, portanto, há perda do conhecimento de como usar os conceitos (Bier, Macoir, 2010; Hodges, Bozeat, Lambon Ralph et al., 2000). Pessoas com demência semântica acabam por desenvolver erros tí- picos de alexia de superfície, em que a leitura de palavras irregulares é feita como se de palavras regulares se tratassem (Woollams, Lambon Ralph,
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Plaut, Patterson, 2007), demonstrando, por isso, o papel da memória semâ- ntica no processamento de palavras em que a correspondência grafema- fonema é irregular.
Mesmo em demências semânticas em estadios mais avançados as altera- ções de linguagem encontradas limitam-se às resultantes das alterações na memória semântica, havendo uma manutenção do processamento sintác- tico, fonológico e cálculo (Ash, Moore, Antani, et al., 2006). É de notar, igual- mente, que estas pessoas apresentam desempenhos de memória episódica bastante razoáveis (Hodges, Patterson, 2007).
Apesar de a anomia ser o sintoma ubíquo na demência semântica e na afasia anómica, nesta o problema resulta na dificuldade de evocação da palavra enquanto na demência parece não haver nada para procurar. Uma forma demonstrativa desta evidência é o facto das pessoas com afasia anó- mica beneficiarem de ajudas fonológicas no seu processo de evocação, o mesmo não se verificando nas pessoas com demência semântica (Jefferies, Baker, Doran, Lambon Ralph, 2007; Jefferies, Lambon Ralph, 2006; War- rington, Shallice, 1979).
Actualmente é consensual que a memória semântica envolve uma ampla rede distribuída por diversas regiões do cérebro (Martin, 2007), mas não é assunto encerrado se é unicamente resultado dessa rede de distribuição (Barsalou, 1999) ou se funciona como um “hub” semântico amodal (Rogers
et al., 2004).
A linguagem é uma capacidade que é adquirida através de mecanismos ge- rais de aprendizagem (Elman et al., 1997), por conseguinte é natural que a memória de procedimentos intervenha nos domínios em que o conheci- mento linguístico dependa da aprendizagem implícita, tais como sejam a sintaxe e a morfologia (Saffran, Aislin, Newport, 1996). A memória de pro- cedimentos, parte da memória implícita ou não declarativa, parece estar envolvida não só na aquisição das regras da linguagem, mas igualmente na sua aplicação. A hipótese de alteração nos procedimentos (Ullman, Pier-
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pont, 2005) não é livre de críticas. A ideia de a morfologia das palavras re- gulares e irregulares ser processada através de sistemas de memória inde- pendentes não é consensual (Kielar, Joanisse, Hare, 2008; Pinker, Ullman, 2002).
A memória implícita refere-se à informação acerca de como realizar algo. É recuperada inconscientemente, de forma não intencional e não verbalizável, sendo expressa através do comportamento.
A memória declarativa episódica relaciona-se com o lobo frontal através do estabelecimento de estratégias de aprendizagem e da procura da informa- ção, do hipocampo e regiões vizinhas através da combinação da informação das áreas cognitivas (neocórtex) e das áreas emocionais (límbicas) e da face interna do lobo temporal na aquisição e consolidação das memórias. A me- mória não declarativa relaciona-se com regiões frontais, gânglios da base e cerebelo (Squire, Zola, 1996).
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