Como indica Orlandi (2010, p. 28), as condições de produção compreendem os sujeitos e a situação, bem como a memória, pois esta também faz parte da produção dos discursos. Podemos dizer que as condições de produção, em sentido estrito, se referem ao contexto imediato, são as circunstâncias de enunciação; já em sentido amplo, elas incluem o contexto sócio-histórico-ideológico.
Neste estudo, abordamos a questão do corpo como elemento na sala de aula virtual de um curso de Licenciatura em Inglês e Literaturas de Língua Inglesa totalmente a distância. Tratamos de um curso formatado para atender à chamada do Plano Nacional de Formação de Professores para a Educação Básica (PARFOR) e que não teve o número de vagas ofertadas preenchido. Os ingressantes, maioria proveniente da demanda social, não compunham o público esperado de professores sem a licenciatura. Conforme a proposta pedagógica do curso (PARFOR, 2010, p. 13-15), no item referente à “forma de ingresso”, constava que 20% das vagas remanescentes seriam destinadas a candidatos da demanda social, porém o item destinado ao “perfil dos ingressantes” se referia apenas a professores que estivessem em exercício na Educação Básica Pública há, pelo menos, três anos, não licenciados, inscritos na "Plataforma Paulo Freire26".
No curso, observamos a formação docente em processo, a inauguração de um curso a distância, em uma conjuntura em que os avanços da tecnologia chegaram e conquistaram os diversos setores sociais rapidamente, envolvendo os sujeitos de formas variadas, com menos ou mais preparos para administrarem, servirem e serem servidos dessas tecnologias. Pensando na relação com os avanços na educação que apresentam um histórico de educação tradicional, de desenvolvimentos lentos, as percepções em relação ao curso, mais planejado e instituído para atender uma demanda social de professores de língua inglesa em exercício sem a licenciatura e que abrigou uma proporção significativa de alunos que não exerciam docência na língua inglesa em relação aos esperados pela oferta de vagas, isto é, um número considerável de ingressantes que não apresentavam um conhecimento básico imaginado pela organização do curso, manifestaram a visão de um problema. De um lado, a instituição
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universitária com um planejamento para conhecedores da língua inglesa, com uma primeira formatação de uma licenciatura na LI a distância e tutores iniciantes no papel da tutoria e, do outro lado, alunos com desejos e aspirações em relação à graduação em LI e com dificuldades relacionadas às tecnologias, ao aprendizado dessa língua e com uma base de formação na modalidade presencial, revelando filiações a memórias dessa modalidade de ensino.
O curso de Letras-Inglês PARFOR emerge inscrito por esses avanços com as TICs e inclusão destas nas práticas sociais, em um contexto da globalização. Esse curso aconteceu entre os anos de 2011 a 2015, funcionando a distância em quatro polos. A equipe de participantes era composta de um coordenador geral, o colegiado, um coordenador de tutores, professores autores, professores regentes, tutores e secretaria. Os tutores tinham o papel de mediadores da aprendizagem e subdividiam-se em presencial, como um suporte no polo de apoio presencial, e tutor a distância para maiores interações via plataforma.
Cada polo, inicialmente, era formado por duas turmas, passando, no decorrer do curso, a uma turma por polo, em razão de evasão, desistências. Assim, no início, o curso contava com dois tutores presenciais, um em cada turma no polo, e um a distância para cada uma das turmas. Com desistências e redução do número de alunos, a quantidade de tutores presenciais e a distância diminuiu cerca da metade. O número de alunos não teve o quadro da oferta das 50 vagas por polo preenchido e muitos que ingressaram eram provenientes da demanda social. Pelos abandonos, o número de alunos foi reduzido, permanecendo, aproximadamente, vinte por cento dos ingressantes.
O curso, na modalidade EAD, utilizou o Moodle, que é uma plataforma de apoio no ambiente virtual que possibilita a interação entre os participantes do curso, alunos, tutores, professores, coordenadores, mediante ferramentas acopladas e destinadas ao curso, à aprendizagem, pela utilização das TICs. Na versão utilizada nesse curso, o Moodle se constituiu em um espaço que funcionou como uma sala de aula virtual, um lugar de produção e acontecimento das interações e dos sentidos de ensinar e aprender a partir da proposta pedagógica do curso. Um curso de licenciatura em inglês e literaturas de língua inglesa com duração de 4 anos e carga horária de 2865. As atividades do curso ocorreram todas na plataforma Moodle, institucionalizada pela universidade, à exceção das provas, que eram presenciais e ocorreram em quatro polos da região sudeste.
A plataforma Moodle utilizada pela instituição no AVA possuía um design mais linear, e um tanto instrucional para facilitar o acesso dos participantes. Em um espaço chamado “Ambiente de secretaria”, com um clique, alunos, coordenação e tutores podiam se comunicar para o atendimento a procedimentos como os de uma secretaria presencial. Para uma conversa
direcionada à equipe pedagógica, tutores e coordenadores podiam interagir pelo “Ambiente de coordenação e tutoria”, abrindo e respondendo a fóruns, como também, tratarem de assuntos relativos a provas, ao desempenho dos alunos, enviar relatórios de trabalhos e discutir assuntos pertinentes ao curso. Esses ambientes pareciam exprimir o desejo de oferecer ao aluno um espaço de interação, interlocução mais disponível, mas essas “portas virtuais abertas” podem ser vistas como as portas das salas desses agentes em uma instituição de infraestrutura urbana, pelo funcionamento semelhante ao modelo do ensino presencial.
Nessa plataforma, as disciplinas eram dispostas “em fileiras”, em uma sequência linear que mantém um padrão reto, isto é, eram apresentadas com seus nomes colocados como em uma linha reta, um após o outro, buscando seguir uma ordem cronológica, das que seriam ministradas primeiramente, às que seriam depois, até a última no final do 8º período, encerrando o curso. Tal estrutura também se aplicava às atividades dentro das disciplinas, ou seja, na página correspondente a cada disciplina; as atividades da disciplina se encontravam uma detrás da outra, como na figura (1) abaixo, seguindo o cronograma de sua realização e sistematizando uma estrutura de organização regular da plataforma Moodle.
Figura 1 - Recorte com imagem da disposição das atividades de uma disciplina do Moodle do Curso analisado.
Essa ordenação nos evoca uma memória de um modelo tradicional, de um ensino presencial de carteiras enfileiradas, em que os alunos se assentam em cada fileira um atrás do outro, uma configuração para direcionar o aluno, que limita o espaço e conduz à regulação, disciplinarização. Ainda, clama-nos a pensar que seria um modo de organização projetado mesmo a alunos que não possuíam contato com esse modelo de ensino, com as TICs, e precisariam ser conduzidos e instruídos para a utilização da plataforma, ou que possuíam, mas, para não “divagarem”, também necessitariam de um “adestramento” corporal, um
instrucionalismo e gerenciamento político-institucional, uma educação mais aproximada de padrões tradicionais autoritários, na ordem dos que comandam.
Cada disciplina no Moodle dispunha de um fórum de dúvidas como um canal facilitador para esclarecimentos ao aluno, para condução do saber. As disciplinas, em geral, eram organizadas havendo em cada uma cerca de 4 ou 5 módulos. Os 4 primeiros módulos eram destinados às diversas atividades, nessas, os prazos de entrega eram delimitados e encontravam-se em destaque, imputando também o controle da instituição. O último módulo se referia à prova presencial que, em sua maioria, era totalmente escrita, com exceção de algumas disciplinas em que o aluno utilizava áudio para gravar a resposta. Para a realização das provas ao final de cada disciplina, os alunos se encontravam, presencialmente, nos polos de apoio. Nesses polos, além das provas, os tutores presenciais efetuavam plantões para atendimentos a dúvidas, mas, por percepções na posição de tutora, poderia mencionar que dizeres acerca de deslocamento e tempo foram enunciados pelos alunos como dificultadores para a utilização do polo de apoio com regularidade para outras propostas que não as provas. Ainda, como não havia uma atividade avaliativa regular que demandassem a ida a esse espaço além das provas marcadas, então, em geral, era no momento dessas provas que o polo ficava mais frequentado pelos alunos. Percepções que evocam discursos como do campo da educação acerca do aluno “só fazer se for para ganhar nota”, esse discurso faz parte de uma educação pela premiação, e do campo sociopolítico ou jurídico como “não saber escolher”, “quando tem direito não sabe utilizar”, que, pela memória de colônia, pode dizer de uma autonomia que ainda não foi legitimada.
O material didático ficara a cargo dos professores autores, que elaboraram um fascículo para cada disciplina do curso a ser ministrada por professores regentes; estes eram os responsáveis pelas disciplinas, supervisionando-as e auxiliando os tutores nas atividades propostas. Os materiais didáticos foram distribuídos aos alunos na forma impressa até meados do curso, sendo estes os das disciplinas dadas nesse período. Eles também foram inseridos na plataforma Moodle, em todas as disciplinas ao longo do curso, como link para o arquivo “pdf”. Nesse ambiente, o material didático ficou conhecido para os alunos por “guia”, palavra que nomeou os arquivos para a leitura no meio digital ou para que pudessem eles mesmos imprimir. Acerca deste fato, na posição de tutora do curso, por observações e por reclamações de muitos alunos, pude perceber a dificuldade presente ainda em uma leitura do guia pelo computador. Muitos alunos perguntavam pelo material impresso e expressavam a preferência por essa forma de leitura/estudo. Os materiais didáticos apresentavam uma linguagem a
aproximar os sujeitos, isto é, dialógica para a inter-relação professor e aluno, e também para a aprendizagem do conteúdo para a relação teoria-prática.
As turmas eram heterogêneas, de faixa etária entre 20 e 65 anos, sendo a maioria mulher. Muitos integrantes ainda sem uma graduação. Na posição de tutora, a partir de conversas informais, foi possível perceber que havia alunos trabalhando fora e/ou dentro de casa, envoltos por um sistema capitalista em um tempo em que as tecnologias avançam; a velocidade impera e atropela os sujeitos que não acompanham, o que parecia acontecer pela expressão de angústia em alguns alunos e comentários sobre o passar rápido do tempo e a preocupação com a necessidade de formar para realização pessoal e profissional, mercado de trabalho e melhoria financeira. Vale ressaltar a presença de alunos que estavam há muito tempo sem estudar e ingressaram no curso.