5. SPØRREUNDERSØKELSEN
5.6 R ESULTATER
5.6.8 Avkastning, risiko og kapitaltilgang
Após termos percorrido a produção de Alice Canabrava do período por nós recortado (1935-1961), procurando demonstrar como se apropriou da tradição geográfica, através de seus métodos, noções, conceitos e temáticas, veremos adiante que vários campos da Geografia daquele momento também estavam presentes em seus textos, como a Geografia Física; a Geografia Urbana; a Geografia Agrária etc.
Como afirmamos acima, em 1936 e 1937 a subseção de Geografia e História da FFCL da USP contou com a presença de Emmanuel De Martonne, especialista em Geografia Física. Realmente sua presença objetivou suprir a carência nesta área na qual era especialista, pois durante sua estadia ofereceu 16 cursos e sessões de trabalhos práticos aos alunos, “ont été consacrés a l´étude du relief en fonction de la structure géologique et du climat, avec nombreaux exemples empruntés a l´Europe et um certain nombre empruntés au Brasil lui même”726. Tais exercícios práticos consistiam em aprender a traçar perfis corretamente e compreender todos os detalhes dos mapas topográficos. Para tanto, a FFCL precisaria adquirir alguns materiais imprescindíveis à área. “[...] une collection complète de Cartes murales doit être constituée. Une collection de projections doit être réunie aussi. Pour les travaux pratiques [...] Il est indispensable de disposer de cartes topographiques détaillées”727. Pierre Monbeig, quando de sua chegada à FFCL já havia advertido para a necessidade de materiais por meio dos quais os alunos pudessem visualizar aquelas características que as excursões científicas não seriam capazes de mostrar, pelo fato, simplesmente, de não serem constituintes da Geografia das terras paulistas.
De um lado, é necessário ir pensando na constituição de uma coleção de cartas topográficas, geológicas, climáticas, econômicas, tais que o professor possa mostrar aos estudantes, representações concretas do que ele enuncia “ex-cathedra”, e possa também fazer explicar e comentar o mapa, como o historiador faz com o texto, e como o químico dirige os trabalhos de laboratório728.
Realmente, a utilização de mapas ou cartas era vista como um trabalho prático, empírico, como se o geógrafo pudesse, não reproduzir situações e experimentos como o faz o químico em laboratório, mas sim representar o mundo como é visto por ele. O mapa ou carta é um recurso metodológico importante para o geógrafo, principalmente o geógrafo de orientação vidaliana. Obviamente que ele não substitui a observação in loco. Porém, permite
726 DE MARTONNE, op. cit., 1938, p. 119. 727 Idem, p. 121.
ao leitor o recurso à visualização, através das características do espaço representado. Em função disso, tivemos uma importante iniciativa levada à frente por Emmanuel De Martonne, no início dos anos 30 do século passado: a criação de uma escola de Cartografia na França. “Num grau modesto, os geógrafos franceses, criam, por exemplo, no início dos anos 30, uma escola de cartografia cujos resultados deveriam, segundo seu criador Emmanuel de Martonne, interessar os cientistas [...]”729.
Estes mapas e cartas serviam tanto para a representação de caracteres afeitos à Geografia Humana, como mais comumente encontramos em Alice, quanto para a Geografia Física, como requerido por De Martonne. Destarte o fato de não termos encontrado nos trabalhos de Alice nenhum mapa ou carta que trouxesse dados de Geografia Física, nem por isso este campo da Geografia deixou de estar presente.
No artigo de 1938 encontramos uma seção que trata exclusivamente da Geologia da região de Piracicaba. Esta seção não foi escrita diretamente por Alice, mas certamente foi lida por ela. A seção “Notas Geológicas” enquadrou a região de Piracicaba sob uma perspectiva geológica, ou seja, quanto à composição das rochas e os períodos geológicos de sua formação.
A região em estudo apresenta formações exclusivamente pertencentes à idade permo-carbonífera e à triássica, denominadas sistema de Santa Catarina. São rochas sedimentares que incluem as séries de Itararé, Tatuí, Corumbataí e S. Bento, além das intrusões de rochas eruptivas básicas que repousam sobre rochas do complexo cristalino, do devoniano e da série de S. Roque730.
Tratou-se, grosso modo, de “contar a história” da região do ponto de vista da Geologia, ou seja, desde as primeiras formações rochosas dos períodos mais remotos até o mais recente período geológico, o quaternário. Mesmo sem ter sido mencionado no texto, mas somente ter aparecido na bibliografia, essa parte do artigo referente à Geologia pode ser encontrada no artigo de 1932 de Luis Flores de Morais Rego (1896-1940)731, intitulado “Notas sobre a geomorfologia de São Paulo e sua gênese”732. Neste texto, Rego também citou
729 ROBIC, Marie-Claire. A Crise dos Anos 30 e a Emergência de novos temas na Geografia. In: SALGUEIRO,
op. cit., 2006, p. 45.
730 CANABRAVA; MENDES, op. cit., 1938, p. 279.
731 A importância de Luis Flores de Morais Rego, um dos fundadores da Associação de Geógrafos Brasileiros
(AGB), para a Geologia no Brasil foi ímpar. Formado em engenharia pela Escola de Minas de Ouro Preto, realizou inúmeros trabalhos de Geologia e acompanhou Pierre Deffontaines na primeira excursão ao monte Jaraguá, onde apresentou aos alunos seus conhecimentos sobre a região, dado que já havia publicado trabalho sobre a mesma. Ocupou a Cadeira de Mineralogia, Petrologia e Geologia da Escola Politécnica de São Paulo e foi fundador dos cursos de Engenharia de Minas e Engenharia de Metalurgia.
732 Originalmente publicado em 1932, o artigo foi transcrito em duas partes no Boletim Geográfico. Ver: REGO,
Luis Flores de Morais. Notas sobre a geomorfologia de São Paulo e sua gênese (parte I). Boletim Geográfico. Rio de Janeiro, ano IV, n. 37, p. 9-17, 1946. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/19/bg_1946_v4_n37_abr.pdf>. Acessado em 14/06/2013. REGO, Luis Flores de Morais. Notas sobre a geomorfologia de São Paulo e sua gênese (parte II). Boletim
um pequeno estudo preliminar que já havia realizado acerca da geomorfologia do Estado de São Paulo – texto pioneiro em muitos aspectos acerca da geomorfologia paulista; primeira vez em que o termo “geomorfologia” foi empregado no Brasil733 – e que também consta da bibliografia do artigo de Alice e Maria Teixeira Mendes734. Outro texto de Luis Flores de Morais Rego, presente no artigo, intitula-se “Considerações preliminares sobre a Gênese e distribuição dos solos no Estado de São Paulo”, publicado no primeiro número da revista Geografia de 1935735. Já na seção sobre a Geologia da região de Piracicaba, as autoras relacionaram a qualidade do solo da região com sua formação geológica.
Na serra de S. Pedro, entre as camadas de arenito de Botucatú, encontram-se intercalações de rochas eruptivas, formando três ou quatro horizontes e espessura variável. Em geral, essas lavas eruptivas dão um solo muito fértil, quando decompostas: é um solo diferente do resultante do arenito, não só pela cor como pela composição mineralógica. Os solos de Piramboia são, em geral, arenosos claros, pouco argilosos e de pouca fertilidade736.
Na seção propriamente dedicada aos “Solos” da região, Alice e Maria Teixeira Torres Mendes afirmaram tratarem-se de solos característicos de todo o Planalto Paulista, ou seja, solos aluviais737. Na classificação dos solos proposta por Rego, ele afirmou que no Estado de São Paulo os mesmos poderiam ser autóctones ou aluviais. Como o solo é formado pela decomposição de rochas, os solos aluviais são aqueles formados pelo transporte de sedimentos através da água738. Destarte o fato de que textos de Luis Flores de Morais Rego não estivessem presentes no programa da Cadeira de Geografia da FFCL da USP, certamente Alice tomou contato com eles durante as reuniões da AGB. Em seu texto acerca da grande propriedade rural, Alice também relacionou a ocupação vegetal à qualidade do solo, que por sua vez dependia da formação geológica da região.
Geográfico. Rio de Janeiro, ano IV, n. 38, p. 122-132, 1946. Disponível em:
<http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/19/bg_1946_v4_n38_maio.pdf>. Acessado em 14/06/2013.
733 Atualmente Antonio Carlos Vitte tem se dedicado à História da Geomorfologia no Brasil. Ver: VITTE,
Antonio Carlos. Breves considerações sobre a História da Geomorfologia geográfica no Brasil. GEO UERJ. Rio de Janeiro, v. 1, n. 21, p. 1-19, 2010. Disponível em: <http://www.e- publicacoes.uerj.br/index.php/geouerj/article/view/1445/1221>. Acessado em 14/06/2013.
734 REGO, Luis Flores de Morais. Geomorphologia do Estado de São Paulo. In: A Geologia do petróleo no
Estado de São Paulo. Boletim do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil. Rio de Janeiro, n. 46, p. 71-76,
1930.
735 REGO, Luis Flores de Morais. Considerações preliminares sobre a Genesis e distribuição dos solos no Estado
de São Paulo. Geografia. São Paulo, ano I, n. 1, p. 10-51, 1935.
736 CANABRAVA; MENDES, op. cit., 1938, p. 279. 737 Idem, p. 280
738 REGO, Luis Flores de Morais. Considerações preliminares sobre a Gênese e distribuição dos solos no Estado
de São Paulo. Boletim Geográfico. Rio de Janeiro, ano III, n. 27, 1945, p. 352. Esta é uma transcrição do texto
original de 1935. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/19/bg_1945_v3_n27_jun.pdf>. Acessado em 14/06/2013.
A famosa “zona da mata” não se desenvolvia com continuidade; além da Paraíba do Norte desaparecia completamente; ao sul, ocupava apenas as manchas de solos ricos, provenientes de decomposição dos gnaisses, dos xistos e dos calcários cretáceos, umedecidos pelas chuvas copiosas do litoral. Junto à orla marítima, os tabuleiros de arenitos terciários, com seus solos inférteis, inaproveitáveis para a lavoura, apresentavam uma vegetação pobre, com sua paisagem de arbustos raquíticos e plantas herbáceas que desapareceram durante a época de seca739.
Em sua tese de 1946 também encontramos uma análise a partir da Geologia daquela região das Ilhas Antilhanas. Alice destacou a instabilidade geológica da região a partir do texto já citado do geógrafo norte-americano Preston Everett James. “Erupções vulcânicas e tremores de terra frequentes são os indícios do último período eruptivo, iniciado no Terciário e ainda em processo na era atual”740. Além de Preston James, a parte da tese sobre “O meio geográfico” também se baseou em Mexique, Amérique centrale, da coleção já mencionada da Géographie Universelle741, de Maximilien Sorre742.
Em função de sua história geológica, o espaço para agricultura é bastante escasso, principalmente devido à grande presença de montanhas. “[...] é nas Grandes Antilhas que as ruínas da cordilheira, outrora poderosa, se conservaram em maior porção: aí se situa a parte principal do sistema. Os pregueamentos terciários formam duas linhas paralelas que se estendem desde a Passagem de Anegada até a América Central e o México”743.
O calcário foi apontado por Alice como o principal componente das rochas. Toda essa formação geológica foi ligada por Alice à topografia. A topografia da região é marcada pela
739 CANABRAVA, Alice Piffer. A Grande Propriedade Rural. In: CANABRAVA, op. cit., 2005, p. 49. 740 CANABRAVA, op. cit., 1981, p. 56.
741 SORRE, Maximilien. Mexique, Amérique Centrale. In: GALLOIS, Lucien; DE LA BLACHE, Paul Vidal
(orgs.). Géographie Universelle. Paris: Armand Colin, v. XIV, 1928. Para uma resenha contemporânea da obra ver: VERGEZ-TRICOM, Geneviève. Géographie de l’Amérique Centrale. Annales de Géographie. Paris, n. 218, p. 199-203, 1930. Disponível em: <http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/geo_0003- 4010_1930_num_39_218_10040>. Acessado em 26/05/2013.
742 Ver: MEGALE, Januário Francisco. Geografia e sociologia em Max. Sorre. São Paulo: IPE/USP, 1983. Esta
foi a primeira tese escrita no Brasil sobre a obra de Maximilien Sorre. VIEITES, Renato Guedes. A influência de
Maximilien Sorre e Vidal de La Blache na geografia médica de Josué de Castro. 2008. 109 f. Dissertação
(Programa de Pós-Graduação em Geografia) – UERJ, Rio de Janeiro, 2008. Sobre o complexo patogênico de Max. Sorre: FERREIRA, Marcelo Urbano. Epidemiologia e Geografia: o complexo patogênico de Max. Sorre.
Cadernos de Saúde Pública. Rio de Janeiro, v. 7, n. 3, p. 301-309, 1991. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/csp/v7n3/v7n3a02.pdf>. Acessado em 05/06/2013. O eminente geógrafo brasileiro Milton Santos é recorrentemente chamado de sorreano. Ver: FREITAS, Ines Aguiar de; VIEITES, Renato Guedes. A influência de Maximilien Sorre e Vidal de La Blache na geografia médica de Josué de Castro.
Scientia Plena. Rio de Janeiro, v. 5, n. 6, 2009, p. 4 e 10. Disponível em:
<http://www.scientiaplena.org.br/sp_v5_065401.pdf>. Acessado em 05/06/2013. A presença de Max. Sorre na obra de Milton Santos foi uma constante, principalmente devido à sua noção de técnica. Ver: GRIMM, Flávia.
Trajetória epistemológica de Milton Santos: uma leitura a partir da centralidade da técnica, dos diálogos com a economia política e da cidadania como práxis. 2011. 307 f. Tese (Programa de Pós-Graduação em Geografia
Humana) – USP, São Paulo, 2011. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde- 26062012-143800/pt-br.php>. Acessado em 05/06/2013.
“[...] oposição entre as montanhas de declives abruptos a marcarem as linhas de fratura e as terras baixas e depressões, ou entre as elevações isoladas e as pequenas planícies intermediárias de vale ou de beira-mar”744. A descrição topográfica também pode ser encontrada em sua tese de 1951745. A localização das chácaras paulistanas durante o período 1885-1890 foi explicada pela topografia da cidade de São Paulo. “Dada a topografia da capital – colinas suaves separadas por vales –, a tendência tradicional da escolha do sítio das residências paulistanas orientou-se para os sítios aprazíveis das colinas tabulares, suaves, que circundam a colina central”746.
Durante todo seu primeiro ano de graduação, ou seja, 1935, Alice estudou aspectos relacionados ao “relevo”747. Em 1937, último ano de graduação de Alice, Pierre Monbeig e Emmanuel De Martonne dividiram um curso sobre relevo do solo que durou o ano inteiro. A primeira parte, ministrada por Monbeig, versou acerca do “relevo do solo (Topografia normal)”. A segunda parte, sobre “relevo do solo (Topografias estruturais e influências climáticas no relevo)”, foi ministrada por De Martonne. Além do fato de que um curso de Climatologia foi ministrado pelo assistente da Cadeira de Geografia, João Dias da Silveira748, durante todo o ano de 1937749. Contudo, o interesse de Alice pela Geografia Física não parece ter sido saciado, uma vez que “[...] em Março de 1938 fez um estágio de três meses junto ao departamento Geográfico e Geológico, frequentando as seções de Climatologia e Hidrografia”750.
Esta vasta gama de conhecimentos adquiridos por Canabrava em Geografia Física permitiu-a articular aspectos geológicos, do estado do solo, topográficos, climáticos e hidrográficos. Desta feita, foi o que realizou em sua tese de 1946 ao relacionar o clima à
744 Idem, p. 58.
745 CANABRAVA, op. cit., 2011, p. 127.
746 CANABRAVA, Alice Piffer. As Chácaras paulistanas (primeiros estudos). In: CANABRAVA, op. cit., 2005,
p. 238-239.
747 Anuário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1934-1935, 1937, p. 281.
748 Em 1938, a conselho do Prof. De Martonne, o ensino de Geografia foi desdobrado e criada a Cadeira de
Geografia Física. Nesse ano foi encarregado do curso o Prof. João Dias da Silveira, na categoria de 1º assistente. Em 1939, o Prof. João Dias da Silveira foi contratado como professor da Cadeira. O contrato do Prof. João Dias da Silveira foi renovado até 1949 quando, aberto concurso para provimento efetivo da Cadeira, foi o mesmo professor nomeado para reger o ensino interinamente (posteriormente, tendo realizado concurso de títulos e provas, tornou-se o Professor Dias da Silveira, professor catedrático). Cf. Anuário da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras, 1939-1949, volume II, 1953, p. 593. João Dias da Silveira foi o autor da primeira tese de
Geomorfologia escrita no Brasil e defendida em 1947 sob o título de “Estudo geomorfológico dos contrafortes ocidentais da Serra da Mantiqueira” sob a orientação de Pierre Monbeig. Cf. VITTE, Antonio Carlos. Breves considerações sobre o papel de Pierre Monbeig na formação do pensamento geomorfológico uspiano. Revista de
Climatologia e Estudos da Paisagem. Rio Claro, v. 4, p. 50-69, 2009.
749 Anuário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1937-1938, 1938, p. 177.
750 Processo 46.1.126.8.7 (Arquivo FFLCH da USP: inscrição no concurso para a Cadeira de História da
geologia. “Por causa das profundas consequências de ordem climática, é importante assinalar o contraste marcado entre as ilhas elevadas, que formam um bloco montanhoso acima das águas, e as ilhas baixas, semeadas de colinas e em parte cobertas pelas águas”751. O clima nessa região foi explicado por Alice Canabrava através das características topográficas do relevo, que por sua vez explicam a pluviosidade.
As ilhas do mar dos Caraíbas estão situadas na rota dos ventos alíseos. Estes ventos sopram do noroeste e de leste, refrescando as vertentes expostas e trazendo as chuvas de verão. As vertentes ocidentais recebem menos chuvas e as ilhas baixas do arco externo, onde a altitude não é suficiente para despojar os ventos de toda sua umidade, recebem menos chuvas que as ilhas montanhosas752.
Em linguagem corrente: como os ventos úmidos sopram de leste (oriente) para oeste (ocidente), somente recebem chuvas as áreas de montanhas localizadas a oriente com altitude que possibilite o encontro com estes ventos. Consequentemente, as áreas localizadas a oeste das montanhas são extremamente secas. No artigo sobre a região de Piracicaba, as autoras relacionaram o clima à topografia e apresentaram alguns elementos constituintes do primeiro, como a temperatura e a precipitação753. Em sua tese de 1942 também apresentou a caracterização climática da zona seca da América do sul, fornecendo-nos dados pluviométricos a partir de texto já mencionado de Emmanuel De Martonne acerca das regiões áridas da América do Sul754. Em sua apresentação de 1950 na V Assembleia Geral da AGB, Canabrava explicou a localização das chácaras paulistanas através, dentre outros fatores, do clima755. Na tese de 1951, Alice também nos forneceu dados referentes ao clima da região de Sorocaba. “Caracterizada em geral pelo clima quente, a região apresenta em média, temperatura de verão acima de 22º C e a de inverno inferior a 18º C. A pluviosidade do mês mais seco, tão importante para a produção do algodoeiro, é inferior a 30 mm em Sorocaba [...]”756.
Ao tratar do clima e da precipitação da região de Piracicaba, Alice tomou como referência texto de José Setzer757, intitulado “Contribuição para o estudo do clima do Estado
751 CANABRAVA, op. cit., 1981, p. 59. 752 Idem, p. 61.
753 CANABRAVA; MENDES, op. cit., 1938, p. 281. 754 CANABRAVA, op. cit., 1944, p. 8.
755 CANABRAVA, Alice Piffer. As Chácaras paulistanas (primeiros estudos). In: CANABRAVA, op. cit., 2005,
p. 239.
756 CANABRAVA, op. cit., 2011, p. 127.
757 Engenheiro. Trabalhou como pedólogo do departamento da produção vegetal do Estado de São Paulo. Foi o
de São Paulo”758. Com um grande número de tabelas, diagramas e mapas, trouxe as médias de temperatura de verão utilizadas por Alice; médias de temperatura de inverno e pluviosidade do mês mais seco. Ao tratar das “limitações à expansão da cultura algodoeira”759 no litoral da Província, Canabrava utilizou-se mais uma vez do estudo de José Setzer acerca do clima no Estado de São Paulo. Alice apontou para o fato de que no litoral não há uma estação seca bem definida e as precipitações violentas e em excesso, “[...] constituíram uma barreira climática ao estabelecimento da cultura algodoeira no litoral da Província”760. Outro texto de José Setzer mobilizado por Alice com o fito de caracterizar o melhor solo para a produção do algodão, intitula-se “Os solos do Estado de São Paulo”761. “Quanto ao solo, o algodoeiro se contenta com terras de baixo teor orgânico, mas não tolera alta porcentagem de acidez”762. Ainda sobre as limitações na expansão da cultura algodoeira na Província, Alice, ao analisar o caso do Vale do Paraíba, postulou que o algodão somente teria êxito nos municípios ao sul do Vale, por apresentarem solos menos ácidos763, como constatado por Setzer ao analisar os solos do Vale do Paraíba.
A atenção de Alice quanto ao clima pode também ser explicada pelo fato de que a Cadeira de Geografia Física dedicava todo um tópico ao clima, relacionando-o com a vegetação e os gêneros de vida.
O curso versará sobre o estudo dos climas. Mecanismo, a repartição geográfica, as reações mútuas dos diversos elementos que constituem o clima serão sucessivamente examinadas (Temperatura, precipitação, pressão). Estudar-se-á em seguida a classificação e a repartição geográfica dos climas e a sua relação com as zonas de vegetação e a localização dos gêneros de vida. Influência do clima sobre o homem, biologicamente e socialmente764.
O programa da Cadeira de Geografia para os anos de 1934-1935 trouxe um tópico que tratou do “clima e vegetação”, durante todo o segundo ano de curso de Alice, ou seja, 1936765.