A evolução das disciplinas da Ciência e História Natural contribui para a passagem de uma apreciação especulada de objetos exóticos e curiosidades para uma observação e registo cien- tífico mais rigoroso. Os exemplos das viagens filosóficas do século XVIII e respetivos registos documentais e gráficos da exploração de novos territórios demonstram essa preocupação:
«Até porque nessas obras, e em outras formas complementares de informação, os desenhos e as gravuras prolongavam e atualizavam a tradição que já vinha das iluminuras medievais, dizendo pela imagem o que as palavras não eram capazes de dizer.»40
Para os portugueses o campo de observação começou por ser o Oriente e o Brasil, alargado posteriormente a África, cujas explorações do final do século XIX consolidaram essa atividade, em estreita relação com a evolução da ciência. Essa evolução é patente na representação dos Reinos da Natureza vistos na Antiguidade e Idade Média através de lendas e mitos, refletindo uma visão simbólica e religiosa que, com a estruturação posterior da História Natural, deu ori-
gem à visão experiente do «claramente visto».41 Apresentam-se, a título de exemplo, algumas
representações visuais dos territórios descobertos que demonstram essa evolução: a uma das
primeiras representações de caráter mais ingénuo das ilhas de Cabo Verde de 1505 (Fig.1.2),
ou à representação de caráter fantástico do território brasileiro de 1592, com as suas criaturas
bestiais e voadoras (Fig.1.3), opõem-se os registos mais cuidados da aguarela de José Joaquim
Freire, com a legenda descritiva de uma vista panorâmica, executada no âmbito da Viagem Filosófica ao Brasil do naturalista Alexandre Ferreira Rodrigues, ocorrida entre 1783 e 1792 (Fig.1.4); ou os desenhos analíticos de caráter mais científico das geografias registadas por Ale-
xander von Humboldt em 1850 (Fig.1.5). É possível identificar também as diferentes aborda-
gens de representação no que diz respeito às populações: as figuras surreais da representação do
Reino da Guiana de 1603, pertencem claramente ao mundo da imaginação (Fig1.6), enquanto
as personagens chinesas são representadas, em 1669, de forma desproporcional nas suas indu-
mentárias exóticas, num cenário que se pretende detalhado (Fig.1.7). A representação dos habi-
tantes de Moçambique, com data de 1598, revela curiosamente, uma abordagem paralela aos
40 Cristóvão (1999), «A Literatura de Viagens e a História Natural», in Condicionantes Culturais
da Literatura de Viagens. Estudos e Bibliografias, coord. Fernando Cristóvão, Coimbra: Almedina,
p.188.
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cânones europeus cuja representação fisionómica remete às esculturas greco-latinas42 (Fig.1.8).
Por outro lado, os desenhos da autoria de Joaquim José Codina, que participou também como desenhador na já referida expedição filosófica ao Brasil no final do século XVIII, revelam ten-
tativas de registos fiéis dos índios, seus adereços, máscaras e objetos exóticos (Figs.1.9 e 1.10),
distanciando-se significativamente da deturpação das representações iniciais. As gravuras ini-
ciais, baseadas nas descrições dos viajantes do século XVI, são necessariamente condicionados pelo «testemunho da surpresa, o relato do insólito, o depoimento entusiasmado ou apreensivo sobre a nova realidade física ou humana, numa eterna busca de símbolos capazes de representar
plasticamente as gentes, a natureza, os hábitos, os objetos e os deuses recém-descobertos.»43
Sobre a perspetiva do olhar do viajante, João David Pinto-Correia realça a importância do ponto de vista do sujeito observador e o modo como os mundos descobertos são, por ele, registados, considerando as várias formas que esse olhar adquiriu: desde o «olhar ingénuo», ao «olhar do deslumbramento», «olhar do poder», «olhar da desilusão e das utopias», «olhar da má-fé».
«Actualmente, em muitas propostas de estudo, insiste-se na perspectivação de algumas realidades da Literatura de Viagens pela via do olhar. E tal atitude é bem significativa da importância que, num plano de pressuposição e igualmente ao nível dos enunciados, se atribui à paisagem, sem dúvida, mas às gentes, objectos, costumes – de qualquer forma à componente Espaço, mais do que a componente Tempo.»44
Relativamente às viagens de expansão, o autor conclui que o olhar do viajante começou pela in- genuidade desprendida perante a contemplação do desconhecido para ser, naturalmente, sobre- posta por determinações temáticas que se interpuseram neste contacto. A ideia da «construção» dos Novos Mundos, por oposição à sua «descoberta» é lançada por Maria da Graça Mateus Ventura, que descreve a ideia de «deformação», «reconfiguração, correção ou distorção» do que
podemos chamar de realidade, a partir do registo individual e subjetivo de cada olhar.45 A autora
refere ainda os processos de comparação e analogia nos discursos de apresentação do «novo», cuja leitura é orientada frequentemente por «velhos» paradigmas reconhecidos.
42 Lopes, Marília dos Santos (1998), Coisas maravilhosas e até agora nunca vistas. Para uma ico-
nografia dos Descobrimentos. Lisboa: Quetzal Editores. p.55.
43 Idem, p. 16.
44 Pinto-Correia, João David (2003), «Deslumbramento, horror e fantasia: o olhar ingénuo na Li- teratura de Viagens», in O Olhar do Viajante. Dos Navegadores aos Exploradores, coord. Fernando Cristóvão, Coimbra: Almedina, pp.9.
45 Ventura, Maria da Graça Mateus (2003), ««Do Paraíso Terrenal» a «El Purgatório»: percursos de desencanto.», in O Olhar do Viajante..., pp.231-252.
Fig.1.2 Fig.1.3
Fig.1.4 Fig.1.5
Fig.1.2 - Uma das primeiras representações dos povos de Cabo Verde. (Den rechten Weg auß zu faren
von Lißbona gen Kallakuth, Nuremberga, 1505).
Fig. 1.3 - Visão do Brasil que mistura criaturas fantásticas e povos nativos. (Americae tertia pars, Theodore de Bry, Frankfurt, 1592).
Fig. 1.4 - Prospecto da Villa de Monforte na Ilha Grande de Joannes, Aguarela de José Joaquim Frei- re, 1783 (espólio da viagem de Alexandre Rodrigues Ferreira ao Brasil entre 1783- 1792).
Fig. 1.5 - Himalaya, circa 1850, Alexander von Humboldt. (H. Berghaus, 1851, Physikalischer
Fig.1.6
Fig.1.7
Fig.1.8
Fig.1.9
Fig.1.10
Fig.1.6 - Representação relativa ao Reino da Guiana. (Levinus Helsius: Kurtze Wunderbare Beschrei-
bung. Beschreibung Deß Goldreichen Konigreichs Guianae in America, Nuremberga, 1603).
Fig.1.7 - Legação da Sociedade da Índia Oriental. (Johan Nieuhof: Die Gesantschaft der Ost-Indis-
chen Geselshft, Amesterdão, 1669).
Fig.1.8- Cena do quotidiano dos habitantes de Moçambique. (Theodor de Bry: Ander Theil der Orien-
talisch Indien, Frankfut, 1598).
Fig.1.9 - Chefe do Gentio Aycurú, habitante no Rio Paraguay. S/ autor, 1791. (espólio da viagem de Alexandre Rodrigues Ferreira ao Brasil entre 1783- 1792).
Fig.1.10 - Máscaras dos índios jurupixunas, Joaquim José Codina, 1787. (Espólio da viagem de Ale- xandre Rodrigues Ferreira ao Brasil entre1783- 1792).
«A iconografia, como os textos narrativos, são representações cujo valor intrínseco consiste na dualidade objeto / sujeito. A informação que contêm ganha valor pelo que traduzem das possibilidades de leitura do mundo, ou seja, dos paradigmas europeus de receção e leitu- ra.»46
Sobre as «cores do imaginário oitocentista», Maria de Aires Silveira identifica modelos ou significantes culturais relacionados com o pensamento romântico, cuja importância, aliada à proliferação do periodismo, provocou a necessidade de estabelecer a ligação entre «a imagem criada pela palavra e a imagem visível, perante o interesse em atualizar a narrativa arquitetada e
a difusão de conhecimentos úteis, em gravura e mais tarde em reprodução fotográfica.»47
O registo visual e documental da realidade vem na tradição anterior dos séculos XVII e XVIII da compilação do mundo em álbuns – atlas cartográficos, botânicos, geológicos – a partir de desenhos ou gravuras e, agora, de fotografias. No seu texto introdutório ao catálogo Por-
tuguese Photography since 1854. Livro de viagens, Peter Weiermair evidencia a ligação entre
fotografia e viagem, existente desde a invenção da prática fotográfica e que sempre serviu como um meio de documentação, através do qual os leitores encontravam o desconhecido e exótico
em efígie, mesmo antes de o experienciarem como realidade.48 É esta relação de «descoberta
visual» do mundo que se pretende evidenciar e que servirá de auxílio para a análise e interpre- tação do objeto de estudo selecionado, desenvolvida no capítulo seguinte.
46 Ventura (2003), «Do Paraíso ...», p.252.
47 Silveira, Maria de Aires, «Verdade e Ironia – As cores do imaginário oitocentista», in Tesouros da
Fotografia Portuguesa…, p.54.
48 Weiermair, Peter (1998), «The Journey as a Metophor for Life», in Portuguese Photography since
1854. Livro de viagens, catálogo coord. por Tereza Siza e Peter Weiermais, Zurique: Edition Stemmle,