Partindo-se do princípio de que uma maior negociação pode provocar melhorias nos textos escritos, solicitou-se aos alunos que procedessem à correção dos textos escritos de forma oral. Segundo Hedgcock e Lefkowitz (1992), a correção oral de textos escritos provê oportunidades de mediação verbal e comunicação centrada no significado na língua-alvo. Dessa forma, há uma reciprocidade maior entre os papéis de leitor e escritor (Nystrand, 1990).
Os alunos não receberam instruções sobre como efetuar a correção, pois um dos meus objetivos era verificar os padrões de correção desempenhados por eles. Além do mais, como afirma Vygotsky (1998), os pesquisadores devem abandonar períodos de treinamento e prover instruções mínimas aos participantes de uma pesquisa para a realização de uma tarefa, se quiserem saber realmente que estratégias utilizam ao realizá-la.
Para tanto, cada par de alunos recebeu um gravador para registrar em fita cassete as interações ocorridas, em sala de aula, durante a correção com o colega. As gravações foram, posteriormente, transcritas e entregues aos alunos, antes das entrevistas, para que
36. A terceira atividade foi escolhida para fazer parte dos Anexos por ser uma atividade da qual os dez alunos participaram.
pudessem observar o que fizeram e o que falaram durante o processo de correção – um tipo de stimulated recall (Nunan, 1992).
As gravações das atividades totalizaram 5 horas e 11 minutos, e foram gastas 55 horas e 30 minutos para transcrevê-las. A atividade de correção que levou mais tempo foi a realizada por Hugo e Antônia (terceira atividade – 35 minutos e 20 segundos), e a que levou menos tempo foi a realizada por Cristiano e Márcio (segunda atividade – 6 minutos e 30 segundos), pois Márcio, naquele dia, estava quase afônico.
Na transcrição das interações, com base em Marcuschi (1997), foram utilizadas as seguintes simbologias:
“texto” → indica que o aluno está lendo o texto
‘sugestão’ → indica que uma sugestão de mudança no texto está sendo dada
itálico → indica que uma palavra está sendo motivo de discussão entre os participantes, ou
que eles querem saber ou informar o significado de uma palavra. palavra- → indica uma interrupção
... → indica pausa
[ → indica fala sobreposta ( ) → indica comentários meus
(?) → indica ruído na gravação ou algo ininteligível
A transcrição das interações ocorridas durante a terceira atividade encontra-se no Anexo E.
3.3.4 Transcrição das gravações das entrevistas
Tanto os alunos participantes como a professora da turma foram entrevistados sobre as atividades de correção realizadas em sala de aula.
Na transcrição das entrevistas foi utilizada basicamente a mesma simbologia empregada na transcrição das interações (cf. 3.3.3), tendo sido adaptadas as seguintes:
“discurso direto” → indica que o aluno está usando o discurso direto.
3.3.4.1 Entrevistas com os alunos
Os alunos foram entrevistados em português, sua L1, para que pudessem expressar- se com maior fluência. Como advertem Seliger e Shohamy (1989), a utilização da L2 em entrevistas pode limitar a atuação dos participantes e, dessa forma, limitar as possíveis descobertas de uma pesquisa. Os alunos foram entrevistados individualmente em uma sala privada do laboratório de línguas, o que propiciou um ambiente de silêncio e de maior confiança por parte dos participantes. A maioria dos alunos foi entrevistada cinco vezes.37 A primeira entrevista, conforme afirmei anteriormente, ocorreu antes das atividades de correção e teve como objetivo obter maiores informações sobre os participantes e suas concepções de escrita e correção. As perguntas dessa entrevista encontram-se no Anexo F.
As outras quatro entrevistas tiveram como objetivo principal obter informações quanto à percepção dos alunos sobre as atividades de correção das quais participaram, tais como: as possíveis dificuldades que tiveram, como agiram, sentimentos etc. As entrevistas foram semi-estruturadas (Seliger e Shohamy, 1989; Wallace, 1998), ou seja, havia um número de perguntas a serem feitas a todos os participantes e outras eram acrescentadas de acordo com o que os participantes falavam. Dessa forma, com base nas pesquisas sobre correção com os pares por mim revisadas – principalmente nas perguntas feitas por Mangelsdorf (1992) e Mendonça e Johnson (1994) em seus estudos – e com o intuito de responder a algumas das minhas perguntas de pesquisa, elaborei as seguintes perguntas, que foram feitas nas entrevistas sobre cada atividade:
1) Eu gostaria que você comentasse sobre o processo da escrita do seu texto inicial. Que estratégias você utilizou para escrevê-lo? (O que você fez para escrevê-lo?)
2) Você revisou o seu texto antes da atividade? Caso positivo, como ocorreu essa revisão? Você revisou sozinho(a) ou teve a ajuda de alguém?
3) Como você e seu(sua) colega realizaram a correção dos textos?
4) Como você avalia a atividade de correção da qual você participou? O que o(a) afetou positivamente ou negativamente?
37. Além da entrevista inicial, Paloma e Pollyana foram entrevistadas três vezes, e Hugo e Antônia foram entrevistados duas vezes, pois não compareceram a todas as atividades de correção.
5) Como você avalia o seu desempenho em tal atividade?
6) Como você se sentiu ao corrigir o texto do(a) seu(sua) colega? 7) Como você se sentiu ao ser corrigido por seu(sua) colega?
8) De que forma você procurou ajudar o(a) seu(sua) colega a melhorar o que havia escrito? Quando você corrigia o texto dele(a), o que chamava mais sua atenção: a forma ou o conteúdo?
9) Você teve alguma dificuldade em tal atividade?
10) O que você fez quando tinha alguma dúvida ao corrigir o texto do(a) seu(sua) colega?
11) Os comentários do(a) seu(sua) colega foram úteis para você? Você os utilizou ao reescrever o seu texto?
12) O que você aprendeu com essa atividade?
13) Você preferiria que o seu texto tivesse sido corrigido pelo professor ao invés de ter sido corrigido pelo(a) seu(sua) colega?
14) Como você avalia o seu texto inicial e o texto reescrito a partir da correção com o(a) seu(sua) colega?
15) Você se lembra de mais alguma coisa que gostaria de falar sobre a atividade?
As gravações das entrevistas totalizaram 10 horas e 40 minutos, e foram gastas 120 horas e 44 minutos para transcrevê-las. A entrevista mais longa (realizada com Cristiano – segunda atividade) durou 33 minutos e 48 segundos, e a mais curta (realizada com Paula – quarta atividade) durou 7 minutos e 14 segundos. A transcrição das entrevistas realizadas sobre a terceira atividade de correção encontra-se no Anexo G.
3.3.4.2 Entrevista com a professora
A entrevista com a professora foi realizada em português e teve como objetivo obter informações pessoais, bem como informações a respeito de suas percepções sobre o processo de correção com os pares. Ela foi realizada no final do processo, ou seja, no final do período de coleta de dados, e foi também uma entrevista semi-estruturada.
A entrevista durou 28 minutos e 35 segundos, e foram gastas 3 horas e 10 minutos para transcrevê-la. Na sua elaboração, não me baseei em estudo algum, pois, na maior parte
das pesquisas feitas sobre correção com os pares, o professor é o pesquisador e, dessa forma, não é entrevistado. Deste modo, elaborei as seguintes perguntas para a entrevista:
1) Gostaria que você falasse um pouco sobre a sua formação acadêmica e profissional.
2) Que tipos de abordagem e materiais você utiliza em suas aulas? 3) Como você trabalha a habilidade de escrita em sala de aula? 4) Como você geralmente corrige os textos de seus alunos?
5) Você já havia utilizado a correção com os pares em suas aulas anteriormente? 6) Como você avalia esse tipo de correção? Gostaria que você comentasse sobre
os pontos positivos e os negativos.
7) O fato de a pesquisa ter sido realizada com os seus alunos influenciou as suas aulas? Para você foi positivo, negativo, ou irrelevante?
8) Ter utilizado esse tipo de correção em suas aulas atrapalhou de alguma forma o andamento do seu programa?
9) Na sua opinião, esse tipo de atividade favoreceu o desenvolvimento da escrita dos seus alunos? Por quê (não)? Você poderia falar particularmente sobre o desempenho de cada participante?
10) Você pretende continuar usando essa forma de correção em suas aulas? Por quê (não)?
11) Há mais alguma coisa que você acha relevante falar sobre a atividade?