Quando Daniel Parish Kidder chegou ao Brasil, já havia uma igreja institucionalizada trazida pelos colonizadores. A Igreja Católica Apostólica Romana estava presente na vida dos brasileiros há mais de três séculos. Nesta pesquisa já se tratou de como estava essa igreja, abordando somente os aspectos observados pelos intelectuais e pelos viajantes. A seguir observará como era governada essa igreja e o que a fazia ser alvo de tantas críticas, como já foi relatado anteriormente.
A religiosidade brasileira era regida pelo caráter obrigatório, segundo Hoornaert (1991, p. 13) “Era praticamente impossível viver integrado no Brasil sem seguir ou pelo
menos respeitar a religião católica”. Para o autor não havia outra opção, todos os brasileiros eram católicos, ser brasileiro era sinônimo de ser católico.
A igreja e a coroa utilizaram vários métodos para alcançar o objetivo de unanimidade da religião, dentre eles a inquisição, conforme Hoornaert (1991, p. 14)
A inquisição ajudou poderosamente a formar (ou deformar) a consciência católica no Brasil, criando a impressão de que todos são católicos da mesma forma, obedecendo às mesmas normas e lutando contra os mesmos inimigos.
O Brasil não teve um tribunal do Santo Ofício, todos os brasileiros que foram indicados pela inquisição eram levados para Portugal para receberem a sentença. Neste período a coroa se utilizou desse instrumento para se apropriar de terras de fazendeiros, acusando-os injustamente para ficar com seus bens. Neste período o medo da inquisição fez com que os brasileiros divulgassem sua fé católica, com medo de serem acusados de hereges ou cristãos novos, faziam isso participando ativamente das atividades da igreja e colocando em seu comércio nome de santos católicos.
Os índios e os africanos tiveram que apresentar-se como católicos para garantirem a sobrevivência e serem aceitos pela sociedade, o catolicismo passou a ser o cimento que une a nação, que prende a todos, e ainda a igreja passou a ser um local de confraternização de todas as raças.
A Igreja Brasileira, na primeira metade do século XIX era regida pelo sistema do padroado. Segundo Hauck (1985, v.II, p.13) a vida da Igreja era regida pela monarquia.
A maior parte das funções episcopais eram exercidas pela instituição leiga do padroado, bispos e sacerdotes encarregados de paróquias eram nomeados e mantidos pelo rei.
Devido essa ligação do clero com a coroa, pode-se dizer que a “Igreja era, no Brasil, uma organização de leigos” (HAUCK, 1985, v. II, p.13). A Coroa recebia e administrava os dízimos dos fiéis, construía igrejas, remunerava o clero e tomava decisões eclesiásticas.
Devido a essa relação igreja/monarquia, questões como escravidão de negros e massacre dos índios não entravam em pauta, e a igreja se comportava como se o problema não existisse. As poucas vezes em que ela se manifestava, “sempre se posicionava favorável ao rei e contrário aos negros e índios” (HAUCK, 1985, v. II, p. 16). Os bispos exigiam dos paroquianos lealdade ao Rei em toda e qualquer circunstância.
A distância entre o bispado e as paróquias era um obstáculo na vida religiosa dos brasileiros, mas diminuir essa distância acarretaria um aumento nas despesas da Coroa, segundo Hauck (1985, v. II p. 87):
É fácil deduzir que muitos padres não acreditassem muito em sua missão sacerdotal e demonstrassem pouco interesse pelo exercício do ministério. Ocupavam-se de suas fazendas, do comércio e pouco interesse mostravam pela vida espiritual do povo. Saint-Hilaire reclama contra o abandono dos fiéis, sem sacramentos, sem instrução religiosa ou moral, enquanto padres vizinhos se ocupavam no comércio; os padres não se dedicavam à instrução dos fiéis e participavam da corrupção geral por não haver vigilância dos bispos, que vivem longe demais; o remédio seria aumentar o número de bispados e paróquias, o que o rei não faz, por economia.
Devido à deficiência da estrutura eclesiástica, a religião no Brasil tinha um caráter doméstico. Na família ocorria a catequização, a precária evangelização e a instrução espiritual.
A família era de grande importância como expressão religiosa, uma vez que a religião brasileira era mais doméstica e privatizada do que institucional. No ambiente familiar aprendiam-se as orações e os comportamentos religiosos (HAUCK, 1985, v. II, p. 13).
Essa religião familiar se tornava lugar fértil para o surgimento do sincretismo religioso, pois sem uma estrutura doutrinária sólida, sem a orientação de teólogos católicos, a assimilação tanto de crenças folclóricas e religiosas cresceu sem nenhum impedimento.
A catequese das crianças ficava por conta das famílias, gerando uma religiosidade muito intensa, sem dúvida, mas de doutrina pouco assimilada, terreno fértil para a mistura de cristianismo com as raízes e reminiscências religiosas de indígenas e africanos (HAUCK, 1985, v. II p. 104).
O sincretismo do catolicismo brasileiro espantava todos os estrangeiros que tinham contato com ele. A diferença entre este e o catolicismo de outros países era grande:
As numerosas festas religiosas eram um meio eficaz de amalgamar crenças provenientes de fontes muito diversas: tradições portuguesas carregadas do folclore peninsular medieval, práticas animistas e fetichistas de índios e africanos, tudo se misturava numa religiosidade que os estrangeiros mais benévolos não conseguiam entender: “na Igreja brasileira não há o que possa causar espanto: está fora de todas as regras” (HAUCK, 1985. v. II, p. 17).
Outra dificuldade encontrada pela igreja brasileira era a falta de um poder central propriamente religioso. Já que Roma não podia opinar em todas as coisas, devido ao sistema do padroado, as ordens terceiras tentaram fazê-lo, mas estavam preocupadas com a própria sobrevivência.
Faltava à Igreja do Brasil um centro de unidade, alguém que personalizasse a sua consciência, que se sentisse autorizado a falar em nome dela. Ou alguém que fosse a voz profética a denunciar os erros e apontar caminhos novos. Tal função foi exercida muitas vezes na história da igreja pelas ordens religiosas, mas estas, completamente decadentes, estavam a exigir um tratamento de urgência. (HAUCK, 1985, v. II, p. 16)
A não obediência da igreja a Roma e sim à Coroa, fazia da igreja um braço do Estado, obrigando o papa a nomear bispos contra a sua vontade, pois trariam benefícios para a Coroa.
Essa situação prosseguiu por todo o século XIX. A Igreja, devido à deficiência de sua liderança, não conseguindo moralizar os brasileiros, produziu assim um cristianismo percebido como superficial, sincrético e sem autoridade profética.
É dentro desse contexto religioso que o viajante Kidder desembarca no Brasil e encontra aqui uma colônia que, segundo Freyre, era uma unidade religiosa petrificada durante três séculos, mas de uma religião, conforme Holanda, democrática, em que seus fiéis não fazem nenhum esforço para praticá-la, porém o clero também contribui com o desprezo da religiosidade, sendo eles mesmos exemplo de negligência, ganância e dissolução. Prado Jr. aborda o aspecto da corrupção dos dirigentes leigos e dos eclesiásticos, colaborando para a instabilidade no povoamento da colônia.
Quando se analisa os viajantes que visitaram o Brasil neste período, vê-se que em alguns aspectos existem uma unanimidade nos discursos, quando se referem à religiosidade brasileira eles convergem para uma mesma origem, visto que para eles o problema do atraso no desenvolvimento é a religiosidade a qual se tornou sincrética e mística, não trazendo os benefícios que uma religião organizada produz na nação, como o progresso, por exemplo.
Para Saint-Hilaire, quando os portugueses chegaram ao Brasil e passaram a viver em contato com a natureza primitiva, ocorreu o que ele chama de regressão social, isto é, os portugueses que viviam isolados, sem muito contato com a população das cidades, se tornavam muito parecidos com os nativos que já viviam ali antes de chegarem os portugueses, dessa forma o isolamento interferia, gerando uma “palermice” nos habitantes. Segundo ele, até mesmo o catolicismo passa por essa regressão primitiva, devido ao contato prolongado com a cultura ameríndia e negra. Uma demonstração desse fenômeno é a celebração carregada de elementos culturais indígenas e africanos.
Mas, como conhecedor do catolicismo europeu, que não possuía essa influência, Saint-Hilaire diz que, quando a igreja conseguir superar os efeitos da regressão provocada pelo ambiente selvagem, a igreja proporcionará a formação moral e
civilizadora de uma elite calcada no “verdadeiro” espírito cristão/católico que conforme o autor possuía papel mais importante que o Estado.
Para Debret, o Brasil ainda iria destacar-se entre as maiores nações civilizadas, não figurava ainda devido à religiosidade predominante, a qual era composta de cerimônias supersticiosas, “vazias e grotescas”, se tornando-se empecilho para o avanço rumo à civilização. Com o objetivo de mudar essa realidade Debret se propõe a oferecer uma biografia nacional para divulgar o Brasil. Essa biografia era um panorama que extrapolava a visão de um país exótico e interessante apenas do ponto de vista da história natural. Para cumprir esse objetivo ele descreve através das imagens a situação dos índios, escravos e homens brancos. Segundo o autor, a partir do Rio de Janeiro o progresso alcançaria o interior do território, a educação e a miscigenação contribuiriam para que o Brasil figurasse entre as maiores nações.
Burton também observou que a religião no Brasil era mística e que diferente de outros lugares, os padres podiam constituir famílias, não tendo tempo para o cuidado com as cerimônias religiosas. Mas muito mais que a religiosidade, Burton identifica que o progresso não chegou ainda no Brasil porque não há estradas e a dificuldade de acesso nos lugares fazia com que a civilização e a prosperidade não chegassem. Para ele os meios de comunicação eram mais importantes do que escolas. Outro aspecto observado por Burton foi o tratamento cordial dos senhores para com os escravos, ele disse que para os escravos o Brasil era o melhor lugar do mundo para viverem, para os senhores não, porque os escravos, segundo ele, aproveitavam dessa bondade.
Ao observar-se como se encontrava o Brasil, nos olhares dos intérpretes Freyre, Holanda e Caio Prado, também se analisa os relatos dos viajantes Saint-Hilaire, Debret e Burton. Praticamente eles detectam os problemas e propõem soluções, as quais muito se assemelham. Tanto os intelectuais brasileiros quanto os viajantes estrangeiros possuíam uma visão de progresso adquirida do conhecimento e vivência na Europa, por isso, ao olharem para o Brasil verificam a necessidade de se fazer alguma coisa para que o progresso chegue aos brasileiros, e a primeira coisa que fazem é falar e escrever sobre o problema, desse modo, nos escritos mostram que a religiosidade tem sido um empecilho para o progresso. O progresso era a palavra de ordem, todos os países estavam em busca do progresso, e os intelectuais brasileiros também o queriam para o Brasil e viam no protestantismo um meio para alcançar este objetivo.
Neste capítulo vimos que as visões tanto dos intelectuais brasileiros, quanto dos viajantes estrangeiros eram muito parecidas. O discurso deles praticamente é o mesmo, o problema da falta de progresso do Brasil é a sua religiosidade. Agora passaremos as
considerações finais desta pesquisa, que tem como objetivo incorporar todos esses discursos, culminando no discurso de Kidder, a fim de entender qual a religiosidade que brota do olhar dele.