Devido as características do instrumento utilizado, maconha/haxixe/skank foram avaliadas simultaneamente não sendo possível estabelecer qual a mais utilizada. No entanto, é provável que seja a maconha pois, sua prevalência anual de uso nos países das Américas é de 8,4% entre a população de 15 a 64 anos de idade, o que faz desta substância a droga ilícita mais amplamente utilizada (UNODC, 2015). Na Inglaterra e no País de Gales (BENNETT, 2014) e na Espanha (HERNÁNDEZ-SERRANO; FONT-MAYOLAS; GRASS, 2015) observaram-se que a maconha era a droga ilegal com maior prevalência de uso entre universitários.
Um quarto dos universitários que participaram deste estudo já fizeram uso de maconha/haxixe/skank alguma vez na vida e esta prevalência foi semelhante a encontrada entre universitários das 27 capitais de estados brasileiros (26%) - (BRASIL, 2010). Em uma universidade particular de Curitiba-PR, as frequências de universitários que já fizeram uso na vida destas substâncias variaram de 23% a 43% entre estudantes dos cursos de Fisioterapia, Nutrição, Educação Física e Psicologia (CHIAPETTI; SERBENA, 2007). Em Girona- Espanha, a frequência de universitários que já fizeram uso de maconha na vida foi de 31% (HERNÁNDEZ-SERRANO; FONT-MAYOLAS; GRASS, 2015).
Nos últimos 12 meses e nos últimos 30 dias, a maconha/haxixe/skank também foi a droga ilícita mais consumida pelos estudantes avaliados. Na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), entre estudantes de psicologia, observou-se maior prevalência de uso na vida de tranquilizantes do que de maconha, mas, nos últimos 12 meses e nos últimos 30 dias houve maior prevalência entre os universitários de uso de maconha do que de tranquilizantes (SANTOS; PEREIRA; SIQUEIRA, 2013). Em outros estudos também realizados na UFES com estudantes da área da saúde, a frequência de universitários que fizeram uso na vida de maconha foi menor do que a de universitários que fizeram uso de ansiolíticos, anfetamínicos e solventes (MADERGAN et al., 2007; PEREIRA et al., 2008). Em Botucatu-SP, verificou-se entre estudantes de medicina que a prevalência de uso de maconha nos últimos 30 dias foi menor do que a de solventes. Os autores relataram que a facilidade de acesso a éter e clorofórmio dentro dos hospitais justificaria este consumo (KERR-CORRÊA et al., 1999).
Porém, no presente estudo, entre os estudantes da área da saúde o uso de maconha/haxixe/skank foi mais prevalente do que o uso de inalantes/solventes.
A maioria dos universitários experimentou maconha/haxixe/skank pela primeira vez até os 18 anos de idade, mas 37% relatou o primeiro consumo após os 19 anos de idade, o que possivelmente teria ocorrido após entrarem na universidade. Em um estudo realizado na Carolina do Norte e na Virginia - EUA, 8,5% dos estudantes universitários que nunca tinham usado maconha na vida experimentaram pela primeira vez no primeiro ano da faculdade (SUERKEN et al., 2014).
Entre os universitários que já fizeram uso de maconha/haxixe/skank na vida, 24% faziam CCRD. Possível tráfico de drogas dentro ou próximo à universidade poderia justificar a facilidade de acesso a estas substâncias e, consequentemente, facilitar seus usos abusivos. Nos EUA, o transtorno do consumo de maconha, ou seja, problemas relacionados ao seu uso, foi associado à facilidade de acesso pelos universitários (BECK et al., 2009). É possível também que a maioria dos estudantes não tenha consciência de que faz consumo prejudicial à saúde. Em outro estudo realizado nos EUA, 47% dos estudantes universitários dos três primeiros anos de faculdade preencheram os critérios para transtornos por uso de álcool e/ou maconha, mas apenas 4% deles percebiam a necessidade de ajuda para tratamento (CALDEIRA et al., 2009). A prevalência de CCRD de maconha/haxixe/skank encontrada neste estudo foi menor do que aquela observada em uma universidade particular de Gravataí- RS (33,3%) - (MEDEIROS et al., 2012).
O uso de maconha/haxixe/skank na vida, nos últimos 12 meses e nos últimos 30 dias foi mais prevalente entre os estudantes do sexo masculino, assim como o CCRD desta substância. Entretanto, quando se observou a frequência com que estas drogas foram consumidas nos últimos 30 dias, o consumo semanal foi semelhante entre homens e mulheres que fizeram seus usos. Esses resultados mostram que os homens são mais vulneráveis ao uso e abuso de maconha/haxixe/skank, mas que o modo de consumo não é influenciado pelo sexo do universitário. Neste caso também não há uma explicação clara para o CCRD ser diferente entre os sexos e o consumo semanal ser semelhante. Entre universitários das capitais de estados brasileiros também foi observada maior prevalência de CCRD de maconha/haxixe/skank entre os estudantes do sexo masculino (ANDRADE et al., 2012). Em Girona-Espanha, o uso da maconha também foi associado ao sexo masculino, mas, diferente do encontrado no presente estudo, os homens eram os que mais faziam consumo semanal destas substâncias (HERNÁNDEZ-SERRANO; FONT-MAYOLAS; GRASS, 2015).
O fato de haver maior prevalência de uso na vida de maconha/haxixe/skank entre universitários concluintes em relação aos demais, leva a supor que durante seus cursos os universitários estão tendo oportunidade de entrar em contato com estas drogas, seja no ambiente universitário ou fora dele, assim como foi observado para o uso do tabaco. Também se observou entre os universitários concluintes, maior tendência de uso destas substâncias nos últimos 12 meses e nos últimos 30 dias. Isto indica que, diferente do que ocorre com o uso do tabaco, possivelmente não há um aumento no conhecimento sobre os malefícios destas drogas no decorrer da graduação ou, se há, este conhecimento não é suficiente para estimular a diminuição deste consumo. No entanto, quando se observou a frequência com que estas drogas foram consumidas nos últimos 30 dias, o consumo semanal foi semelhante entre os estudantes dos três períodos do curso, assim como o CCRD. Isto sugere que o modo como a maconha/haxixe/skank é consumida não se altera de acordo com o tempo em que o universitário se encontra na faculdade.
As prevalências de uso de maconha/haxixe/skank, em todos os intervalos de tempo avaliados, assim como a prevalência de consumo semanal nos últimos 30 dias e de CCRD foram semelhantes entre os universitários das diferentes áreas de conhecimento. Estes resultados indicam que as características socioambientais particulares de cada curso não exercem influências no consumo de maconha/haxixe/skank entre os universitários. Em um estudo realizado em João Pessoa-PB observou-se posturas diferentes entre os universitários em relação ao uso de maconha: 60% dos estudantes da área de tecnologia, 44% e dos estudantes da área da saúde e 32% dos estudantes da área jurídica eram favoráveis ao seu uso (COUTINHO; ARAÚJO; GONTIÈS, 2004).
É importante entender, para fins de prevenção, os reais motivos e fatores relacionados ao grande consumo de maconha entre universitários. Em João Pessoa-PB, os estudantes relataram usar maconha principalmente para fugir dos problemas pessoais e também por influência dos amigos, por curiosidade e prazer (COUTINHO; ARAÚJO; GONTIÈS, 2004). Na Carolina do Norte e na Virginia a experimentação de maconha no início da faculdade foi relacionada a morar no campus, não frequentar atividades religiosas, ter maior renda, consumir álcool e tabaco, além de ter sido associada ao uso de outras drogas ilícitas (SUERKEN et al., 2014). Em outro estudo realizado nos EUA, observou-se que os motivos para o consumo de maconha era a facilidade de acesso, para aumentar a sensação de bem- estar, para conviver e interagir socialmente (BECK et al., 2009).